A caixa da folia
Rogério Duarte
Tenho como uma das minhas paixões a folia de Reis. Em particular, a Folia Estrela de Belém do Norte, de São Fidélis, interior do estado do Rio de Janeiro. Há cinco anos, eu e Gau, minha mulher, vamos à sua festa de arremate e há quatro a recebemos em nossa casa. Como dizemos, virou devoção.
Mas, além disso, somos curiosos, pesquisadores. Eu, com formação em Ciências Sociais e ela, historiadora. E sempre bate aquela vontade de ir à fundo, anotar expressões, relações. Tudo se mistura. Para os foliões, somos da família. E é um sentimento recíproco. É nesta busca que vem a minha história.
Na última festa, resolvi anotar dados de cada folião, como nome completo e seu respectivo instrumento. Seus Sebastião, por exemplo, toca folha. As melhores são as da árvore da fruta-do-conde. Ele escolhe as melhores folhas e lava uma por uma em água corrente. Muito bem lavadas, eu já vi! Depois as seca e coloca no bolso, tudo muito bem arrumadinho.
Aí chegou a vez do Roberto Carlos responder.
— Oi, Roberto Carlos. Vamos lá à pergunta. Que instrumento você toca?
Ele responde bem feliz e orgulhoso:
— Cacharré.
Eu, simplesmente, não entendi. Já tinha bebido umas cervejinhas, comido bem. Normal em festa de arremate. Fiquei em silêncio, tentando desvendar o que seria aquele instrumento misterioso. Pior que já o tinha visto tocar várias vezes, mas, na hora, me deu um branco. Não conseguia me lembrar de jeito nenhum. Cacharré... seria um reco-reco? Um caxixi? Uma matraca? Tentei ganhar tempo.
— Puxa, Roberto Carlos, tua mãe acertou em cheio no seu nome. Alguma vez você já foi parado na rua para dar autógrafo? O corte do seu cabelo lembra o do "Rei" no tempo do "Jesus Cristo, eu estou aqui". Ele também usava um crucifixo no peito com a camisa meio aberta...
E tentava novamente:
— Mas que instrumento mesmo?
— Cacharré... Cacharré...
Eu nada de entender. Parecia um estrangeiro, um daqueles que fazem um primeiro contato em um lugar estranho. Foi quando a Gau, do outro lado da mesa, meio rindo da minha situação, esclareceu:
— Caixa. Caixa ré, Rogerinho.
E o Roberto Carlos, abrindo um sorriso:
— Isso!
Pois é, além de óculos para leitura, devo estar precisando de um aparelho para surdez.
Rogério Duarte
48 anos
Rio de Janeiro RJ

