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PIQUENIQUE

Rio, 23 de junho de 1867

Há ocasiões em que o escritor, impelido pela lei fatal da necessidade, bate à porta de uma língua estranha e pede-lhe emprestado um vocábulo.

Hoje tenho de ir à pátria de Byron e de Shakespeare, à velha Albion, para mendigar-lhe um termo.

Não vai nisto uma acusação formal à língua em que cabe-me a honra de escrever.

Somente acuso a civilização do meu país.

E me explico:

– Todos comem, disse um grande espírito observador – somente os franceses sabem jantar.

É que entre o jantar e o comer há um abismo.

No jantar o exercício dos maxilares é apenas um pretexto para a jovialidade e o espírito.

O francês, mais que ninguém, compreendeu esta verdade.

Ele tem sempre nos lábios um à propos a respeito de um rabanete, disserta sobre o filet, o gateaux sugere-lhe duas anedotas, entre um prato e outro conta as peripécias do drama que está em voga; e quando, já repleto, abandona a mesa, dir-se-ia no paraíso de Maomé. Tal é a felicidade que lhe transparece no semblante.

Comer, enfim é uma obrigação; jantar é o maior dos prazeres da vida.

Os ingleses foram mais longe.

Sérios e graves ao redor de um roast beef, coube-lhes entretanto a glória de um nome, para o qual não há tradução possível em língua de gente.

Os ingleses inventaram o piquenique.

O que é o piquenique?

Eis-me em apuros.

Há coisas neste mundo que se concebem, mas que se não definem.

Não há remédio senão lançar mão da perífrase.

Suponham que diversas famílias concertam um plano de divertimento; esta propõe um baile; aquela quer assitir às discussões na câmara dos deputados em dia em que tenha de falar o presidente do conselho; uma, que é mais modesta, apresenta a idéia de partidas todas as semanas; diversas opiniões, enfim, aparecem cada qual mais extravagante. – Um dia no campo! Grita uma voz cônscia de que há de aliciar maioria. – Bravo! – repetem todos em coro. A idéia é aceita. Assentado o divertimento, concerta-se no programa. Cada qual deve tirar à sorte o prato que tem de levar, ou aquilo com que tem que concorrer. A este toca a feijoada; àquele o peru recheado; a este outro o peixe; um salta de contente por lhe ter caído em sorte o prato mais barato; outro enfurece-se por ter de arranjar a música, e finalmente quem tem de pagar mais caro toda a brincadeira é o desgraçado a quem cabe o fornecimento dos vinhos.

Eis o que é o piquenique.

É um dia de prazer no campo, em boa companhia, passado à sombra das mangueiras e dos laranjais, e se os poetas não tivessem abusado tanto das águas, eu diria – à margem de um regato que murmura doces queixumes serpenteando pela relva. O céu é uma redoma de anil, a borboleta esvoaça de flor em flor, o passarinho gorjeia na mata solitária, tudo convida ao prazer e à alegria. Feliz de quem tem uma namorada nessas ocasiões!

O piquenique em suma é a patuscada dos nossos antepassados.

Se Paquetá, e as ilhas da Caqueirada e do Governador falassem, cada mangueira seria uma lenda desses tempos felizes que já lá vão.

Mas o progresso que tudo mata, tudo regenera, baniu dos dicionários a patuscada; e a língua portuguesa, acompanhando o movimento da época, teve de bater à velha Albion para pedir-lhe a palavra da moda.

Eis-me justificado perante os filólogos.

O atual presidente do conselho fez mais: nunca bateu à porta de ninguém, porque isso seria descer de sua dignidade, e criou o – progressismo.

Em caso de apuros, portanto, eu tinha ainda esse poderoso escudo.

Os leitores, pois, já sabem o que é um piquenique.

Sirva o que fica dito de prólogo.

Vou tratar hoje de uma família, composta de sete membros e de diversos agregados.

Esta família, cuja vida tem sido uma série não interrompida de divertimentos, reuniu-se há dias, e depois de larga discussão, assentou fazer um piquenique.

Vou dar conta aos leitores dessa discussão.

O homem dos colarinhos apresentou a idéia de partidas semanais.– Era uma ocasião propícia para abraços e para poder namorar mais à vontade dos agregados.

O homem da marinha opinou por uma palestra literária.

O homem dos estrangeiros estava por tudo.

O decano da família propôs uma ceia em companhia do belo sexo.

– Um jantar! Um jantar! – gritou o apóstolo da justiça.

O Guizot, que não gosta de entrar em casa de ninguém, que a ninguém visita, que a ninguém procura, rejeitou in limine a proposta do banquete.

O homem da guerra opinou com o dos estrangeiros.

Os agregados nada diziam.

Estavam todos indecisos, quando o pater Guizot sic orsus ab alto:

– Proponho um piquenique.

O chefe da família estava coerente com seus princípios: ia-se divertir sem transpor umbrais de portas.

A proposta foi aceita unanimente.

Ficou decidido que o lugar da patuscada seria o campo da cadeia velha.

Quando estavam prestes a tirar as sortes para saberem cada um com o que devia concorrer, cortou o apóstolo da justiça o nó górdio, dizendo que cada membro da família devia levar o seu relatório, por serem pratos que estavam feitos.

A sorte então teve de recair unicamente sobre os agregados.

Os de Pernambuco tiveram de contribuir com os foguetes e a música. A festa era de progresso, e festa sem foguetes e música é arco de rabeca sem resina.

Para obsequiar a sociedade, o gago da confraria comprometeu-se a apresentar um prato de personalismo truffê.

O apóstolo da justiça arregalou o olho.

Os outros encarregaram-se da condução.

Quem paga os vinhos?

O povo, o povo, gritaram todos!

Triste verdade: é o povo quem paga sempre o prato.

Disposta a festa, deu-se o piquenique no dia designado.

Tratava-se de um pagode; escusado é dizer, portanto, que não faltou um só.

O apóstolo da justiça compareceu com a sua feijoada. Lombo, cabeça de porco, tripas, mocotós, língua do Rio Grande, presunto, carne-seca, paio, toucinho, lingüiças, nada faltava para dar-lhe o merecido título de uma feijoada em regra.

A pândega retumbou em vivas e foguetes à chegada do caldeirão.

– Admirem este pedaço, dizia o gago: – A prisão simples, para muitos, serve mais de recompensa, do que de pena. Como está bem temperada esta cabeça de porco! Que perfume de vinha d’alho! Ataquem foguetes.

– Para mim o que há de melhor na feijoada – gritou um agregado gordo sacando a rolha de uma garrafa,– é esta língua do Rio Grande. –A cadeia (edifício) é um ramo de administração da justiça. – Como isto está bem arranjado! Que tempero!

– É que você ainda não reparou, acode outro, neste lombo.– Uma séria inspeção da parte do governo é o melhoramento que mais reclama este ramo.

– Pois eu confesso, – disse um agregado que estava em expectativa simpática, – que nutro graves receios de que vocês todos vão ter uma grande indigestão.

Uma gargalhada de incredulidade partiu de todos os lábios.

Era o último triunfo da feijoada!

Ao suculento prato sucede um guisado especial de batatas, oferecido pelo homem dos colarinhos.

O hábil cozinheiro apresentou-se cônscio de si.

Preparar batatas é a sua especialidade.

Nesta quadra em que já não há necessidade de plantar batatas, porque elas germinam espontaneamente; nesta época em que a batata é a primeira riqueza do país, um guisado de batatas passaria por certo despercebido em uma mesa, se as tradições do cozinheiro não o recomendassem.

A confraria atirou-se a elas com um entusiasmo digno doas saudosos tempos de Vitélio. Dir-se-ia um punhado de bravos, cheios de fé e de patriotismo, diante das muralhas de Curuzu!

Os colarinhos do maitre d’hotel cresceram mais de dois palmos.

A felicidade, que lhe assomou ao rosto em um riso de inefável contentamento, não tardou a expandir-lhe em abraços à esquerda e à direita.

O terque, quaterque beatus quem sabe preparar tão boas batatas.

Chegou a vez do Guizot.

Houve um remexer em toda a linha.

A expectativa era imensa.

As abas da casaca dançavam-lhe nos glúteos, formando ondas caprichosas, a cabeça erguida parecia procurar as regiões etéreas e sublimes donde desertou, tudo enfim indicava – que ia aparecer a verdadeira luz.

Dali devia sair por força o primeiro prato do piquenique.

E assim foi. O vol-au-vent à la financière, não encontrou competidor!

A feijoada teve de ceder-lhe a palma.

O guisado de batatas caiu no esquecimento: os infelizes, tão desditosos como a Rosa de Malherbe, a vecu l’espace d’un matin!

Duas palavras sobre este prato tão festejado.

O vol-au-vent é uma espécie de pastel, ou coisa que melhor nome tenha em arte culinária, recheado de carne, camarões, ou de qualquer outro ingrediente que a imaginação do cozinheiro lhe sugere no momento.

Dizem os entendidos que quanto mais manteiga leva a massa, mais saboroso fica.

No vol-au-vent, a casca, isto é, a exterioridade, é tudo, o recheio é nada.

É um prato para fazer vista.

Na casca é que está o segredo da iguaria.

E eis porque o vol-au-vent agradou.

O Guizot soube com tal perícia distribuir manteiga pela massa, que bem raros eram os que comiam que não tomassem manteiga pelos beiços.

E graças à manteiga ninguém olhou para o recheio, que era de miolos de galinha.

É ainda sob os aplausos estrepitosos da última iguaria, que se apresenta o decano da família com um – prato de roupa-velha.

Creio que não há leitor que ignore o que seja a – roupa-velha.

A roupa-velha é a carne que já figurou cozida no jantar de ontem e que hoje aparece guisada e desfiada como iguaria nova.

O decano teve a franqueza de declarar que o prato não fôra temperado por ele; que já não sabia cozinhar, e que a sua especialidade não era aquela.

Em seguida foi servido um apimentado caruru, oferecido pelo homem da guerra.

O caruru é uma iguaria, que, em sua qualidade de quitute, apresenta um aspecto de cores variadas.

É assim que leva o azeite de dendê, que é amarelo; a pimenta malagueta que é vermelha; o jiló que é amarelo e vermelho, etc.

É um prato enfim que leva de tudo.

O pastelão apresentado pelo homem dos estrangeiros foi tragado por honra da firma.

O homem da marinha, cozinheiro ainda inexperiente, ofereceu uma caldeirada de peixe, prato bem temperado, mas muito indigesto.

O piquenique esteve animado, como era de esperar.

Os foguetes e a música atordoavam a todos.

Por qualquer coisa os agregados de Pernambuco mandavam atacar aqueles, e fazer retumbar esta.

Foi um dia cheio, como dizem os capadócios.

O irmão terrível, o encarregado da condução, foi quem mais barulho fez para arregimentar os convivas no momento de partida.

À retirada do Guizot disseram todos: Foi um prato magistral!

E o povo, tremendo, espera a conta dos – VINHOS!

(Osiris)

(FRANÇA JÚNIOR, Joaquim José da. Política e costumes)
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Capadócio: Que tem maneiras acanalhadas, parlapatão.

Filólogos: Pessoas que se ocupam da Filologia, estudo de uma língua através de seus documentos, que visa à compreensão da globalidade dos fenômenos culturais, especialmente os de ordem literária.

górdio: Nó cego, impossível de desatar//Cortar o nó gordio :Resolver de maneira rápida, prática mas violenta, uma grande dificuldade.

Pagode: Pândega, farra, brincadeira.

Patuscada: Reunião de várias pessoas que estão comendo e bebendo alegremente; Folgança; Festança, pândega.

Perífrase: Processo que consiste em dizer em muitas palavras o que se poderia dizer em poucos termos; Rodeio, circunlóquio.

Queixumes: Gemidos; Queixas, lamentos.

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