Menino-Cicatriz

Marilia Tresca

Olá !

Fiquei sabendo da edição especial de aniversário da Jangada Brasil e gostaria de participar com um relato em forma de quadras rimadas.

Sou contadora de histórias, voluntária da Associação Viva e Deixe Viver, e conto histórias no Hospital Cruz Azul, no bairro do Cambuci em São Paulo.

Numa das visitas, encontrei com o personagem principal deste relato.

 

Essa é a história curiosa
de um menino cicatriz
Se apresenta como Dêivid
pois David, nunca se diz.

Novamente no hospital,
esse moleque danado
exibe deitado no leito
um de seus pés, enfaixado.

Foi por causa de uma pipa
que corria pra laçar
lá no morrinho da vila,
que lhe deu maior azar.

Furou o pé num prego
de uma tábua lá no chão
jogada perto do muro
de uma casa em construção

Mas pensa que ele está triste
com essa inflamação no pé?
que nada, pois esse garoto,
tem garra, tem muita fé!

Imaginem só, vocês,
ele faz coleção esquisita:
junta marcas pelo corpo
e mostra pra cada visita

Tem a cicatriz no braço
o queimado na cintura,
o calombo na cabeça,
ele é traquinagem pura!

Cada marca no seu corpo
é a capa de uma história
que ele conta orgulhoso
e que sabe de memória

Quando ia roubar fruta
no quintal de um vizinho
pensou que era herói japonês
quis voar, o maluquinho

Exibe uma marca no braço
levou quinze pontos, coitado
Só porque se enroscou
na cerca de arame farpado

O calombo na cabeça
nos contou que certa vez
capotou no seu carrinho
de rolimã, que ele fez

Brincou com fogo, o moleque
queimou o cabelo e a barriga
mas essa mancha no ombro
é cicatriz mais antiga

Cortou dedo em caco de vidro
quebrou dente pulando muro
fugiu de cachorro bravo
já passou por muito apuro

Porém, com orgulho ele narra
Cada pedacinho seu
marcado por uma aventura
exibido como troféu

Inteiro, em seus doze anos
sorriso farto, olhar cativante
Lê as páginas de seu corpo
Com uma voz triunfante

Esse menino danado
que mal sabe escrever,
aprende tudo na raça
se atira no viver

Narra tudo com graça
esperto como ele só,
aproveita cada instante
vive o presente sem dó.

 

Marilia Tresca
47 anos
São Paulo SP
www.wooz.org.br/contadora/historia.htm