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Desafio de Inácio da Catingueira com Antônio Romano:

1
Romano quando se assanha,
Treme o Norte e abala o Sul
Solta a bomba envenenada
Vomitando fogo azul,
Desmancha negro nos ares
Que cai virado em paul...

2
Inaço quando se assanha,
Cai estrela, a terra treme,
O sol esbarra seu curso,
O mar abala-se e geme,
Cerca-se o mundo de fogo,
Mas o negro nada treme...

3
Inaço, tu me conhece,
E sabe quem eu quem sou;
Eu posso te garanti
Que a Catingueira indo vou,
Vou derribá teu castelo
Que nunca se derrubou.

4
É mais fácil um boi voar,
Um cururu ficar belo,
Aruá jogar cacete
E cobra calçar chinelo
De que haver um barbado
Que derribe meu castelo!

5
Antes de eu ir, oito dia,
Te mandarei um aviso;
Você tando em casa, corre
Porque você tem juízo,
E eu vou só fazê estrago:
Quebro, rasgo, queimo e piso!

6
Quando for procure um padre
Que o ouça de confissão,
Deixe a cova bem cavada
E feita a encomendação,
Leve água benta também
E deixe feito o caixão

7
Inaço da Catingueira
Escravo de Manuel Luiz,
Tanto corta como risca,
Como sustenta o que diz,
Sou vigário capelão
E sanscristão da Matriz!

8
Aqui é este Romano,
Dentaria de elefante,
Barbatana de baleia,
Força de trinta gigante,
É ouro que não mareia,
Pedra fina e diamante...

9
O pau que eu tirar da foice,
Tu não tiras de machado;
No mato que eu entrar nu,
Cabra não entra encourado;
barbatão que eu pegar solto
Botas no mato, peiado...

10
Seu Romano inda não viu
O tamanho do meu roçado;
Grita-se aqui dum
aceiro,
Ninguém ouve do outro lado.
Eu faço cousas dormindo
Que ninguém faz acordado.
O que o senhor faz em pé,
Eu faço mesmo deitado...

11
No lugar onde eu campeio,
Tu mesmo não tiras gado;
Faço figura no limpo,
Faço melhor no fechado...
No poço que eu tomar pé
Você morre afogado...

12
Coisas que faço no mato
Ninguém faz no tabuleiro;
O que branco faz no duro
Eu faço num atoleiro.
O que faz no mês de março
Eu tenho feito em janeiro;
O negro em qualquer sendeiro,
A concessão que lhe faço
É correr no meu aceiro...
Embora o diabo lhe ajude,
Eu derrubo o boi primeiro!

13
Quem se mete pro meu lado
Pode jurar que se engana
Me cortem que eu nasço sempre;
Sou que nem soca de cana.
Eu não me embaraço em mofundo,
Quanto mais em gitirana!
No lugar onde eu passar,
Não passa nem mucurana!...

14
Nego só bebe cachaça
Caboclo bebe cauim;
Não há pequeno inimigo
Não há amigo ruim.
Eu sou como Deus me fez,
Quem me quiser é assim.
No mato em que vadiar
calangro não faz camim...
No lugá onde eu passar
Não passa nem micuim...

Ilustração de Aldemir Martins in Mota, Leonardo. Violeiros do Norte, 1962.

ANTÔNIO ROMANO, Caluetê, 1840–1891, é o mesmo Romano da Mãe D’Água, porque nascera e residia no Saco da Mãe D’Água, no município de Teixeira, Paraíba. Era irmão do cangaceiro-cantador Veríssimo do Teixeira e pai de Josué Romano, cantador famosíssimo. Chamavam-no também de Romano do Teixeira, o Grande Romano. Foi o mais célebre cantador do seu tempo. Ficaram memoráveis nos fastos da cantoria o desafio e Romano com Manuel Carneiro, em Pindoba, Pernambuco, e o combate com Inácio da Catingueira, no mercado-público de Patos, Paraíba, e que durou oito dias, segundo Rodrigues de Carvalho. Faleceu a 1º de março de 1891, repentinamente, trabalhando no seu roçado num domingo. Num embate de Josué Romano com Manuel Serrador, o filho do cantador afamado assim apregoou as glórias paternas:

Eu me chamo Josué,
Filho do Grande Romano,
O cantador mais temido
Que houve no gênero humano:
Tinha a ciência da abelha,
Tinha a força do oceano!...

Romano conhecia as ciências populares e delas tirava efeito seguro. Seus versos estão deturpados e dissolvidos nas gestas de outros cantadores. Raros serão os verdadeiros, entre os muitos apontados como autênticos pela tradição.

Um fato curioso de sua vida foi a visita que fez ao irmão Veríssimo na cadeia de Teixeira. Veríssimo era cangaceiro da quadrilha de Viriato. Condenado a sete anos de prisão, passou-os tocando viola e cantando desafio com ele mesmo. Romano foi visitá-lo e o comandante do destacamento, sertanejo autêntico, permitiu um encontro dos dois, de viola em punho, dentro da cadeia. E cantaram juntos, como se estivessem num pátio de fazenda, em noite de lua, sob aplausos.

INÁCIO DA CATINGUEIRA, negro escravo do fazendeiro Manuel Luiz, cantador lendário e citado orgulhosamente por todos os improvisadores do sertão. Seus dotes de espírito, a rapidez fulminante das respostas, a graças dos remoques, a fertilidade dos recursos poéticos, a espantosa resistêcia vocal, ficaram celebrados perpetuamente. Sendo negro e analfabeto não trepidou enfrentar os maiores cantadores do seu tempo, debatendo-se heroicamente e vencendo quase todos. Foi o único homem que conseguiu derrubar Romano da Mãe D’Água, depois de cantarem juntos oito dias em Patos, luta que é a página mais falada nos anais da cantoria sertaneja. O Grande Negro nasceu no dia de santo Inácio Loiola, 31 de julho, na fazenda e povoação de Catingueira, perto de Teixeira, Ribeira do Piancó, Paraiba, e faleceu aí, sexagenário, em fins de 1879.

(Extraído de CASCUDO, Luís da Câmara.   Vaqueiros e Cantadores,  p. 169, 170,  256-258)

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