A Chapada do Araripe ou A história do caçador que levou uma pisa da mula-sem-cabeça, da caipora e do lobisomem
Versos de Cacá Araújo
1
Bem lá no mêi da floresta
Dibacho do firmamento
Celebrô-se o casamento
Cum dança, cumida e festa
Forró, baião e seresta
Do sinhô Tamanduá
Co’a princesa do lugá:
Dona Onça, a realeza
Cuja ofuscante beleza
Fez a chapada brilhá
2
Era grande a aligria
Gato-do-mato, Raposa
O Macaco e sua esposa
Veado, Tatu, Cutia
O Guaxinim só sorria
A Siriema facêra
Se danô, namoradêra
O Pica-Pau e o Jacu
Periquito, Rola Azul
Caíro na gafiêra
3
O Sabiá e o Chorró
Combinaro co’o Ferrêro
Fizero um coral ligêro
Cantaro im lá maió
Fá sustenido, ré, dó.
Cubano a situação
Tapano seus ói co’ar mão
Lá distante do chamego
Eu vi o nobre Morcego
Irritado co’o clarão
4
A Borboleta e o Tiú
A Cobra e o Bêja-Flô
Do alto do Piquizeiro
Avistaro um Caçadô
Num deu nem tempo gritá
Nem corrê, nem avuá
E um forte tiro istrondô
5
Disispêro e agunia
Choradêra e aflição
Ninguém morreu do ataque
Mas aquele fí do cão
Pinotano sem pará
Injaulô o Sabiá
Nas grade dum achaprão
6
Sumiu pelo mato adento
Fumano cigarro forte
O fogo qu’ele acendeu
Eliminô muita sorte
A floresta incendiô
E quando a chuva apagô
Mostrô um quadro de morte:
7
Faleceu um Murici,
Mucunã e Catuaba
Pegaro duença braba.
Morreu um pé de Piqui
Um Pau d’Arco e um Jiquiri
O Visguêro mais florido
Teve seu tronco partido.
Siguiu o fogo a queimá
Amarelo, Jatobá
E o Cajuí foi firido
8
Pereceu a Janaguba
A Cidrêra sapecô
A floresta vistiu luto
O mundo disanimô
Os bicho se revoltaro
E todos junto choraro
Diante do que restô
9
Um jove Camalião
Pulô valente no chão
- Eu tenho um plano, gritô
Vamo a floresta vingá
Libertá o Sabiá
Castigá o Caçadô!
10
Cum sua idéia aprovada
Comandô a bicharada
E descêro istrada abacho
Istavam organizado
Pra no lugá distinado
Derrotá aquele Diacho
11
E a batalha foi dura
Nos bicho só vi bravura
Todos muvido pur fé
Foi biliscão e murdida
Azunhada e sacudida
Muito acocho e cangapé
12
O Sabiá libertado
E o Caçadô disgraçado
Foi levado pra floresta
Pra sê jugado na hora
No terrêro da Caipora
Futuro de quem num presta.
13
Pra fazê o jugamento
Também chamaro o Saci
A Mula e o Lubisome
A alma do Murici
O isprito do Cabôco
Jaraguá e Jiquiri
14
Todos junto aguardano a dicisão
Pelo júri dotado de sabença.
A Caipora feroz ergueu a mão
Proferiu muito firme a sentença
Aplicano a justiça e a razão
Na palavra o sabô da consciênça
15
- Pur tê sido covarde e violento
Contra as planta e os bicho da Chapada
Vai da Mula levá trinta coiçada
Teu distino é cruel e eu num invento
Penará castigado intregue ao vento
Cortarei tua veia do cangote
Cum teu sangue incherei catoze pote
Vai tumá sabacu do Lubisome
Tua vida será de inferno e fome
Vô te dá uma pisa de chicote
16
Dôze dúza de cuia vá ganhá
Custurada nos pé, nos cutuvelo
A floresta merece muito zelo
Teu sirviço agora é apagá
Qualqué chama que hové nesse lugá.
Condenado istá pra vida intêra
A corrê a procura de fuguêra
Dirmanchano caçada e achaprão
Libertano e salvano da prisão
Esta é a palavra derradêra
17
E foi grande a gritaria
Muito abraço de aligria
No zabumba era o Macaco
Na sofona seu Mundô [1]
Coruja foi quem cantô
Forró do balacobaco
18
Rinchano a todo momento
A Jumenta e o Jumento
Cada qual com um ganzá
Passarinho cum Lobó
Dançano os dois num cipó
E na rabeca o Guará
19
O Lubisome e a Caipora
Se bejano a toda hora
Anunciaro o noivado
Também a Mula e o Saci
Atrás dum pé de Piqui
Cum namoro apachonado
20
Na Chapada do Araripe
Todo o verde floresceu
Lá num foi mais caçadô
A vida se ingrandeceu
A justiça e a liberdade
Respeito e filicidade
No novo mundo nasceu
Cacá Araújo
Crato CE
janeiro do ano 2005
1. seu Mundô – Guarda florestal aposentado, é reconhecidamente um defensor da fauna e da flora da Chapada do Araripe.

