III
É certo: não tomou tenência que a teiniaguá era
mulher
Ouve, paisano.
No costado da cidade onde eu vivia havia uma lagoa, larga e funda, com uma ilha de
palmital, no meio. Havia uma lagoa
A minha cabeça foi banhada na água benta da pia, mas nela entraram soberbos pensamentos
maus
O meu peito foi ungido com os santos óleos, mas nele entrou a doçura que
tanto amarga, do pecado
A minha boca, provou do sal piedoso
e nela entrou a frescura que requeima, dos
beijos da tentadora
Mas, é que assim era o fado
tempo e homem virão para me libertar, quebrando o
encantamento que me amarra; duzentos anos hão de findar; eu esperei no entanto, vivendo
na minha tristeza seca tristeza de arrependido que não chora
Tudo o que volteia no ar tem seu dia de aquietar-se no chão
Era eu que cuidava dos altares e ajudava a missa dos santos padres da igreja de São
Tomé, do lado ao poente do grande rio Uruguai. Sabia bem acender os círios,
feitos com a cera virgem das abelheiras da serra; e bem balançar o turíbulo,
fazendo ondear a fumaça cheirosa do rito; e bem tocar a santos, na quina do altar, dois
degraus abaixo, à direita do padre; e dizia as palavras do missal; e nos dias de festa
sabia repicar o sino; e bater as horas, e dobrar a finados
eu era o sacristão.
Um dia na hora do mormaço, todo o povo estava nas sombras, sesteando;
nem voz grossa de homem, nem cantoria das moças, nem choro de crianças: tudo sesteava. O
sol faiscava nos pedregulhos lustrosos, e a luz parecia que tremia, peneirada, no ar
parado, sem uma viração.
Foi nessa hora que eu saí da igreja, pela portinha da sacristia, levando no corpo a
frescura da sombra benta, levando na roupa o cheiro de fumaça piedosa. E saí sem pensar
em nada, nem de bem nem de mal; fui andando, como levado...
Todo povo sesteava, por isso ninguém viu.
A água da lagoa borbulhava toda, numa fervura, ronquejando tal e qual como uma marmita no
borralho. Por certo que lá embaixo, dentro da terra, é que
estaria o braseiro que levantava aquela fervura que cozinhava os juncos e as traíras e
pelava as pernas dos socós e espantava todos os mais bichos
barulhentos daquelas águas...
Eu vi, vi o milagre de ferver toda aquela lagoa..., ferver, sem fogo que se visse!
A mão direita, pelo costume, andou para fazer o Pelo Sinal... e parou, pesada como
chumbo; quis rezar um Credo, e a lembrança dele recuou; e voltar, correr e mostrar
o Santíssimo... e tanger o sino em dobre... e chamar o padre
superior, tudo para esconjurar aquela obra do inferno... e nada fiz... nada fiz, sem
força de vontade, nada fiz... nada fiz, sem governo no corpo!...
Eu fui andando, como levado, para de mais perto ver, e não perder de ver o espantoso...
Porém logo outra força acalmou tudo; apenas a água fumegante continuou retorcendo os
lodos remexidos, onde boiava todo uma mortandade dos viventes que morrem sem gritar...
Era no fim de um lançante comprido, estrada batida, e limpa,
de todos os dias as mulheres irem para a lavagem: e quando eu estava na beira da água,
vendo o que estava vendo, então rompeu dela um clarão, maior que o da luz a pino do dia,
clarão vermelho, como dum sol morrente, e que luzia desde o fundão da lagoa e varava a
água barrenta...
E veio crescendo para a barranca, e saiu e tomou terra, e sem medo e sem ameaça veio
andando para mim a sempre escapada maravilha..., maravilha que os que nunca viram juravam
sempre ser verdade - e que eu que estava vendo, ainda jurava ser - mentira!
Era a teiniaguá, de cabeça de pedra luzente, por sem dúvida; dela já tinha ouvido ao
padre superior a história contada dum encontradiço que
quase cegou de teimar em agarrá-la.
Entrecerrei os olhos, coando a vista, cautelando o perigo; mas a teiniaguá veio-se me
chegando, deixando no chão duro rastro dágua que escorria e logo secava, do seu
corpinho verde de lagartixa engraçada e buliçosa...
Lembrei-me - como quem olha dentro duma cerração- ,
lembrei-me do que corria na voz da gente sobre o entanguimento
que traspassa o nosso corpo na hora do encantamento: é como o azeite fino num couro
ressequido...
Mas não perdi de todo a retentiva: pois que da água saía,
é que na água viveria. Ali perto, entre os capins, vi uma guampa
e foi quando agarrei dela e enchi-a na lagoa, ainda escaldando, e frenteei a teiniaguá
que, da vereda que levava, entreparou-se, tremente, firmando nas patinhas da frente, a cabeça cristalina,
como curiosa, faiscando...
De olhos apertados, piscando, para me não atordoar dum golpe de cegueira, assentei no
chão a guampa e preparando o bote, num repente, entre susto e coragem, segurei a
teiniaguá e meti-a para dentro dela!
Neste passo senti o coração como que martelar-me no peito e a cabeça sonando como um
sino de catedral...
Corri para o meu quarto, na casa-grande dos santos padres. Entrei pelo cemitério, por
detrás da igreja, e destinado, derrubei cruzes, pisoteei ramos, calquei sepultura!...
Todo povo sesteava; por isso ninguém viu.
Fechei a guampa dentro da canastra e fiquei estatelado, pensando.
Pelo falar do padre superior eu bem sabia que quem prendesse a teiniaguá ficava sendo o
homem mais rico do mundo; mais rico que o Papa da Roma, e o Imperador Carlos Magno e o rei
da Trebizonda e os Cavaleiros da Tábula...
Nos livros que eu lia estes todos eram os mais ricos que se conhecia.
E eu, agora!...
E não pensei mais dentro da minha cabeça, não; era uma cousa nova e esquisita: eu via,
com os meus olhos, os pensamentos diante deles, como se fossem cousas que se pudesse tantear com as mãos...
E foram se escancarando portas de castelos e palácios, onde eu entrava e saía, subia e
descia escadarias largas, chegava às janelas, arredava reposteiros, deitava-me em trastes
que nunca tinha visto e servia-me em baixelas estranhas, que eu não sabia para o que
prestavam...
E foram se estendendo e alargando campos sem fim, perdendo o verde no azul das
distâncias, e ainda lindando com outras estâncias, que
também eram minhas e todas cheias de gadaria, rebanhos e manadas...
E logo cancheava erva nos meus ervais, cerrados e altos como
mato virgem...
E atulhava de planta colhida - milho, feijão, mandioca - os
meus paióis.
E detrás das minhas camas, em todos os quartos dos meus palácios, amontoava surrões de ouro em pó e pilhotes de barras de prata; dependuradas
na galhação de cem cabeças de servos, tinha bolsas de couro e de veludo, atochadas de
diamantes, brancos como gotas dágua filtrada em pedra, que meus escravos - saídos
mil, chegados dez - , tinham ido catar nas profundas do sertão, muito pra lá de uma
cachoeira grande, em meia-lua, chamada de Iguaçu, muito pra lá doutra cachoeira grande,
de sete saltos, chamada de Iguaíra...
Tudo isto eu media e pesava e contava, até cair de cansaço; e mal que respirava um
descanso, de novamente, de novamente pegava a contar, a pesar, a medir...
Tudo isto eu podia ter - e tinha, de meu, tinha! - porque era o dono da teiniaguá, que
estava presa dentro da guampa, fechada na canastra forrada de couro cru, tauxiada de cobre, dobradiças de bronze!...
Aqui ouvi o sino da torre badalando para a oração da meia-tarde...
Pela primeira vez não fui eu que; seria um dos padres, na minha falta.
Todo o povo sesteava, por isso ninguém viu.
Voltei a mim. Lembrei-me de que o animalzinho precisava alimento.
Tranquei portas e janelas e saí para buscar um porongo de
mel de lexiguana, por ser o mais fino.
E fui; melei; e voltei.
Abri sutil a porta e tornei a fechá-la ficando no escuro.
E quando descerrei a janela e andei para a canastra a tirar a guampa e libertar a
teiniaguá para comer o mel, quando ia fazer isso, os pés se me enraizaram, os sentidos
do rosto se arriscaram e o coração mermou no compassar o
sangue!...
Bonita, linda, bela, na minha frente estava uma moça!...
Que disse:
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