“Preta Vilma” morreu

Marina Berthet

Morreu, morreu... para sempre? Sim, para sempre.

Dona Vilma, benzedeira reconhecida e querida no Morro de Dona Marta, em Botafogo, no Rio de Janeiro, faleceu o dia 11 de agosto de 2006. Me pergunto até se não foi a lua cheia que a levou. Nem vou conferir se naquele dia era lua cheia, prefiro achar que era lua cheia mesmo só para embelezar a morte dela. O célebre escritor e poeta africano Hamadou Hampâté Ba dizia que, “na África, quando um velho morre é uma biblioteca inteira que queima”. Com a morte da Dona Vilma, não é apenas uma biblioteca que queima, são as plantas que choram, é um pedaço da mata que deixara de ser considerado como elemento fundamental de cura, são saberes que não foram transmitidos e vão se perder, é o próprio ar que sufoca, são as energias desperdiçadas que queimam e vão queimar durante muito tempo.

Há muito tempo que quero escrever “alguma coisa” sobre Dona Vilma e agora que ela morreu, faço questão de escrever essas linhas em homenagem a ela mesmo que não tenha nenhum talento para escrever. Cartola dizia que “as rosas não falam”, e Dona Vilma era uma rosa que falava pouco a língua da gente talvez porque já há três anos atrás, quando a conheci, ela já estava morrendo aos poucos porque não tinha alguém a quem transmitir justamente o domínio dessas línguas simbólicas que ela falava.

Para subir o morro de Dona Marta, a estrada de terra que nós pegamos foi bem longa. Parecia um outro Rio de Janeiro: crianças soltando pipas, senhoras voltando da feira, e um grande silêncio que passeava entre as árvores, as casinhas e os moradores. Fomos lá durante o FotoRio 2003, evento que acontece no Rio de Janeiro sobre fotografia, ver uma exposição do fotógrafo Marco Terranova que expôs numa capelinha toda azul e branca fotos que mostravam um morro diferente do que a gente costuma ver na televisão.

O Marcos fez questão de nos apresentar Dona Vilma. Só para chegar até onde ela morava tivemos de passar por um caminho tortuoso, perdido entre as casinhas do morro. Chegamos finalmente até a casa humilde toda de madeira. Até hoje sinto a paz que ambientava aquele quarto. Quase não lembro mais de todos traços de “preta Vilma”, como era chamada, mas lembro das energias que ela transmitia, do olhar dela, da voz triste e do mundo que a cercava, plantinhas por todo lado, cheiros, e alguns papéis. Só aquele quarto e o que ele continha bastava para resumir a vida da Dona Vilma. Ela falava baixinho, falou do sobrinho dela, da sua luta pela vida de benzedeira, da fé e da cura, do poder das plantas, e do que ela conseguia curar nas pessoas, da lástima que sentia por não encontrar alguém a quem pudesse transmitir seus conhecimentos. Naquela hora quis abandonar tudo e ficar com ela, bebendo na fonte de tudo que ela sabia e aceitaria transmitir, naquela hora me senti tão próxima afetivamente dela que queria que esse momento durasse muito mais.

Quantas pessoas Dona Vilma conseguiu curar? Assim só pela força da reza? Também fabricava remédios caseiros, e chás diversos. Parecia uma bruxinha do bem, magrelinha, frágil como as flores e poderosa como as plantas. Para certas doenças, ela explicava que só uma boa benzedura resolvia, para outras situações a benzedura tinha que ser acompanhada do uso de plantas, ou folhas. Imaginava ela rezando baixinho orações apropriadas. Ela explicou que para cada problema específico havia rezas específicas. Cada pessoa que entrava nessa casa, deixava um pouco dela e Dona Vilma recuperava esta alma e a guardava no seu coração e rezava para cada uma delas, muitas vezes, durante vários dias. Ela rezou no nosso encontro, infelizmente as palavras se perderam na minha memória. O que não faltava na casa de Dona Vilma eram orações, ternura, plantas e humildade.

Pensei em me mudar, morar com ela e escrever, registrar, gravar tudo que ela quisesse me transmitir. Evidentemente, por causa das minhas limitações, não abandonei meus estudos, não fiz nada, a não ser sonhar e viajar com ela no mundo das plantas, das linguagens simbólicas, e tranqüilamente voltei na minha confortável casa no mesmo bairro de Botafogo. Mas Dona Vilma era minha vizinha, em todos os sentidos, eu falava com ela, sonhava com ela, imaginava o quanto era preciosa, frágil e forte como uma rosa, e quantas pessoas tinham se beneficiado dos poderes dela. Ela tinha prometido que rezaria por mim, como essa mulher aparentemente tão frágil conseguia encher o coração dela de gente, rezando por cada um? Só com muito amor mesmo.

Comecei, como antropóloga que sou, a pesquisar sobre o mundo das benzedeiras e uma das minhas primeiras pesquisas foi feita através do Jangada. Cheguei a esboçar um projeto para resgatar a história de vida de Dona Vilma. Eu tinha pressa de acabar o doutorado para poder voltar no morro e encontrar de novo Dona Vilma. Nunca mais a vi. Fui fazer meu trabalho de campo, voltei e mergulhei na redação da minha tese. Tentei várias vezes reativar o contato com o fotógrafo para voltar lá, mas sempre deixava o tempo passar. No entanto, não parava de lembrar da Dona Vilma por causa daquela sensação que ela tinha me deixado durante nosso primeiro e único encontro e de todo carinho que sentia por essa mulher. 

Dona Vilma ficou mais doente e foi internada, nem bruxinha do bem resiste à doença. Quando soube disso meu coração disparou mas não fui visitá-la imediatamente e ela morreu. E eu, egoistamente, só pensei que ela tinha morrido e que não tive tempo de me despedir daquela alma, daquela luz, daquela rosa negra maravilhosa que ela era. Não perdi a Dona Vilma dentro de mim, ela existe ainda através de todos os que estão vivos ainda anônimos, donos e donas de saberes que poucos valorizam ou acham que esses Velhos têm o mesmo tempo do que a gente e nunca vão morrer. Ela ainda representa as pessoas detentoras de saberes que o nosso mundo esquece e que a própria cultura popular esquece. Dona Vilma morreu, no momento que eu comprei um novo vaso para minha espadinha de Ogum, só faltava trocar a terra, conversar com minha plantinha que ela tinha que se mudar agora para um espaço maior. Anteontem, olhei para ela, com todo respeito decidi chamá-la de Vilma porque se a Dona Vilma renascer, tenho certeza que será através de uma flor ou de uma planta. 

 

Marina Berthet
33 anos
Rio de Janeiro RJ