Folclore na vida

Lucia Ramineli

Cresci ouvindo minha mãe cantar calangos, meu pai contar histórias do Pai João, do Coelho e da Onça e do Cabo-cabriola. Minha avó materna, portuguesa de nascimento, contribuía com ditados populares, costumes da “santa terrinha” e uma história (que adoraria recuperar): uma narrativa em quadras que ela intitulava de Véia Bizunga. A trama girava em torno do casamento da filha da Véia Bizunga e começava com os animais dizendo assim: “Véia Bizunga, / casa sua fia/ pru mode nós tê/ um dia de alegria.” A partir daí, a “véia” dizia que sua filha não se casava por não ter dinheiro nem para o vestido de noiva nem para o enxoval. Então, cada animal oferecia alguma ajuda. A aranha, por exemplo, encarregava-se de tecer o véu da noiva – o que inflamava minha imaginação. Eu via a “fia da véia Bizunga” entrando na igreja com uma longuíssima teia de aranha arrastando pelo chão. Lembro-me também de que emprestei à “fia” a figura de uma personagem da revista Tiquinho...

Mas a pessoa que mais me fez amar o que mais tarde soube que era um “tal de folclore” foi meu Tio José, o irmão mais velho de minha mãe. Ele morava numa localidade chamada Tapera, próxima a Trajano de Moraes. Quando íamos até lá, ele me levava a pescar na “represa”. A ele devo essa alegria de aprender a preparar caniço, linha, anzol, a colocar a isca adequada na posição correta, a saber qual peixe gosta mais de quê. Era a década de 1950, e eu, menina, tive a sorte de ter um tio (e uma mãe) que não achavam que pescar era “coisa de menino”.

Quando Tio José vinha a Nova Friburgo (RJ), onde resido até hoje, era uma alegria só. Sempre se fazia acompanhar de sua esposa, Maria, descendente direta de italianos. Também ela era uma fonte de curiosidade e distração para mim, não só pelo sotaque mas principalmente pelo seu jeito desabusado de falar. Tio José sabia cortar, a canivete, carretéis de linha para fazer rodas de carrinhos e “carrapetas” (pequenos piões que rodavam pela fricção dos dedos polegar e indicador). Também sabia um sem-número de anedotas e de adivinhações. Penso que brincar de “o que é, o que é?” muito me auxiliou na formação do pensamento lógico ao qual se chega por um tipo qualquer de desvio. Mais de cinqüenta anos depois, a risada de Tio José – que me soava toda em “é” – ainda ecoa em minha memória. Das suas “adivinhações”, muitas guardei de cor, transmitindo-as às minhas irmãs mais novas, às minhas filhas e aos meus alunos. Duas delas fazem sucesso até hoje, mesmo em ambientes mais intelectualizados. Ei-las: 

– “O que é, o que é? Quatro na lama, quatro na cama e um que abana.”

– “O que é, o que é? Eu estava na minha casa , e vieram me buscar. A casa saiu pela janela, e eu não pude me salvar.”

Tio José divertia-se com as respostas que eu dava, mas sempre analisava por que estavam erradas. Quando ele, dando a sua risada em “é”, dizia as respostas, eu ficava muito chateada: não era tão difícil assim, era tão lógico, por que não tinha acertado? Ele, então, apresentava umas mais simples, daquelas que todo mundo já sabia. E eu me animava de novo, pronta a ser desafiada.

Dentre as pessoas interessantes que povoaram meu mundo de menina pobre, Tio José ocupa um lugar especial, aquele que se reserva para alguém que nos iluminou a vida com sua alegria simples e com sua inteligência desenvolvida nas aulas da vida.

 

Lucia Ramineli
Nova Friburgo RJ

 

Nota: Se você não adivinhou as respostas das adivinhações, aí vão elas: vaca para a primeira e peixe para a segunda. Explicações de Tio José: a vaca tem quatro pés (que ficam na lama, no chão), quatro tetas (que ficam “na cama”, suspensas) e um rabo (que abana); o peixe estava em sua casa (a água) e foi pescado com rede; a casa (água) saiu pela janela (buracos da rede), e o peixe não conseguiu se salvar.