Taquari não vale nada
Rio Pardo vale um vintém
Santo Amaro mil cruzados
Pelas mocinhas que tem
* * *
As moças de Santo Amaro
Têm barriga de porongo
Quem quiser casar com elas
Leve tripas e mondongo
* * *
Ia indo pra Santo Amaro
Meti um espinho no pé
Amarrei com fita verde
Cabelinho do José
* * *
Em Canguçu dei de rédea
Entre serras e penedos
E toquei pra Caçapava
Só por guardar uns segredos
* * *
Quem me dera estar agora
Onde está meu pensamento:
De Porto Alegre pra fora
De Cachoeira para dentro!
* * *
As moças de Cachoeira
São bonitas, que eu bem vi
Estavam lavando roupa
No passo do Jacuí
* * *
Se fordes a Cachoeira
Levai contas de rezar
Cachoeira é um purgatório
Onde as almas vão penar
* * *
Eu não sou filho daqui
Sou filho de Jaguarão
Ensino cavalo gordo
Tomo mate-chimarrão
* * *
Agora me estou lembrando
Dos pagos de Jaguarão
Amores que foram meus
Agora de quem serão?
* * *
Tenho meu cavalo baio
Crioulo de Jaguarão
Para ver as mulatinhas
No cerro dos Três Irmãos
* * *
Abaixai-vos, cerros verdes
Secai, rio Jaguarão
Quero alcançar sem demora
Quem roubou meu coração
* * *
Abaixai-vos, cerros verdes
Quero ver a Vacaria
Quero ver por quem eu choro
Lágrimas todo o dia
* * *
Dormindo, estava sonhando
Que estava em Vacaria
Acordei e achei-me preso
Nos braços de Ana Maria
* * *
Pagos de Cima da Serra
São pagos de pedraria
Assim mesmo, são melhores
Do que lá na Vacaria
* * *
Agora que arrinconado
Vivo aqui em estranha terra
Já me sinto abaianado
Não sou de Cima da Serra
* * *
Muitos Josés e Marias
São filhos da Conceição
Eu também sou afilhado
Da Virgem de Viamão
* * *
Não são daqui os meus pagos
Nem daqui eu quero ser
Em Quaraí fui criado
Onde nasci vou morrer
* * *
Perguntei a um andante
Este mês quando se acaba?
Dei volta por Dom Pedrito
E não achei mais minha casa
* * *
O vento, a chuva me alegra
Se vou rumo do Alegrete
Monto aqui, apeio ali
Pobrete, mas alegrete
* * *
Sou gaúcho de bom gosto
Da costa do Garupá
E me sinto mui feliz
Trajando o meu chiripá
* * *
Ó coxilhas de Santana
Ó campos do Garupá!
As lágrimas caem-me aqui
Pelo amor que ficou lá
* * *
Eu cantando vou dizendo
Onde foi meu nascimento:
Nas pontas do Quaraí
Santana do Livramento
*
* *
Ó dona, se eu lhe contasse
Você diria que eu minto
As moças do Livramento
Usam pistola no cinto!
(LOPES NETO, Simões. Cancioneiro gaúcho)
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