Não mudaram muito os pregões do Recife.
Ouvem-se ainda hoje alguns dos tempos antigos, embora muitos outros novos existam.
O pregão do homem dos cucuzes é o de outrora e o mais madrugador. Ainda meio escuro é
ouvido nas ruas da cidade e nas dos arrabaldes.
Insistentemente. Inconfundivelmente. Cedinho. Antes mesmo do "Manhã!
Comércio!
" dos gazeteiros. Brr
Cuscui!
Homens, de tabuleiros de flandres às cabeças, são esperados por todos os que não sabem
como tomar o cafezinho cheiroso e quente, sem a saborosa guloseima de milho. O freguês
chega afinal, tira a tampa do tabuleiro, e, com uma pazinha de metal arrasta logo o cuscuz
amarelinho, úmido, redondo. E gostoso. O cuscuz vem de tempos remotíssimos. Foram os
primeiros escravos que trouxeram a receita para nossos antepassados e desde então nunca
mais se deixou de pilar o milho de madrugada, de se espremer o coco e de se pôr a massa a
cozinhar dentro de um pano alvo à boca de uma chaleira
Com o correr do dia os outros vendedores ambulantes enchem as ruas do Recife. É o das
verduras com seus cestos superpostos dentro dos quais se entremostram as talhadas de
jerimuns, os gumes dos quiabos, as cabeças de cebolinhas, os molhos dos maxixes. É o
peixeiro com as cavalas e bicudas pendentes dos calões: um
portador carrega a mercadoria e o peixeiro vai à frente, de faca em punho, apregoando.
"Eh! Bicuda!" É o menino que vende cajus amarrados em grandes rodas vermelhas
ou amarelas. É o freguês de bananas, gritando "Maçã madurinha!" É o homem
do aipim: "Macaxeira
Bahia!"
Um dos modos de vendagem típicas da capital pernambucana será o de fressuras.
Os vendedores carregam os tabuleiros cheios de mocotós, fígados, miolos, miúdos, tudo
muito arrumadinho, e vão berrando: Lu! De tal modo que uma pessoa estranha à terra
topando com um indivíduo assim, de roupas meio ensangüentadas, de vaca na mão, e dando
semelhante berro, pode cair ou correr de susto.
Vendedor ambulante que fez época foi o das vassouras. Ficou mesmo conhecido pelo homem
das vassouras. Andava carregando um verdadeiro mostruário da sua especialidade e ia
gritando num tom mais de lamento que de oferta:
Minha gente, olhe o homem da vassoura... O homem da vassoura já vai embora
Pregão também muito interessante, mas que só tem sabor na sua entonação musical é o
do vendedor de "lã de barriguda para travesseiros". Também harmonioso e antigo
o do mel de engenho:
Mé novo!!
Com a vendagem de sorvetes em casquinhas, conduzidos em carrocinhas, o sorveteiro de
outrora está desaparecendo. Ele, porém, teve o seu reinado. Nos tempos em que os gelados
ainda eram uma novidade, quase uma coisa proibida. Contam os cronistas que o sorvete
apareceu no Recife por volta de 1859. Era feito com gelo vindo da Europa
Nem por
isso caro. 300 réis o copo. Havia uma casa que publicava um anúncio assim:
Na esquina do Rosário
Quer de noite, quer de dia
Há sorvete de patente
Feito por engenharia
E um competidor replicava:
Não é por máquina, não
Mas tão bom não há aí
É sorvete feito à mão
Sorvete de abacaxi
Os sorveteiros ambulantes tinham também sua maneira de apregoar muito sonora. Ao
escurecer já era ouvida de longe sua doce cantilena:
Sorveeeeeete
É de mangaba!
O homem da carne de porco, em regra, grita:
de porco!
de porco!
Além da vendagem ambulante, que enche de seu pitoresco o Recife, há, igualmente, com uma
cor não menos local, o dos vendedores de rua, mas fixos.
Temos o homem da gelada: um quiosquezinho, com grandes frascos cheios de refrescos, e uma
coleção de copos em redor. O de cachorro-quente, nas festas de igreja. A mulher das
tapiocas. Esta é uma das mais antigas e típicas. Senta-se sempre numa esquina de rua do
bairro de São José ou de arrabalde. Quando não num pé de escada. Tem um fogareiro ao
lado, com uma frigideira. Ali, ela espalha a massa de mandioca, salpica o sal, deita o
coco e espera que a tapioca fique pronta. Muito alvas, por vezes levemente tostadas,
dobradinhas, ela vai arrumando as tapiocas num tabuleiro. Ocasiões há em que a freguesia
é tanta que fica esperando pelas tapiocas ainda em preparo.
Embora muito raras, ainda existem as mulheres do mugunzá. Também vendem na rua a
sua saborosa mercadoria. À medida que chegam os fregueses, com pratos, tigelas ou
terrinas, elas destampam o caldeirão e com uma colher de ágata vão enchendo as vasilhas
do caldo grosso de milho, tão perfumado, tão provocador.
Ainda passam pelas ruas o freguês das lagostas, o dos caranguejos, o comprador de
garrafas e jornais velhos, o das galinhas, montado num cavalo e ladeado por dois caçuás cheios de aves:
Galinha e capão gordo!
O de ovos não se cansa de gritar, imitando um cacarejo:
Qué ovos? Qué ovos? Qué ovos?
Há, no Recife, um vendedor ambulante que tem para mais de setenta anos de idade e não
mudou. Os quase velhos de hoje o viram assim mesmo em menino. É o homem das ostras. Alto,
negro, seco, de calças arregaçadas e pernas sujas de lama, com um samburá na cabeça. O
seu pregão é o nosso pregão-vovô:
Eu, tenho ostras
Tenho ostras
Chegada agora
Chegada agora
(SETTE, Mário. Maxambombas e maracatus. 3ª ed. Rio de Janeiro, Casa do Estudante
Brasileiro, 1958) |
 
Arrabaldes: Subúrbio; Cercanias de uma cidade ou
povoação.
Caçuás: Cesto grande feito de cipós rijos, vime
ou fasquias de bambu usado para transporte de gêneros em animálias.
Calões: Pedaço de pau roliço, nas extremidades
do qual se suspendem os objetos que se devem transportar ao ombro; Embarcação comprida e
larga, usada especialmente na pesca do atum.
Cantilena: Cantiga monótona; Cantiga suave.
Fressuras: O conjunto das vísceras mais grossas,
como pulmões, fígado, coração, etc., de alguns animais. |