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A história da moura torta em duas versões. A primeira, na versão de Sílvio Romero, de 1885, e a segunda, de Ruth Guimarães, da década de 1980.

A MOURA TORTA

ma vez havia um pai que tinha três filhos, e, não tendo outra cousa que lhes dar, deu a cada um uma melancia, quando eles quiseram sair de casa para ganhar a sua vida. O pai lhes tinha recomendado que não abrissem as frutas senão em lugar onde houvesse água.

O mais velho dos moços, quando foi ver o que dava a sua sina, estando ainda perto de casa, não se conteve e abriu a sua melancia. Pulou de dentro uma moça muito bonita, dizendo: "Dai-me água, ou dai-me leite". O rapaz não achava nem uma coisa nem outra; a moça caiu para trás e morreu.

O irmão do meio, quando chegou a sua vez, se achando não muito longe de casa, abriu também a sua melancia, e saiu de dentro uma moça ainda mais bonita do que a outra; pediu água ou leite, e o rapaz não achando nem uma coisa nem outra, ela caiu para trás e morreu.

Quando o caçula partiu para ganhar a sua vida, foi mais esperto e só abriu a sua melancia perto de uma fonte. No abrí-la pulou de dentro uma moça ainda mais bonita do que as duas primeiras, e foi dizendo: "Quero água ou leite". O moço foi à fonte, trouxe água e ela bebeu a se fartar. Mas a moça estava nua, e então o rapaz disse a ela que subisse em um pé de árvore que havia ali perto da fonte, enquanto ele ia buscar a roupa para lhe dar. A moça subiu e se escondeu nas ramagens.

Veio uma moura torta buscar água, e vendo na água o retrato de uma moça tão bonita, pensou que fosse o seu e pôs-se a dizer: "Que desaforo! Pois eu sendo uma moça tão bonita, andar carregando água…!" Atirou com o pote no chão e arrebentou-o. Chegando em casa sem água e nem pote levou um repelão muito forte, e a senhora mandou-a buscar água outra vez; mas na fonte fez o mesmo, e quebrou o outro pote. Terceira vez fez o mesmo, e a moça, não se podendo conter, deu uma gargalhada.

A moura torta, espantada, olhou para cima e disse: "Ah! É você, minha netinha!… Deixe eu lhe catar um piolho". E foi logo trepando pela árvore arriba, e foi catar a cabeça da moça. Infincou-lhe um alfinete, e a moça virou numa pombinha e avoou! A moura torta então ficou no lugar dela. O moço, quando chegou, achou aquela mudança tamanha e estranhou; mas a moura torta lhe disse: "O que quer? Foi o sol que me queimou!… Você custou tanto a vir me buscar!"

Partiram para o palácio, onde se casou. A pombinha então costumava voar por perto do palácio, e se punha no jardim a dizer: "Jardineiro, jardineiro, como vai o rei, meu senhor, com a sua moura torta?" E fugia. Até que o jardineiro contou ao rei, que, meio desconfiado, mandou armar um laço de diamante para prendê-la, mas a pombinha não caiu. Mandou armar um de ouro, e nada; um de prata, e nada; afinal, um de visgo, e ela caiu. Foram levá-la, que muito a apreciou. Passados tempos, a moura torta fingiu-se pejada e pôs matos abaixo para comer a pombinha. No dia em que deviam botá-la na panela, o rei, com pena, se pôs a catá-la, e encontrou-lhe aquele carocinho na cabecinha, e, pensando ser uma pulga, foi puxando e saiu o alfinete e pulou lá aquela moça linda como os amores. O rei conheceu a sua bela princesa. Casaram-se, e a moura torta morreu amarrada nos rabos de dois burros bravos lascada pelo meio.

(Extraído de ROMERO, Sílvio. Contos populares do Brasil.)

(continua)

Ilustração de Marcos Jardim

"Nas habitações de melhor aparência viviam as mulheres na faina caseira durante o dia, enquanto os maridos andavam ao trabalho; e, à noite, diante de uma candeia de azeite, sentadas na banquinha em forma de M, cruzavam em diversos sentidos algumas dúzias de bilros; e a velha vovó rezava o rosário ou contava aos netos as histórias das Três Cidras do Amor e da Moura Torta"
(Luiz Gonzaga Duque Estrada. A Arte Brasileira, Pintura e Escultura, 1888, falando sobre a vida no Rio de Janeiro de meados do século XVIII )

FALA, MESTRE!
Trechos da nota feita por Luís da Câmara Cascudo para a edição de Contos Populares do Brasil (1954):

"É a estória das Três Cidras de Amor, uma das mais vulgarizadas na Europa e constante em dezenas de coleções de contos nas principais línguas vivas. As intermináveis bibliografias registrando o três cidras de amor evidenciam não apenas sua popularidade mas a extensão de sua circulação na literatura oral do mundo...

A Moura Torta, nome mais popular da estória, denuncia sua antigüidade, alusiva à escravaria moura, com as velhas feiticeiras, cegas de um olho, misteriosas e sinistras..."

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