O cheirinho do tempero

Karina dos Santos Cabral

O cheirinho do tempero da minha vó, provavelmente, é bem parecido com o cheirinho do tempero da vó dela. E bem parecido com o meu. Isso porque tempero a gente aprende com alguém, não tem jeito. A gente pode até pegar umas dicas em um livro, mas o legal mesmo é aprender a cozinhar com alguém.

Quando a gente ensina alguém a fazer alguma coisa, não está só ensinando aquela coisa, mas também ensinando o nosso jeito de entender, de fazer, de conceber aquela coisa. E isso, de alguma forma, nos torna imortais. Folclore, pra mim, é isso — é aquilo que eu recebi do meu grupo cultural, e que deixo para outros, junto com a minha marca. E nada mais vivo do que esse movimento de receber e deixar; de aprender e de ensinar; de participar e transformar.

Outro dia ninei minha afilhada cantando pra ela sobre o boi da cara preta. Ela dormiu como um anjo, provavelmente como eu dormi também quando era apenas um bebê aprendendo a ser gente e recebendo, da minha família e de todas as outras pessoas, o legado da cultura do meu povo, do meu país. E é esse legado que me faz ser quem eu sou hoje — brasileira, cidadã, conhecedora, feliz e orgulhosa do meu país e da minha gente.

O folclore do meu povo está no meu tempero, mas também nas canções que eu canto pra minha afilhada. Está no xaropinho de mel com agrião que a minha vizinha me ensinou, está na quermesse da esquina, está na bonequinha de pano e na pipa dos moleques brincando na rua em frente à minha casa. Está nas frases prontas do meu avô, está nas trovinhas engraçadas da minha tia, está no bordado da toalha da mesa que está na cozinha, está nas canções regravadas por anos e anos pelos artistas famosos. O folclore está no carnaval que enche os olhos, está no nosso estilo de roupa e até na internet — ainda bem!

O folclore está em mim e em tudo a minha volta. E resiste, bravamente, à massificação, à idéia de que tudo tem que ser igual e sem jeito, ao preconceito e ao descaso. Porque, assim como eu, todo mundo precisa gostar de ser de um grupo cultural. Só assim a gente gosta de ser quem é.

 

Karina dos Santos Cabral
30 anos
São Paulo SP