Para que rezar?
Enio Squassoni
Quanto palavrório jogado fora sem resultado! Quanta reza é feita automaticamente, com palavras e versos padrões decorados e repetidos sem sentir, enquanto os pensamentos vagueiam longe (até como maus pensamentos!). As palavras ditas assim pesam, juntas, menos que o espirro de um mosquito e têm menos efeito ainda.
Considero um insulto aos céus dedilhar um terço apenas para contar quantas vezes estou repetindo palavras padrões, de cujo mistério profundo eu nem me apercebo, enquanto estou pensando em outras coisas que teimam em cruzar a minha atenção. As palavras de uma oração devem ser meditadas atentamente no seu profundo significado. Isto já é um bom começo, mas não é tudo!
Uma oração não deve “SER POR SER” mas “SER POR ALGUÉM”. Ser por Ser implica em obrigatoriedade: devemos rezar toda manhã e toda noite. Ser por Alguém indica fraternidade, amor, comunidade, compaixão, perdão, cumplicidade, apoio, ajuda. É um ato com finalidade e não um ato vazio. É o único que produz resultados. Todos nós já ouvimos antigas histórias de velhinhas rezadeiras que tinham uma “reza brava” que curava praticamente tudo. Tenho certeza que elas, na sua santa boa vontade, praticavam a “reza por alguém”.
Vejamos o caso de duas famílias que moravam no “interior” e eram ligeiramente aparentadas (os casais eram compadres, o que os tornava mais do que parentes consangüíneos lá na terrinha). Tudo corria bem até que um mal entendido entre teimosos asininos indispôs as duas famílias, separando-as. Como em todo lugar, os fofoqueiros mal intencionados se encarregaram de aumentar os argumentos de separação, culminando em ódio entre as partes.
João, apesar deste problema, ainda conseguia rezar, como de costume, pelas almas do purgatório. Catulo, por seu lado, mais sensível aos sentimentos feridos, cultivava seu crescente ódio pelo compadre. Até que, depois de ouvir mais uma mentirosa fofoca, tomou a decisão de assassinar o compadre. Planejou fazê-lo de tocaia na picada que o compadre percorria todos os dias com sua carroça quando voltava do campo. Assim, não teria testemunhas de seu hediondo crime.
Todos os dias Catulo armava sua tocaia numa volta mais erma do caminho, coberta por denso matagal. Por ali o compadre João passava todos os dias invariavelmente às 5 horas da tarde. Mas João passou a vir sempre acompanhado de um monte de gente em sua carroça. Os que não estavam conversando entre si estavam olhando para todos os lados do caminho, obrigando Catulo a esconder-se para não ser flagrado na sua tocaia. Isto durou mais de três meses, até que Catulo resolveu adiar a tocaia.
Mas como este mundão dá muitas voltas, as fofocas foram sumindo e os argumentos verdadeiros foram prevalecendo, aclarando as divergência e, aos poucos, reaproximando as famílias briguentas. O pároco dom José, muito piedoso e amigo de todos também interveio e conseguiu o reatamento desejado por todos. O tempo, bálsamo que cura e cicatriza qualquer ferida, ajudou a consolidar novamente as duas em uma só família.
Um dia João e Catulo estavam sentados sob o caramanchão florido durante um churrasco e relembravam “os velhos tempos” fazendo confissões pessoais. Catulo revelou, cheio de contrição e tristeza, sua tentativa de matar o compadre de tocaia, não tendo conseguido por causa “do mundão de gente que ocê levava todo dia na carroça, sô!” João replicou que nunca tinha feito isso. Minha carroça era “véia e num güentava mais qui eu!”.
É... Falhou a tocaia, mas não falhou a oração! Amor com amor se paga, neste mundo e no outro.
27 de novembro de 1998
Enio Squassoni
72 anos ("deles, só uso 36 - os outros 36 guardo no freezer")
São Pedro SP (interiô)

