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O PEÃO PANTANEIRO

O principal equipamento do peão pantaneiro é seu cavalo, ou melhor, seus dois cavalos, já que o duro trabalho de sol a sol exige um rodízio dos animais na metade do dia. Por isso, cada peão usa sempre as mesmas montarias, estabelecendo com elas uma intimidade que é fundamental na hora de guiá-las numa travessia perigosa ou nas tensas manobras para conter um estouro de boiada.

A escolha do arreio também é de comum acordo entre cavaleiro e cavalo, embora o primeiro tenha a prerrogativa de impôr a sua vontade. A primeira providência de quem vai passar dias no lombo de um animal é procurar um arranjo mais macio, com pelego no lugar da sela. Dá mais trabalho para arrumar e não tem a mesma firmeza do assento de couro (na hora de montar, é preciso apoiar-se na crina do cavalo, para não rodar o arreio), mas diminuem bastante as inevitáveis assaduras nas pernas e nas nádegas, principalmente no começo da profissão.

Assim como os cavalos, o arreio é cedido pelo dono da fazenda, mas o peão tem a obrigação de conservá-lo bem e, na medida do possível, aprimorá-lo. Para isso, logo aprendem a trabalhar o couro, matéria prima que nunca pode faltar numa fazenda de gado. Para fazer um laço, por exemplo, usam metade do couro de uma vaca, que é cortado fininho, em movimentos circulares, para conseguir a tira mais comprida possível. A tira então é cortada em três e trançada num dia de chuva, ou de madrugadinha, para que a umidade do ar amacie o couro e deixe o laço mais maleável. Conforme o tamanho da vaca que forneceu o couro, o laço pode ter de quinze a vinte metros.

Comitiva boa carrega também uma viola na tralha, mas nem sempre há violeiros disponíveis. Já a guampa de tereré (chá-mate frio), feita de chifre de boi, é um acessório tão obrigatório quanto a faca e o revólver. Toma-se tereré de três a quatro vezes ao dia, conforme os horários combinados com o capataz, mas é na roda que se forma à noite, antes e/ou depois do jantar, que o peão pantaneiro chega ao seu melhor estado d’alma, lembrando com orgulho o que fez naquele dia e se retemperando para o que ainda está por vir.

***

O café da manhã dos peões pantaneiros é sempre uma refeição tão substanciosa quanto o almoço ou o jantar, sempre à base de arroz com pedaços de carne-seca, chamado por eles de quebra-torto. A ração diária de cada peão é de meio quilo de carne por dia.

A água fica numa tina com uma caneca de cada lado. Os peões devem coletar a água com a caneca da direita e passar para a da esquerda, e então beber, evitando assim a contaminação da água. É uma rígida regra de higiene que todos devem obedecer, sob pena de multa, que nesse caso é um frango, usado para variar o cardápio, comprado pelo cozinheiro na primeira oportunidade, e descontado do salário do infrator.

Para dar sorte, os peões devem se servir da comida sempre no sentido do destino da comitiva, levantando a tampa da panela utilizando somente o dedo mindinho esquerdo, enquanto o resto da mão segura o prato, e usar a concha com a mão direita. Se a tampa cai ao chão, é mais um frango variando a refeição.

(Extraído de Os Peões do Paraíso, in Caminhos da Terra)

 

DISPARADA
(Théo de Barros / Geraldo Vandré)

Prepare seu coração
Pras coisas que eu vou contar
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
E posso não lhe agradar
Aprendi a dizer não
Ver a morte sem chorar
E a morte, o destino, tudo
A morte, o destino, tudo
Estava fora de lugar
Eu vivo pra consertar

Na boiada já fui boi
Mas um dia me montei
Não por um motivo meu
Ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse
Porém por necessidade
Do dono de uma boiada
Cujo vaqueiro morreu

Boiadeiro muito tempo
Laço firme, braço forte
Muito gado, muita gente
Pela vida segurei
Seguia como no sonho
E boiadeiro era um rei.

Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E nos sonhos que fui sonhando
As visões se clareando
As visões se clareando
Até que um dia acordei

Então não pude seguir
Valente lugar-tenente
Do dono de gado de gente
Porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata
Mas com gente é diferente

Se você não concordar
Não posso me desculpar
Não canto pra enganar
Vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado
Vou cantar noutro lugar

Na boiada já fui boi,
Boiadeiro já fui rei
Não por mim nem por ninguém
Que junto comigo houvesse
Que quisesse ou que pudesse
Por qualquer coisa de seu
Por qualquer coisa de seu
Querer mais longe que eu.

Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E já que um dia montei
Agora sou cavaleiro
Laço firme, braço forte
Do reino que não tem rei.

 

Conheça as cores das pelagens dos animais!

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