Refeição oferecida pelo devoto dos Ibeiji,
ou os gêmeos identificados com São Cosme e São Damião, no dia oblacional,
27 de setembro, na cidade do Salvador e noutros pontos da Bahia. O prato especial é o
caruru.
"O caruru não é o único prato da comida da festa de São Cosme e São Damião, que
se divide em duas fases: caruru-dos-meninos (com ritual) e caruru-dos-grandes, à vontade.
Os adultos são convidados entre as pessoas íntimas, conhecidas da família do devoto. A
festa não é feita para os grandes: pertence exclusivamente aos meninos, que são os
verdadeiros "comensais". Dona Maria São Pedro de Jesus deu o grito de
caruru-dos-meninos. Sobre a pequena mesa estavam todos os pratos da festa: caruru,
pipocas, amendoim, farofa de azeite, cana picadinha, banana frita, arroz branco, abará,
abóbora, acarajé, milho branco, côco em pequenos pedaços, galinha em molho pardo e ovo
cozido. Uma bacia foi cheia com caruru e todo o cardápio de São Cosme. No chão, sobre
um pano forrado, dona Maria São Pedro pôs o alimento, chamando os sete meninos mais
jovens. Sete crianças entre cinco e oito anos ficaram abaixadas em torno da bacia com
caruru. As outras crianças e os adultos, inclusive os dois repórteres, começaram a
bater palmas, em ritmo forte, enquanto dona Maria fazia a chamada dos meninos: "Vem
cá, vem cá, Dois-Dois! Vem cá, vem cá, Dois-Dois!
". Os pequenos
"comensais" mantêm as mãos, por um minuto e silenciosamente, no caruru,
começando em seguida o jantar simbólico de São Cosme e São Damião. Os meninos vão
comendo o caruru com sofreguidão, comendo a parte do alimento sagrado que lhes coube.
Aparecem cantigas que todos versejam com entusiasmo, sempre no ritmo das palmas: Eu te
dou de comê, Dois-Dois! / Eu te dou de bebê, Dois-Dois! Os versos são repetidos
várias vezes, não passando de sete, dando seqüência a outros.
São Cosme mandou fazer
Uma camisinha azul
No dia da festa dele
São Cosme quer caruru
Vadeia, Cosme, vadeia
Vadeia, Cosme, na areia!
Vadeia, Cosme, vadeia
Vadeia, Cosme, na areia!
Outros cânticos são entoados:
Eu tenho pai
Que me dá de comê
Eu tenho mãe
Que me dá de bebê
Comido o alimento santo, os meninos esperam o sinal de levantar as mãos. Todos estão
satisfeitos, e as crianças, ou estão sérias, ou sorriem. Começa então a segunda parte
da festa. As palmas recomeçam e se inicia o canto: Louvado seja, ó meu Deus / Que
Cosme e Damião comeu! Repetem-se três vezes esses versos. Depois, os sete meninos e
a dona da casa seguram nas bordas da bacia balançando-a no ritmo lento da cantiga:
Vamos levantar
O cruzeiro de Maria
No céu, no céu
Com muita alegria
Em seguida os meninos carregam a bacia para dentro de casa. Principia-se, então, o caruru
dos grandes, que comem de mistura com as outras crianças que não tiveram o privilégio
de participar do caruru-dos-meninos" (Cláudio Tavares, O
caruru-de-dois-dois, in Revista do Globo, 426, Porto Alegre, 1947, p. 56-57)
(CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore
brasileiro) |
CARURU
(para quatro pessoas)
1 cebola grande picada
2 tomates médios maduros picados
1 pimentão verde pequeno
2 maços de hortelã
2 maços de coentro
2 maços de salsinha
Açúcar e canela a gosto
2 dentes de alho pequenos
1/4 de xícara (chá) de amendoim torrado
1/4 de xícara (chá) de castanha de caju torrada
120g de camarão seco
700g de quiabos picados
1/2 litro de água ou caldo de frango
1/2 xícara (chá) de azeite de dendê
1 colher (sopa) de vinagre
1 colher (sopa) de azeite
Bata no liquidificador a cebola, os tomates, o pimentão, a hortelã, a salsinha, o
coentro e o alho, e reserve.
Numa panela grande, coloque a água (ou o caldo), ¼ de xícara de azeite de dendê e os
quiabos, e leve ao fogo até ferver. Acrescente os temperos passados no liquidificador ao
caldo fervente, e deixe cozinhar por uns vinte minutos, mexendo de vez em quando.
Após esse tempo, junte o vinagre e misture bem. Acrescente em seguida, a castanha, o
amendoim, os camarões secos passados no liquidificador (sem os olhinhos), o azeite e o
dendê restante. Cozinhe tudo por mais vinte minutos, tomando o cuidado de mexer de vez em
quando. Se necessário, acrescente água para evitar que o caruru fique seco demais.

Oblacional: De oblação, oferenda feita a Deus ou aos
santos.
Veja também: Cosme e Damião, os
santos mabaças |