LINHA
DA CARRITIA
(Ernesto Vilela e Zé Curisco)
Vilela:
Eu tô dizendo, na linha carritia;
Tô falando na linha da carritia.
No lugá que eu bebo pinga
Não quero que o gato mia
Aprindi cantá e jogá
Por ditráis da sacristia
Até São Pedro adimirava
Do macete que eu fazia.
falei maninho
na linha da carritia
me chamo Ernesto Vilela
cabra de muita valia
aprendi cantá sem mestre
nunca perdi uma porfia
moro na Pedra Redonda
bem perto da Pedra Fria
Quando não chove garoa
Quando não garoa gia. Eu tô falando,
Quando não garoa gia.
Eu disci de morro a baxo
No meu macho Ventania
Com o meu laço na garupa
Com.... e Currupia
Tem dia que pego vaca
Outro qui pego novia.
Fui buscá moça bunita
Lá no centro da Bahia
Eu passei no cimitério
Às nove hora do dia
Os mortos se levantaro
E as catacumba gimia
Fui dizendo boa noite!
E as alma disse- Bom dia!
E quanto mais eu rezava
Mais alma aparicia.
Eu cunheço muié véia
Tem a cabeça ruzia. Tô falando
Na linha da carritia
No lugá qui eu como carne
Não quero que o gato mia. Tô falando,
Não quero qui o gato mia.
Cachorro de mão pelada
Não pisa na area fria
Vaca véia na capôera
Dá leite que nem novia
Quando vejo preta véia
Tomo abença e chamo tia. Ai tô falando,
Na linha da carritia.
Eu subi ôi eu lá no céu
Visitá São Malaquia
Ele foi me perguntô
O mundo como é qui ia
Eu virei disse pra ele
Aqui por baxo é rivilia
O fio casô ca mãe
E o pai casô ca fia
Tia casô cum sobrinho
Subrinho casô ca tia. Tô falando
Na linha carritia
Passei no portão de arame
Meu corpo todo trimia
O povo se adimirava
Das proezas Qui eu fazia
Já cantei té no inferno
Convite qui eu recebia
Bati na porta gritando
Perguntaro quem batia, Tô falando,
Perguntaro quem batia.
Aqui é o Vilela duro
Pra cantá na carritia
Diabo ficô sustado:
Cruz-credo-ave-maria,
Cantá com este caboco
É maiá em ferro fria...
Curisco:
- Óia lá qui tô falando
na linha da carritia
fui chamado lá no inferno
pra canta ca diabaria (bis)
cantei sexta, cantei sabo,
Domingo até meio dia
Quando foi segunda-feira
Perguntei se inda quiria
Eu disci de rio abaxo
Fui saí na mataria
Passei um pôco apertado
No meio da bugraria
O bugre cantava perto
E o quexada arrebatia
- Eu tô falando
na linha da carritia
no mato qui não tem onça
macaco dança quadria.
Vilela:
- Eu tô falando,
macaco qui fáis fulia
Qui pula no pau direito
Também pula na furquia
Eu entrei de mato a dentro
No meio da ventania
Na casa dum feiticeiro
Aprindi feitiçaria
A pegá um sapo preto
Pra fazê judiaria
Jogá ele nagua quente
da quente joga na fria
tirá o coro do sapo
pra fazê mandigaria
- Tô falando,
pra fazê mandigaria.
Quando eu vim da minha terra
Passei em Santa Maria
Lá matei um delegado
Acabô delegacia
Cada tapa era um tombo
Era um soldado que caía,
- Tô falando,
era um soldado que caía.
Cachorro não corre paca
Não sabe corre cutia
Solto cachorro no mato
Vô ispera na Cana Fria
Viado no cerradão
Corre mais do que cutia
- Tô falando,
corre mais de que cutia
no mato qui onça berra
macuco no chão não pia
se piá de manhã cedo
morre ante do mêi dia.
Curisco:
- Eu vô cantá
na linha da carritia
o papai chama João Caco
Minha mãe Caca Maria
No meio de tanto caco
Sô neto da cacaria
Vilela:
Sinhô rei mandô chamá
Pra cantá com Malaquia
Cantei quinta, cantei sexta
Até mais de meio dia
Quando foi de tardizinha
Perguntei se inda quiria
E quando foi de madrugada
Fumaça do chão saía,
- Tô falando,
fumaça de chão saía.
Sinhô rei mandô chamá
Pro casamento da fia
Eu virei disse pra ele
Qui casá eu não pudia.
O dote quêle mi dava
Era na França e na Bahia.
Me dava currá de vaca
Com cento e vinte nuvia
Muito porco no chiqueiro
Cavalo na istribaria
Me dava casa bem feita
Com muita benfeitura,
Por baxo forro do bom,
Por cima bambinaria.
Curisco:
- Ai tô falando,
vô cantá na carritia
Qui o papai mi insinô
Como é qui passava o dia:
Largo o laço na cabeça,
Tiro o leite na bacia.
- Ai , tô falando,
tiro leite na bacia
Me chamo Ernesto Vilela
Cabra de muita valia
Eu disci de morro abaxo
No meu macho Ventania
O meu laço na garupa
Com vinte e cinco rudia
Incontrei cum valentão
Lá do centro da Bahia
No dia qui não bibia
- Eu tô falando,
não cumia e nem bibia
ele passava na portea
até o batente gimia
dei uma surra no baiano
baiano chorô treis dia
quem quisé cantá comigo
é maiá no ferro fria
eu disse pro meio mundo
as obras qui Deus fazia:
uma qui fêis as istrela
Outro qui clarêa o dia,
Fêis a noite cas istrela
E o luá por cumpanhia
Ele fêis moça bunita
Tudo im pôquinhos dia
Qui o trabóio deste mundo
Na iscritura dizia
Fêis Europa fêiz a França
Dividindo ca Bahia
Inglaterra e Alemanha
Dividindo ca Turquia.
- Tô falando,
dividindo ca Turquia,
ele formô uma praia
onde a baleia durmia,
fêis a água, fêis a força
pra rolá nas pedraria.
No jardim qui ele cantava
Até o á istrimicia,
E também fêis um barquinho
E fêis muita serraria
- Também fêis este caboco:
Pra cantá não tem quantia, Ôi!...
(SILVA, Francisco Pereira da. O
desafio calangueado) |

Precedendo essas funções, de gonçalistas e catireiros, enquanto
durava o ato paciente, divertido e amoroso de afinição das violas, era comum a gente ver
algumas pessoas debaixo de árvores ou no oitão da casa ouvindo dois sujeitos embolando
versos, rimando ao som de uma sanfona de oito baixos.
Iniciada porém a função motivadora do
encontro vicinal, silenciava o fole e todos, cantadores e assistentes, volviam ao salão
ou terreiro atentos à voz do capelão (se era um São Gonçalo) ou aos versos por cima da
moda (no caso do Cateretê).
E tanto isso se repetiu, que me acostumei
a ver o calango assim como se fora um gênero menor à margem das manifestações mais
empolgantes do populário valeparaibano.
Certa vez, entretanto, acertei de
assistir a uma porfia de calanguistas (exclusivamente deles) em Vila Nali, na área urbana
de Caçapava onde assisti o sanfoneiro Sílvio Martins. Então, combinada a parceria dos
cantadores, o instrumentista acionou o teclado anunciado a "Linha do Numerado":
"Me chamaro eu aqui / pra cantá o numerado
número um é avestruz / meu jogo tá começado".
O companheiro pegou o rojão e ambos, revezando-se no descante de bárbaras estrofes,
puseram em acelerado desfile toda a fauna integrante do Jogo do Bicho:
"Número 1 é avestruz, meu jogo tá começado,
Número 2 é a águia, que tem o bico arcado,
Número 3 é o burro, carrega peso dobrado,
Número 4 é a borboleta, que tem vôo serenado.
Número 5 é o cachorro, o seu nome é Malhado,
Número 6 é a cabra, que tem o leite sagrado,
Número 7 é o carneiro, que dá lã pro colchoado,
Número 8 é o camelo, que tem costa encaroçado.
Número 9 é a cobra, que dá o bote enrolado,
Número 10 é o coelho, comendo capim melado,
Número 11 é o cavalo, que tem pé e mão ferrado,
Número 12 é o elefante, que tem a tromba enrolado.
Número 13 é o galo, que canta de madrugada,
Número 14 é o gato, que tem a faca enrolada,
Número 15 é o jacaré, atravessando o lagoado,
Número 16 é o leão, no sertão é respeitado.
17 é o macaco, faz mesuras do diabo,
18 deu no porco, na caçarola tampado,
19 é o pavão, que tem a pena dourado,
Número 20 é o peru, que faz a roda parado.
21 é o tôro, campeão das invernada,
22 é o tigre, muita gente tem pegado,
23 é o urso, na cidade tem dançaado,
24 é o veado, que corre só pro chapado.
25 é a vaca.

Novia: corruptela de novilha
Porfia: discussão ou contenda de palavras |