I
Era um dia
um dia, um gaúcho pobre, Blau, de nome, guasca de bom porte,
mas que só tinha de seu um cavalo gordo, o facão afiado e as estradas reais, estava conchavado de posteiro, ali na entrada
do rincão; e nesse dia andava campeando
um boi barroso.
E no tranquito andava, olhando; olhando para o fundo das sangas, para o alto das coxilhas, ao
comprido das canhadas; talvez deitado estivesse entre as
carquejas a carqueja é sinal de campo bom -, por isso o campeiro
às vezes alcançava-se nos estribos e, de mão em pala sobre os olhos, firmava mais a
vista em torno; mas o boi barroso, crioulo daquela querência,
não aparecia; e Blau ia campeando, campeando
Campeando e cantando:
Meu bonito boi barroso
Que eu já contava perdido
Deixando o rastro na areia
Foi logo reconhecido
Montei no cavalo escuro
E trabalhei logo de espora
E gritei aperta, gente
Que o meu boi se vai embora
No cruzar uma picada
Meu cavalo relinchou
Dei de rédea para a esquerda
E o meu boi me atropelou!
Nos tentos levava um laço
De vinte e cinco rodilhas,
Pra laçar o boi barroso
Lá no alto das coxilhas!
Mas no mato carrasquento
Onde o boi stava embretado
Não quis usar o meu laço
Pra não vê-lo retalhado
E mandei fazer um laço
Da casca do jacaré
Pra laçar meu boi barroso
Num redomão pangaré
E mandei fazer um laço
Do couro da jacutinga
Pra laçar meu boi barroso
Lá no pasto da restinga
E mandei fazer um laço
Do couro de capivara
Pra laçar meu boi barroso
Nem que fosse a meia-cara
Este era um laço de sorte,
Pois quebrou do boi a balda
No tranquito ia, cantando, e pensando na sua pobreza,
no atraso das suas cousas.
No atraso das suas cousas, desde o dia em que topou cara a cara! com o
Caipora num campestre da serra grande, pra lá, muito longe,
no Botucaraí
A lua ia recém-saindo
; e foi à boquinha da noite
Hora de agouro, pois então!
Gaúcho valente que era dantes, ainda era valente, agora; mas, quando cruzava o facão com
qualquer paisano, o ferro da sua mão ia mermando e o do contrário o lanhava
Domador destorcido e parador, que por só pabulagem gostava de paletear, ainda
era domador, agora; mas, quando gineteava mais folheiro, às vezes, num redepente, era volteado
De mão feliz para plantar, que lhe não chocava semente nem muda de raiz se perdia, ainda
era plantador, agora; mas, quando a semeadura ia apontando da terra, dava a praga em toda,
tanta, que benzedura não vencia
; e o arvoredo do seu plantio crescia entecado e mal floria, e quando dava fruta, era mixe e era azeda
E assim, por esse teor, as cousas corriam-lhe mal; e pensando nelas o gaúcho pobre, Blau,
de nome, ia, ao tranquito, campeando, sem topar coo boi
barroso.
De repente, na volta duma reboteira, bem na beirada dum boqueirão sofrenou o tostado
; ali em frente, quieto e manso, estava um vulto, de
face tristonha e mui branca.
Aquele vulto de face branca
aquela face tristonha!
Já ouvira falar dele, sim, não uma nem duas, mas muitas vezes
e de homens que o
procuravam, de todas as pintas, vindos de longe, num propósito, para endrôminas de encantamentos
, conversas que se falavam
baixinho, como num medo; pro caso, os que podiam contar não contavam porque uns,
desandavam apatetados e vagavam por aí, sem dizer cousa com cousa, e outros calavam-se
muito bem calados, talvez por juramento dado
Aquele vulto era o santão da salamanca
do cerro.
Blau Nunes sofrenou o cavalo. Correu-lhe um arrepio no corpo,
mas era tarde para recusar: um homem é para outro homem!
E como era ele quem chegava, ele é que tinha de louvar; saudou:
- LausSus-Cris!
- Para sempre, amém! disse o outro, e logo ajuntou: - O boi barroso vai trepando cerro acima, vai trepando
Ele anda cumprindo o seu fadário
Blau Nunes pasmou do adivinho; mas repostou:
- Vou no rastro!
- Está enredado
- Sou tapejara, sei tudo, palmo a palmo, até à boca preta
da furna do cerro
- Tu
tu, paisano, sabes a entrada da salamanca?
- É lá?
Então, sei, sei! A salamanca do cerro do Jarau!
Desde a minha avó charrua, que ouvi falar!
- O que contava a tua avó?
- A mãe da minha mãe dizia assim: |