Vovô Papadinha da minha infância
Márcia Maria Machado Nunes
Tive parte da minha infância assombrada pela imagem de um velho gorducho que carregava crianças e prendia-as para cometer atrocidades terríveis com as mesmas até matá-las.
Que dias e noites terríveis passei imaginando Vovô Papadinha escondido em cada canto da nossa casa. Nessa época morávamos em uma casa antiga com um corredor enorme, para onde se abriam as portas dos quartos, que fazia ponte entre a sala e a cozinha. Pois bem, esse percurso era feito por mim ou de olhos fechados agarrada aos meus avós ou em louca disparada com o coração a querer saltar do peito. Ao finalmente entrar no quarto para dormir revistava o guarda-roupa e o espaço embaixo das camas para logo a seguir trancar a porta do quarto com a máxima rapidez que permitia meu físico gordinho. E, se por acaso, ao executar minha operação relâmpago alguém viesse em sentido contrário e empurrasse a porta que eu estava a fechar, os gritos lancinantes podiam ser ouvidos à distância. Hábito aliás do qual só consegui me livrar há algum tempo.
Os meus avós com os quais eu morava não encontravam explicação pra tanto medo e já não sabiam mais o que fazer. Não imaginavam eles que minha mãe alimentava sempre que podia esse meu terror por Vovô Papadinha; trazendo-me sempre notícias das crianças raptadas e mortas por ele. Segundo ela, as notícias eram sempre divulgadas pelo rádio, na época não existia televisão em nossa cidade.
A qualquer sinal de desobediência minha vinha a famosa frase: "Eu ouvi pelo rádio que Vovô Papadinha está vindo pra cá". E eu quase a balbuciar de tanto terror: "Mas como ele vai chegar aqui?" E minha mãe inclemente a apontar os inúmeros fios que atravessavam nossa rua: "Ele vem pelos fios." Pronto, agora era preciso vigiar também os fios de onde Vovô Papadinha poderia saltar a qualquer momento, pensava eu aterrorizada na minha ingenuidade de criança.
Márcia Maria Machado Nunes
47 anos
Maceió AL

