Retornar para Cancioneiro
Ir para a página principal O boi Surubim
Nasceu um bezerro macho
No curral da Independência,
Filho de uma vaca mansa
Por nome de Paciência.

Quando Surubim nasceu
Daí a um mês se ferrou
Na porteira do curral
Cinco touros enxotou.

Na porteira do curral
Onde Surubim cavou
Ficou um barreiro tal
Que nunca mais se aterrou.

Na praça da cacimba
Onde o Surubim pisou
Ficou a terra acanhada,
Nunca mais capim criou.

Um relho de duas braças,
Que o Surubim amarrou,
Botou-se numa balança,
Duas arrobas pesou.

Fui passando num sobrado,
Uma moça me chamou:
-Quer vender o Surubim?
Um conto de réis eu dou.

"Guarde seu dinheiro, dona,
O Surubim não vendo não.
-Dou um barco de fazenda,
De chita e madapolão.

"Este é o meu boi Surubim
É um corredor de fama,
Tanto ele corre no duro,
Como nas vargens da lama.

Corre dentro, corre fora,
Corre dentro da caatinga;
Corre quatro, cincos léguas
Com o suor nunca pinga.

Quando Surubim morreu,
Silveira pôs-se a chorar:
Boi bonito como este
No sertão não nascerá:
Eu chamava ele vinha:
-O-lé, o-lô, olá...

Pelas recordações que deixou no sertão de quatro estados creio que o romance do Boi Surubim foi um dos mais antigos e dos mais cantados. Ouvi-lhe cantar apenas trechos, numa solfa linda que guardei, (Vaqueiros e Cantadores, p. 82). A estória propiamente dita desapareceu e restam as alegorias, comparações do tamanho desmesurado do animal e sua maravilhosa divisão. Os nordestinos emigrados levaram o Boi Surubim para o sul, centro e extremo norte do país. Americano do Brasil registrou-o em Goiás. (Cancioneiro de trovas do Brasil, Décima do Boi, p.176). Ainda em 1910, no sertão oeste do Rio Grande do Norte, meus tios e primos, todos vaqueiros, diziam, referindo-se à segurança de uma cerca entrançada: - Aqui não se passa nem o Boi Surubim... E o Boi Surubim vivera cem anos antes. Celso de Magalhães no seu último artigo no Trabalho, Recife, agosto de 1873, cita o romance do Surubim, numa quadra expressiva:

Tirou-se vinte cavalos
Escolhidos pela flor,
Para pegar o Surubim
- Todos vinte ele deixou.

(Nota de Luís da Câmara Cascudo in ROMERO, Sílvio. Cantos Populares do Brasil, t.1).

Cancioneiro

Festança | Imaginário | Oficina | Palhoça | Colher de Pau | Panacéia | Almanaque
Catavento
| Candeeiro | Mural | Expediente | Busca | Outras Edições