X
Para os olhos de Blau o cerro ficou como de vidro
transparente, então viu ele o que lá dentro se passava: os brigões, os jaguares, os
esqueletos, os anões, as lindas moças, a boicininga, tudo, torcido e enovelado,
amontoado, revolvido, corcoveava dentro das labaredas vermelhas que subiam e apagavam-se
dentro dos corredores, cada vez mais carregados de fumaça... e urros, gritos, tinidos,
silbidos, gemidos, tudo se confundia no tronar da voz maior que estrondeava no cabeço empenachado do cerro.
Ainda uma vez a velha carquincha transformou-se na
teiniaguá... e a teiniaguá na princesa moura... a moura numa tapuia formosa... e logo o
vulto de face branca e tristonha tornou à figura do sacristão de Santo Tomé, o
sacristão, por sua vez, num guasca desempenado...
E assim quebrado o encantamento que suspendia fora da vida das outras aquelas criaturas
vindas do tempo antigo e de lugar distante, aquele par, juntado e tangido pelo destino,
que é o senhor de todos nós, aquele par novo, de mãos dadas como namorados, deu costas
ao seu desterro, e foi descendo a pendente do coxilhão, até
a várzea limpa, plana e verde, serena e amornada de sol claro, toda bordada de boninas amarelas, de bibis roxas, de
malmequeres branco, como uma cancha convidante para uma
cruzada de ventura, em viagem de alegria, a caminho do repouso!...
Blau Nunes também não quis mais ver; traçou sobre seu peito uma cruz larga, de defesa,
na testa do seu cavalo outra, e deu de rédea e despacito
foi baixando a encosta do cerro, com o coração aliviado e retinindo como se dentro dele
cantasse o passarinho verde...
E agora, estava certo de que era pobre como dantes, porém que comeria em paz, o seu
churrasco... e em paz o seu chimarrão, em paz a sua sesta, em paz a sua vida!...
Assim acabou a salamanca do Cerro do Jarau, que aí durou duzentos anos, que tantos se
contam desde o tempo das Sete Missões, em que estas cousas principiaram.
Anhangá-pitã, também, desde aí, não foi mais visto.
Dizem que, desgostoso, anda escondido, por não haver tomado bem tenência que a
teiniaguá era mulher...
(LOPES NETO, J. Simões. Contos gauchescos e lendas do
sul)
|