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CAUSOS DO SERTÃO

Diz-se no sertão de Sergipe que a mulher ideal é a que é, simultaneamente, pombinha, formiguinha e galinha. Pombinha é a que se mostra sempre terna e asseada; formiguinha é a que, laboriosa, auxilia o marido no sustento do lar; galinha é a que, mãe amorosa, se revela solícita no tratamento dos filhos. Um tabaréu sergipano dizia que a sua mulher era tão formiguinha, isto é, gostava tanto de trabalhar, que, quando não tinha o que fazer, misturava arroz com feijão, só para ter o trabalho de catar…

Imagine-se, porém, o espanto de quem, ignorando essa bizarra classificação inocente, se vir interpelado sobre se sua esposa é galinha

(MOTA, Leonardo. Violeiros do norte)



ANTES…

… dar aos maus que pedir aos bons
… escorregar do pé que da língua
… dar tudo que tenho, que dizer tudo que sei
… calar que com doidos altercar
… almoçar e jantar que dormir sem cear
… excomunhão de vigário que benção de pé de burro
… a criança chore que a mãe suspire
… a feia de barriga cheia, que a bonita que de fome grita
… burro que me leve que cavalo que me derribe
… descoser que romper


No mundo:

A necessidade não tem lei
Necessitas caret lege
La necesidade no conoce ley
Nécessité n’a pas de loi
Necessità non ha legge
Necessity knows no law



• Sou livre, só vou onde me mandam
• O amor é um som que reclama um eco
• Alguns amigos são como aves de arribação. Quando faz bom tempo eles vêm, quando faz mau tempo eles vão
• A felicidade dos outros faz o tormento dos invejosos
• Tartaruga ninja
• Movido a chimarrão
• O maior homem do mundo morreu de braços abertos
• Muitos me seguem, mas só um me acompanha
• Antes eu sonhava, hoje não durmo mais
• Amigo disfarçado, inimigo dobrado

Triste da mãe que pare um filho
que faz da boca um cu

(Diz-se a quem imita o ruído de um flato intestinal)

Quer vender o botão?

(Pergunta irônica feita a quem aparece de braguilha aberta)

De muitos doutores sei
Que fundamente acatamos
Aos quais, se dizem: – Cheguei!
Retruca a morte: – Chegamos!

(Criado por Roberto Correia. In LIMA, Herman. Roteiro da Bahia)



Envaidecida pela veneração com que a saudavam os abolicionistas jubilosos, a princesa Isabel se encontrou um dia com o seu antigo conselheiro, o barão de Cotegipe, que fora o chefe do gabinete de 1886-1888 e que, nessas funções, lhe observara os riscos que corria as sortes do império com a providência radical que os abolicionistas pleiteavam:

– Então, senhor Cotegipe… A abolição se fez com flores e festas. Ganhei ou não a partida?

O barão, cujas previsões políticas o haviam apeado ao poder, mas que continuava a opôr-se de corpo e alma à extinção do cativeiro pelo colapso econômico que disso sobreviria, fitou-a com os olhos de mago e respondeu:

– É verdade.

Mas, logo acrescentou:

– Vossa Alteza ganhou a partida, mas perdeu o trono…

Pouco tempo depois foi proclamada a República.

(ORICO, Osvaldo. O tigre da abolição. In MASUCCI, Folco. Anedotas históricas brasileiras. São Paulo, Editora Edanee, 1947)

Abençoai, Senhor
Quem entra nesta casa
Protege quem fica
E dai paz a quem sai

TREM DOIDO NA PRAÇA

Um dia apareceu um cidadão com uma moto em Tabuí. Motona grande e antiga. Fazia tanto barulho que a cidade em peso foi ver o que estava acontecendo lá na praça.

- Gente, a moto é pra vender! Quem se habilita?

Ninguém topava o negócio, com medo daquele trem treteiro e barulhento. Até que chegou o Zé Botão. Juntou fome com vontade de comer. Botão realizou seu sonho e o forasteiro ficou livre da geringonça. Antes de ir embora o homem ensinou ao Zé como andar naquela coisa.

E Zé Botão passou pra cima da moto e fez a bicha urrar dando voltas e mais voltas em volta da praça. Povinho ficando sem graça com aquilo, com tanta barulheira, e foi raleando. Numa das vezes em que Zé Botão passou em frente da sua casa, já que morava na esquina da praça, gritou, aliás, berrou pra mulher:

- Cida! Ô Cida! Vem cá! Aqui eu, ó!

A mulher não gostou muito de ver o marido encarapitado naquela coisa e sendo alvo da atenção do mundo. Torceu o nariz e foi cuidar da vida.

E Zé Botão rodeou a praça mais um bocado de vezes até que enjoou. Nos dois sentidos. Cansou e o estômago começou a revirar. Resolveu parar. Mas como? O homem não ensinou como parar aquele negócio. E o Botão continuou rodando, rodando... vomitou-se todo. E a moto dando voltas na praça. Ele pensou em pular mas teve medo da dureza do cascalho e receio de estragar sua máquina. E continuou rodando. Até que teve uma idéia. Lembrou-se do vizinho.

- Cida! Ô Cida! Chama o Taviano aí!...

Cida chamou. Taviano apareceu. Zé Botão implorou:

- Taviano, pega o laço!

E deu mais uma volta na praça.

- Taviano, laça eu!

E foi assim que Zé Botão conseguiu sair da moto que foi se quebrar estatelando-se contra o muro da igreja do padre Anacleto.

MAIS LOGO NUMA MOITA...

Lá no Abacaxi, currutela de uma rua só, a muitas léguas de Tabuí, era noite de lua cheia. Tempo fresco e época de colheita. Todo mundo gente muito simples. Divertimento com aquela lua toda era uma baita festa ao som duma viola doída, uma boa sanfoninha reco-reco, um cavaquinho e um pandeiro. Cada um arranhando mais que o outro. Imitando caipiras de fama. Aqueles do rádio. Cantadores cantavam cantigas apaixonadas, com olhinhos até fechados, sonhando com sucesso fácil da cidade grande. Bem diferente de ter que enfrentar cabo de guatambu dia-a-dia.

Festa cada vez mais animada. Tanto dentro quanto fora do rancho. De terra batida. Forquilha no meio para segurar a cobertura de sapê. Lá fora só movimento. Homens e mulheres, cansados de tanto arrastar o pé e balançar o esqueleto, tomavam uma branquinha pra esquentar o peito, proseando enquanto queimavam um pitinho. Lua cheia, misturada com noite fresquinha e pinguinha, clareava e contribuía para o bom desenrolar dos proseamentos.

Enquanto isso, no salão, lotado, dança corria solta. Rela-rela pra tudo quanto é canto. Lá no Abacaxi ninguém cuida da vida do outro. Sem futricas. Cada um faz o que acha certo, é respeitado pelo que é e pelo que faz. Mas num cantinho mais escuro, embora ninguém nem olhasse, tinha um casalzinho que garrou a dançar no comecinho da festa, assim que o sol se pôs, e não parou mais. Não parou é maneira de dizer. Porque parados, no meio do rancho, ficavam tempão danado. Agarradinhos. Coisa com coisa encostadinha e latejando.

Lá pelas tantas da madrugada, rancho abarrotado de gente, contrário do clima lá fora, calor derretia neguinho. Até tocadores deixaram de sonhar e já reclamavam. Sanfoninha espumando melecada de suor. Pandeirinho nem mais respondia à pandeiração. Só casalzinho tava nem aí. Dançava e dançava cada vez mais agarradinho, esfregando as coisas, no bem-bom, olhinhos até fechados. Queriam que o mundo acabasse em moita. Com aquela quentura toda não teve outro jeito. Rapaz garrou numa suadeira danada. Molhado dos cabelos da cabeça até a ponta do dedão do pé grande. Mocinha também. Ruge escorria naquele rostinho aveludado. Vestidinho de chita todo molhado, grudado no corpo, mostrando formas apetitosas. Músculos fortes de uma cabrocha do sertão. Assim meio tonta, resolve falar alguma coisa para o desejo contido arder menos. Abre um olhinho... o outro olhinho... desgruda a cabecinha do peito do mancebo e diz pra ele, caprichando e dobrando a língua nos pronomes:

- Mas você sua, heim?

- E o rapaz, sonhando com o mais logo numa moita, candidamente, sem nem pensar, responde rapidinho:

- E ieu tamém vô sê seu!!!...

(Eurico de Andrade é autor do livro Nós Sofre Mais Goza - Causos de Minas, e colabora com a Jangada Brasil)

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