Nas proximidades do dia 27 de
setembro, é comum encontrar, pelas ruas da Bahia, meninos, ou mesmo adultos, a pedir
esmolas para São Cosme e Damião (Afrânio Peixoto registra muito oportunamente que, na
Bahia, não se diz São Cosme e São Damião e sim São Cosme e Damião), para o caruru
dos santos. A dupla imagem de madeira ou uma simples gravura emoldurada é exposta
numa caixa enfeitada em papel de seda colorido, envolta em fitas e cheia de flores, rosas
ou flores de laranjeira, muitas vezes. Não se pode comemorar santos tão populares nos
lares baianos sem que se peça esmola para a missa. Se é pobre, pode-se ir às ruas, sem
a menor cerimônia, pois as esmolas vão realmente ajudar a missa e a festa. Mas se
abastado, procuram-se as casas amigas e a esmola é simbólica. Grande é o número de
lares baianos que festejam o grande dia dedicado aos dois mártires da Igreja. Tão
populares como São João, como Santo Antônio, os dois santos têm a sua festa comemorada
sobretudo com um grande almoço, o caruru dos santos. E assim se chama não
porque seja o almoço apenas de caruru: os demais pratos de cozinha baiana são
apresentados na sua riqueza de gosto e de cor. Tudo no melhor estilo afro-brasileiro, em
casas de pobres e de ricos. Em casa em que haja gêmeos: ou que os santos tenham evitado
partos gêmeos. Ou que promovam a festa como tradição de família. Nenhum dia melhor
para se saborear um grande almoço da cozinha baiana do que o 27 de setembro.
Que conta a história sobre os dois santos? Que são de origem árabe e se fizeram
médicos, com grande prática de caridade, a tal ponto que se tornaram inimigos do
dinheiro (anargyros). O pró-cônsul Lysias os
perseguiu e lhes inflingiu terríveis torturas, sem maiores resultados, até que foram
degolados, isso no ano de 287, sendo Diocleciano imperador romano.
Que poder extraordinário têm estes dois santos na alma popular baiana para se impôr
assim com tanta fé e com tanto entusiasmo? É que ambas as raças, a branca e a negra,
trouxeram de cada lado a devoção que aqui encontrou um campo fácil de disseminação.
Diz Artur Ramos: "Em vários pontos da Europa, o culto dos gêmeos Cosme e Damião
vem de longínquas eras. Nas antigas vilas da Itália, no
século XVII, o seu culto tinha evidente signficação fálica. As mulheres esteréis
chamavam por Cosme e Damião, que possuíam aliás outros poderes curativos. Havia em
várias igrejas, por volta de 1780, larga distribuição, em garrafinhas, de um
"óleo santo" de São Cosme e São Damião, que tinha virtudes médicas. Aqueles
que se queixavam de algum mal descobriam diante do altar dos santos a parte doente,
enquanto uma sacerdotisa fazia friccções com o "óleo santo", pronunciando
esta oração: "Per intercessionem beati Cosmi, liberet te ab omni malo. Amen".
Nos templos antigos praticava-se a incubação: as pessoas doentes dormiam nos templos
consagrados aos santos para obterem a cura de seus males. Tal foi o caso de Cosme e
Damião.
Por sua vez, Vieira Fazenda mostra quanto é atingido o culto de Cosme e Damião no
Brasil, lembrando que a mais antiga igreja nestes rincões construída, na cidade
Igaraçu, em Pernambuco, é dedicada aos dois santos gêmeos. "A fama dos seus
milagres corria mundo. As mulheres tributavam-lhe culto para não terem parto duplo, e
quando isso acontecia, imploravam a intercessão dos santos
para os filhos gêmeos. Em casa onde existam Cosme e Damião, não entra epidemia, porque
eles foram sempre considerados advogados contra "feitiços, bruxarias, mau olhado e
espinhela caída". Isso quanto às origens européias da devoção. No que se refere
ao ramo africano, sabe-se que foram os nagôs que nos trouxeram os seus gêmos, Ibeji,
transformados numa das maiores tradições vivas das populações baianas, especialmente.
Pois, repitamos, poucos santos são aqui tão populares quanto eles. Nos lares católicos,
suas imagens são comumente encontradas, em oratórios particulares, como também na
prática dos negros é invocado, como dissemos, sob o nome de Ibeji, "dentre as
divindades africanas uma das de culto mais popular e disseminado nesta cidade", como
afirmava Nina Rodrigues. E acrescentava o mestre: "Sei de famílias brancas, de boa
sociedade baiana, que festejam Ibeji, oferecendo às duas pequenas imagens de São Cosme e
São Damião sacrifícios alimentares. Numa capela católica muito rica, de um dos
primeiros palacetes desta cidade, encontrei eu, numa noite, no exercício da profissão
médica, em bandeja de prata e em pequena mesa de charão, as
imagens dos santos gêmeos, tendo ao lado água em pequenas quartinhas
douradas e esquisitos manjares africanos". E são exatamente destes esquisitos
manjares africanos que se compõem os grandes almoços o caruru de
São Cosme e Damião.
No seu dia no dia 27 de setembro manda-se rezar a missa, numa igreja de sua
preferência, em louvor dos santos. Para isso foi que se pediu esmola, de porta em porta,
para se rezar a missa e para a festa. Logo depois, é toda uma azáfama
na cozinha e no quarto dos santos. Com as flores mais belas se prepara o santuário; com
os requintes mais sutis as comidas da inigualável cozinha baiana. Desde a véspera, os
tenros quiabos, bem lavados e enxutos, os camarões secos, o puro azeite, as pimentas e
tantos outros temperos entram em função para que saia dali o mais saboroso caruru.
Porque se no almoço surgirem o vatapá, o efó, o xinxim de galinha, a frigideira de
camarão, o siri mole, não se poderá chamar festa dos santos mabaças, se falta o
caruru, com seu acompanhamento indispensável que é o arroz de haussá ou o acaçá. Daí
a festa ter o nome de caruru de São Cosme.
Pronto o almoço, não será para os convidados adultos que sairá logo; que eles tenham
paciência. Antes, em pequenos potes e pequenos pratinhos de barro, se colocam com todo
respeito, as comidas dos santos, em seus santuários, e ali se deixa para que os gêmeos
possam aquilatar do grau da devoção dos donos da casa.
Procedida a cerimônia, chamam-se os sete meninos, especialmente convidados. Sim, não
será completa a festa se não foram convidados sete garotos para comerem o caruru, no
prato comum que não é um prato; mas uma grande tigela ou uma enorme bacia. Ali, a comida
é colocada, em geral no quintal sobre uma esteira ou pano da Costa e os meninos formam em
redor o seu círculo. Nada de colheres, nada de talheres, pois é com as mãos, apenas com
as mãos, que eles se servem para satisfazer a sua gula, o seu apetite. E tem que ser
depressa a lambuzar de muito azeite e de muito quiabo nos rostos alegres. São convocados
ante o canto dos adultos:
Vem cá, vem cá, Dois-dois
Vem cá, vem cá, Dois-dois
E já os garotos estão comendo, no seu lambuzado e na sua alegria, e os adultos, em
redor, cantam deliciosas toadas. Se acabam, levantam a tigela e cantam:
Vamos levantar
O Cruzeiro de Jesus
No céu, no céu, no céu
A Santa Cruz
Antes, outras canções são entoadas, com grande entusiasmo dos presentes, meninos ou
adultos:
São Cosme me mandou fazer
Uma camisinha azul
Quando chega o dia dele
São Cosme quer caruru
E mais:
São Cosme e São Damião
Cheira cravo, cheira rosa
Cheira flor de laranjeira
Vadeia Cosme, vadeia
Vadeia Cosme na areia
O jornalista e poeta Cláudio Tuiuti Tavares recolheu, em excelente estudo sobre Ibeji,
variantes destas cantigas e numerosas outras como:
Cadê sua camisa
Dois-dois!
Dois jogando bola
Com ela
Dois jogando bola
Quem não tem pena
Mamãe
Quem não tem dó
De ver Dois-dois
Na roda
Brincando só
Cosme e Damião
Ogum e Alabá
Vamos catar conchinha
Na beira do mar
Por que sete meninos são convidados de honra para o almoço de Cosme e Damião? Diz-nos a
senhora Aurora Martins, que é mabaça e que comemora a festa com tanto carinho, que havia
sete irmãos: Cosme, Damião, Doú, Alabá, Crispim, Crispiniano e Talabi, todos mabaças,
e é por isso que se torna necessário dar o caruru em honra de sete meninos,
especialmente convidados, aplacando assim as possíveis cóleras dos santos. E nos adianta
que quando criança, tornavam-se debaldes os esforços de sua
mãe para que ela fosse devota de São Cosme e Damião. Eis que um dia, em plena rua,
recebeu forte golpe no rosto, sem saber quem o tinha aplicado. Ao chegar em casa
verificou, ao espelho, que havia na face marca de uma mãozinha: puro castigo dos santos.
Daí em diante, jamais deixou de comemorar os santos gêmeos, jamais deixou de oferecer o
seu caruru a 27 de setembro.
Mas não é somente nos lares modestos que se festeja o dia. Se não encontramos mais, nos
palacetes da cidade, os rituais africanos que Nina Rodrigues surpreendeu, mesmo assim o
"caruru" do grande dia em muita casa de rico ou de pessoas de posse é festejado
à larga. A família Benjamin Sales, no Corredor da Vitória, tem mais de cem convidados
à mesa do dia de São Cosme e Damião. O repórter Darwin Brandão, autor de honesto
livro de receitas da cozinha baiana, acentua ter comparecido a um "caruru" onde
havia mais de duzentas pessoas.
Almoço de Cosme e Damião hoje também famoso da Bahia é o realizado na residência do
professor Pires da Veiga, catedrático da Faculdade de Medicina. Sua esposa, dona Haydée
Pires da Veiga apresenta dezenas de pratos de pura culinária afro-brasileira, que são a
delícia dos seus convidados. Regados de vinhos franceses, precedidos de licores de
jenipapo da terra. Os seus almoços de festejo aos dois santos constituem um prazer dos
seus amigos, que os aguardam com ansiedade. É que o casal rende sincera homenagem a São
Cosme e São Damião, já que tem duas belíssimas mabaças, devotas que são dos seus
divinos protetores.
Mas, se os festejos são profanos, como os famosos carurus, se das igrejas
católicas saem procissões dos dois mártires, como a da Lapa à Soledade, nos terreiros
dos candomblés se realizam durante todo o dia cerimônias e as mesmas comidas também
são esmeradas para que Ibeji sinta, para sua maior glória, a fé dos seus devotos.
Um mês depois, no dia 25 de outubro, as cerimônias se repetem, embora com menos
intensidade: comemora-se a festa de São Crispim e Crispiniano, também mabaças e
confundidos na crendice popular com Cosme e Damião, cujas imagenzinhas com sua palma, sua
pena e seu livro, estão em quase todos os lares da Bahia, de negros ou de brancos, de
pobres ou de ricos, que tenham coração para crer, com sua fé inabalável, nos grandes
protetores da saúde da espécie humana.
(TAVARES, Odorico. Bahia; imagens da terra e do povo) |
 Aquilatar:
Apreciar, avaliar; Avaliar o quilate do ouro ou da prata.
Azáfama: Grande pressa; Atrapalhação, grande
afã.
Charão: Verniz da China ou do Japão, Que tem por
base a laca.
Debalde: Inutilmente, em vão.
Intercessão: Intervenção, ação de introceder.
Longínquo: Distante, muito afastado.
Pró-cônsul: Funcionário da antiga Roma
encarregado do governo de uma província.
Quartinha: Moringa; Espécie de bilha de barro para
guardar água fresca.
Veja também: Caruru dos
Meninos |