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O Caipora

Ilustração de Marcos Jardim

Havia um homem que era muito amigo de caçar. O maior prazer de sua vida era passar dias inteiros no mato, passarinhando, fazendo esperas, armando laços e arapucas. De uma feita, estava ele de tocaia no alto de uma árvore, quando viu aproximar-se uma vara de porcos-do-mato. Com a sua espingardinha derrubou uns quantos. No momento, porém, em que se preparava para descer, satisfeitíssimo com a caçada que acabava de fazer, ouviu ao longe os assobios do Caipora, dono, sem dúvida dos porcos que matara.

O nosso amigo encolheu-se todo em cima do jirau que armara lá na forquilha da árvore, para esperar a caça, e ficou quietinho, como toucinho no sal. Daí a pouco apareceu o Caipora. Era um molequinho, do qual só se via uma banda, preto como o capeta, peludo como um macaco, montado num porco magro, muito ossudo, empunhando um ferrão, gritando que nem um danado, numa voz muito fanhosa:

- Ecou ! Ecou ! Ecou!

Dando com os porcos mortos, estirados no chão começou a ferroá-los com força, dizendo:

- Levantem-se, levantem-se, preguiçosos! Estão dormindo?

Eles levantaram-se depressa e lá se foram embora, roncando. O último que ficou estendido, o maior de todos, custou mais a se levantar. O Caipora enfureceu-se. Ferreou-o com tanta sustância, que quebrou a ponta do ferrão. Foi então que o porco se levantou ligeiro e saiu desesperado pelo mato a fora, no rumo dos outros. Guinchou o Caipora:

Ah! Você esta fazendo manha também? Deixe estar que você me paga. Por sua causa tenho que ir amanhã na casa do ferreiro pra consertar o meu ferrão.

E lá se foi embora, com sua voz fanhosa esganiçada:

- Ecou ! Ecou ! Ecou !

Passado muito tempo, quando não se ouviam mais nem gritos nem os assobios do Caipora, o homem desceu depressa, correndo até em casa.

No outro dia, logo cedinho, botou-se para a tenda do ferreiro, o único que havia por aquelas redondezas. Conversa vai, conversa vem, quando, lá para um pedaço do dia, com o sol já bem alto, chegou à porta da tenda um caboclo baixote, entroncado de corpo, com o chapéu de couro de sábado sobre os olhos. Foi chegando, e dirigindo-se ao ferreiro:

- Bom dia, meu amo. Você me conserta aqui este ferrão? Estou com muita pressa...

- Ih caboclo, depressa é que não pode ser, pois não tem quem toque o fole. Estou aqui até o ponto dest’hora sem trabalhar por via disto mesmo!

Saltou mais que depressa o caçador, que maldara logo ser o caboclo o Caipora da véspera, o qual se desencantara para vir a casa do ferreiro, como prometera:

- Eu toco, seu mestre.

- E você sabe?

- Sempre arranjo um tiquinho. Tanto mais qu'isso não tem sabença.

O ferreiro acendeu a forja, mandando o caçador tocar o fole. O homem, então, pôs-se a tocá- lo devagar, dizendo compassadamente:

- Quem anda no mato
Vê muita coisa...

Depois de algum tempo, o cabloco avançou para ele, empurrou-o brutalmente para uma banda e disse:

- Sai daqui, que você não sabe tocar. Dá cá isso...

Começou a tocar o fole depressa, dizendo:

- Quem anda no mato,
Que vê muita coisa,
Também cala a boca,
Também cala a boca.

O caçador aí foi-se escafedendo devagarinho, e abriu o chambre. Nunca mais atirou em porcos-do-mato, nem deu com a língua nos dentes a respeito do que vira.

* * *

Uma vez, contam que ele, o manata, o Caipora chefão, encarnou numa onça pintada, que ficou azarando numa ponte que dava passagem para uma cidade e ali multava os roceiros que lá iam vender farinha e mais comestíveis, leitões e frangos. Todo o mundo, vindo à noite, tinha medo de passar naquela ponte.

Aí chamaram um benzedô mestre e curadô de quebranto, para dar jeito no lugar. Ele arranjou duas galinhas pretas, nanicas esporudas peou-as com palhas de milhos catete, pôs numa manguara e foi passar pela ponte. O bicho investiu nele em pé e urrando como uma vaca parida. O cabra negou o corpo, puxou de uma garrucha picapau, que trazia, e pregou um perdigoto, rezado e fundido em Sexta-feira da Paixão, bem no rumo do bucho do atacante. Este gemeu, esperneou, estrebuchou e faleceu.

Era de noite. No dia seguinte, muito cedo, quando o carimbamba foi ver o que era, deparou com uma pintada macota, esticada, de banda, com a boca ensangüentada, e isto foi uma fufuta na cidade. Toda gente queria ver o tampadinha de sarna na mesma hora e teve um suspenso que durou até o casamento dela com um turco das Arábias.

A ponte ficou livre e desembaraçada de estrepolias e encantos; porém o carimbamba, curadô e benzedô, por castigo, virou lobo e saiu disparado pelo chapadão a fora.

...E o contador concluiu a narrativa dizendo:

- Eu não tenho medo do Caipora nem do Saci, seu companheiro; pois tenho uma simpatia que é um porrete. Ali para minhãzinha eu lavo a cara com urina e dou um nó na fralda da camisa.

A muié lá em casa fomenta o imbigo com azeite e pó de fumo, todos os dias, antes de deitar para drumi.

(MELO, Anísio (org.). Estórias e lendas da Amazônia)

O aspecto do caipora varia conforme a impressão que causa e a pessoa que ele tem que arruinar e fazer infeliz.

Freqüenta, de ordinário, as encruzilhadas e as curvas dos caminhos. Antigamente, só espantava os caminhantes a pé ou a cavalo, fazendo este passarinhar e dar com o cavaleiro ao chão. Atualmente, ele coloca pedras nas estradas de rodagem para fazer capotar os autos e caminhões; serra as vigas das pontes e dos mata-burros para causar desastres. De tempos em tempos, ele se hospeda nas povoações, cercados de inúmeros caiporinhas, que são outros tantos diabinhos, que entram no couro do pessoal festeiro, isto principalmente na época do carnaval e da queima do Judas.

(LACERDA, Regina (org.). Estórias e lendas de Goiás e Mato Grosso.)

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Carimbamba: Curandeiro

Chambre: Roupão

Entroncado: Diz-se de indivíduo corpulento, espadaúdo e em geral, de estatura mediana

Jirau: Estrado de varas sobre forquilhas cravadas no chão usado para guardar panelas, pratos, legumes,etc; Cama de varas; Qualquer armação de madeira em forma de estrado ou palanque

Ordinário: Habitual, comum; Periódico, regular

Peou: Prender com peias; Embaraçar, impedir, estovar


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