Depoimento

Laerte Vargas

Desde que comecei minha carreira de contador de histórias, elegi o conto popular como matéria prima para a formação do meu repertório.

Num primeiro momento, essa escolha veio por conta da memória afetiva que havia perpetuado em mim os contos ouvidos na infância.

Com o tempo fui percebendo que eles haviam sido eternizados porque fazem parte da matéria-prima que me consolidou. Essas “historinhas” me ajudaram (e muito!) a elaborar o mundo, descobrir que nem todos os finais são felizes para sempre e a criar meu próprio inventário moral.

Quantas e quantas lições esses personagens que habitam o mundo maravilhoso dos contos populares me ensinaram! Aprendi com as bruxas que devemos criar as ferramentas necessárias para o confronto com elas; com as fadas, que é preciso ter a fé de que dias melhores virão e com os contos de animais que devemos cultivar a perseverança, a esperteza, a sabedoria e a lealdade.

Como se tudo isso não bastasse, os contos populares me ensinaram a “ler” o nosso Brasil através das lendas regionais, dos personagens mágicos que povoam rios e lagoas e aguçaram a minha curiosidade sobre cada região do país da qual eles se originam.

Esse imenso caudal de reflexões e ensinamentos pulula por toda parte: na boca das “rezadeiras”, avós e contadores de causo que trazem alegria aos jovens e adultos nas feiras e lugarejos.

E como “quem conta um conto, aumenta um ponto”, cada cidade vai se apropriando das histórias e localizando os personagens nos bairros à sua volta. 

“Naquela casa fechada há mais de dez anos, morou uma moça que, certa noite, conheceu um rapaz num baile”, contam uns.

“Dizem que quem entra naquela mata, nunca mais volta”, acrescentam outros.

Essa convivência tão próxima com seres encantados, moças fadadas, anões serelepes e príncipes encantados mostram a diversidade brasileira e nos dão uma aula sobre cultura popular a céu aberto.

A cada história que conto, investigo sua origem, descubro sabores, cheiros e jeitos de sentir das regiões mais isoladas, pego carona nas asas do Urutau, descubro Chapeuzinhos Vermelhos que andam de sombrinha e aprendo que os santos têm pai e mãe.

Sempre que ouço de um educador a queixa de que a sala de leitura não tem acervo suficiente para a dinamização da leitura, o convido a olhar em volta e aguçar os ouvidos. É só abrir o coração e deixar que as histórias populares entrem e façam parte do seu cotidiano.

Como toda a certeza, elas vão pegar você.

 

Laerte Vargas
Contador de histórias e facilitador de oficinas
Rio de Janeiro RJ
contadoresdehistórias@uol.com.br