VI
Faz duzentos anos que aqui estou: aprendi sabedorias
árabes e tenho tornado contentes alguns raros homens que bem sabem que a alma é um peso
entre o mandar e o ser mandado...
Nunca mais dormi; nunca mais nem fome, nem sede, nem dor, nem riso...
Passeio no palácio maravilhoso, dentro deste Cerro do Jarau, ando sem parar e sem
cansaço; piso com pés vagarosos, piso torrões de ouro em pó, que se desfazem como
terra fofa; o areão dos jardins, que calco, enjoado, é todo feito de pedras verdes e
amarelas e escarlates, azuis, rosadas, violetas...; e quando a encantada passa todas
incendeiam-se num íris de cores rebrilhantes, como se cada
uma fosse uma brasa viva faiscando sem a mais leve cinza...; há poços largos que estão
atulhados de dobrões e de onças e peças de jóias e armaduras, tudo ouro maciço do
Peru e do México e das Minas Gerais, tudo cunhado com os troféus dos senhores reis de
Portugal e de Castela e Aragão.
E eu olho para tudo, enfarado de ter tanto e de não poder gozar nada entre os homens,
como quando era como eles e como eles gemia necessidades e cuspia invejas, tendo horas de
bom coração por dia de maldades e sempre aborrecimento do que possuía, ambicionando o
que não possuía...
O encantamento que me aprisiona consente eu acompanhe os homens de alma forte e coração
sereno que quiserem contratar a sorte nesta salamanca que eu tornei famosa, do Jarau.
Muitos têm vindo... e têm saído piorados, para lá longe iriam morrer do medo aqui
pegado, ou andarem pelos povoados assustando as gentes, loucos, ou pelos campos fazendo
vida com os bichos brutos...
Poucos toparam a parada... ah!... mas esses que toparam, tiveram o que pediram, que a rosa
dos tesouros, a moura encantada não desmente o que eu prometo, nem retoma o que dá!
E todos os que chegam deixam um resgate de si próprio para o nosso livramento um dia...
Mas todos que vieram são altaneiros e vieram arrastados pela
ânsia da cobiça ou dos vícios, ou dos ódios: tu foste o único que veio sem pensar e o
único que me saudou como filho de Deus...
Foste o primeiro até agora; quando terceira saudação de cristão bafejar estas alturas,
o encantamento cessará, porque eu estou arrependido... e como Pedro Apóstolo que três
vezes negou Cristo foi perdoado, eu estou arrependido e serei perdoado.
Está escrito que a salvação há de vir assim; e por bem de mim, quando cessar o meu
cessará também o encantamento de teiniaguá: e quando isso se der a salamanca
desaparecerá, e todas as riquezas, todas as pedras finas, todas as peças cunhadas, todos
os sortilégios, todos os filtros para amar por força... para matar... para vencer...
tudo, tudo, tudo se virará uma fumaça que há de sair pelo cabeço roto
do Cerro, espalhada nas rosas do ventos pela rosa dos tesouros...
Tu me saudaste - o primeiro, tu! - saudaste-me como cristão.
Pois bem: alma forte e coração sereno!... quem isso tem, entra na salamanca, toca o
condão mágico e escolhe do quanto quer...
Alma forte e coração sereno! A furna escura está lá: Entra! Entra! Lá dentro sopra um
vento quente que apaga qualquer torcida de candeia... e
tramado nele corre outro vento frio, frio... que corta como serrilha
de geada.
Não há ninguém lá dentro... mas bem que se escuta voz de gente, vozes que falam...
falam, mas não se entende o que dizem, porque são línguas atoradas
que falam, são os escravos da princesa moura, os espíritos da teiniaguá... Não há
ninguém... não se vê ninguém: mas há mãos que batem, como convidando, no ombro do
que entra firme, e que empurram, como ainda ameaçando, o que recua com medo...
Alma forte e coração sereno! Se entrares assim, se te portares lá dentro assim, podes
então querer e serás servido!
Mas, governa o pensamento e segura a língua: o pensamentos dos homens é que os levanta
acima do mundo, e a sua língua é que os amesquinha...
Alma forte, coração sereno!... Vai!
Blau, o guasca, apeou-se; maneou flete e por de seguro ainda
pelo cabresto prendeu-o a um galho de cambuim que verga sem quebrar-se; rodou as esporas
para o peito do pé; aprumou de bom jeito o facão; santiguou-se,
e seguiu...
Calado fez; calado entrou.
O sacristão levantou-se e o seu corpo desfez-se em sombra na sombra da reboleira.
O silêncio que então se desdobrou era como o vôo parado das corujas: metia medo...
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