II
- Na terra dos espanhóis, do outro lado do mar, havia
uma cidade chamada Salamanca, onde viveram os mouros, os mouros que eram mestres nas artes
de magia; e era numa furna escura que eles guardavam o condão mágico, por causa da luz
branca do sol, que diz que desmancha a força da bruxaria
O condão estava no regaço duma fada velha, que era uma
princesa moça, encantada, e bonita, bonita como só ela!
Num mês de quaresma os mouros escarneceram muito do jejum dos batizados, e logo perderam
uma batalha muito pelejada; e vencidos foram obrigados a ajoelharem-se ao pé da Cruz
Bendita
e a baterem nos peitos, pedindo perdão
Então, depois, alguns, fingidos de cristãos, passaram o mar e vieram dar nestas terras
sossegadas, procurando riquezas, ouro, prata, pedras finas, gomas cheirosas
riquezas
para levantar de novo o seu poder e alçar de novo a Meia-Lua sobre a Estrela de
Belém
E para segurança das suas tranças trouxeram escondida a fada velha, que era a sua
formosa princesa moça.
E devia ter mesmo muita força o condão, porque nem os navios se afundaram, nem os frades
de bordo desconfiaram, nem os próprios santos que vinham, não sentiram
Nem admira, porque o condão das mouras encantadas sempre aplastou a alma dos frades e não se importa com os santos do altar, porque
esses são só imagens
Assim bateram nas praias da gente pampiana os tais mouros e mais outros espanhóis
renegados. E como eles eram, todos, de alma condenada, mal puseram pé em terra, logo na
meia-noite da primeira sexta-feira foram visitados pelo mesmo Diabo deles, que neste lado
do mundo era chamado de Anhangá-pitã e mui respeitado.
Então, mouros e renegados disseram ao que vinham; e Anhangá-pitã folgou muito; folgou,
porque a gente nativa daquelas campanhas e a destas serras era gente sem cobiça de
riquezas, que só comia a caça, o peixe, a fruta e as raízes que Tupã despejava sem
conta, para todos, das suas mãos sempre abertas e fazedoras.
Por isso Anhangá-pitã folgou, porque assim minava para o peito dos inocentes as maldades
encobertas que aqueles chegados traziam
e pois, escutando o que eles ambicionavam
para vencer a Cruz com a força do Crescente, o maldoso pegou do condão mágico
que navegara em navio bento e entre frades rezadores e santos milagrosos -, esfregou-o no
suor do seu corpo e virou-o em pedra transparente; e lançando o bafo queimante do seu
peito sobre a fada moura, demudou-a em teiniaguá,
sem cabeça. E por cabeça encravou então no novo corpo da encantada a pedra, aquela, que
era o condão, aquele.
E como já era sobre a madrugada, no crescimento da primeira luz do dia, do sol vermelho
que ia querendo romper dos confins por sobre o mar, por isso a cabeça de pedra
transparente ficou vermelha como brasa e tão brilhante que olhos de gente vivente não
podiam parar nela, ficando encandeados, quase cegos!
E desfez-se a companhia até o dia da peleja da nova batalha. E chamaram salamanca
à furna desse encontro; e o nome ficou pras furnas todas, em lembrança da cidade
dos mestres mágicos.
Levantou-se um ventarão de tormenta e Anhangá-pitã, trazendo num bocó
a teiniaguá, montou nele, de salto, e veio correndo sobre a correnteza do Uruguai, por
léguas e léguas, até as suas nascentes, entre serranias macotas.
Depois, desceu, sempre com ela; em sete noites de sexta-feira ensinou-lhe a vaqueanagem de todas as furnas recamadas
de tesouros escondidos
escondidos pelos cauílas,
perdidos para os medrosos e achadios de valentes
E a
mais desses, muitos outros tesouros que a terra esconde e que só os olhos dos zaoris podem vispar
Então Anhangá-pitã, cansado, pegou num cochilo pesado, esperando o cardume das
desgraças novas, que deviam pegar pra sempre
Só não tomou tenência que a teiniaguá era mulher
Aqui está tudo o que eu sei, que a minha avó charrua contava à minha mãe, e que ela
já ouviu, como cousa velha, contar por outros, que, esses viram!
E Blau Nunes bateu o chapéu para o alto da cabeça, deu um safanão no cinto, aprumando o
facão
foi parando o gesto e ficou-se olhando, sem mira, para muito longe, para onde
a vista não chegava mas onde o sonho acordado que havia nos seus olhos chegava de sobra e
ainda passava
ainda passava porque o sonho não tem lindeiros
nem tapumes
Falou então o vulto de face branca e tristonha; falou em voz macia. E disse assim:
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