Cascudo vive*

João da Mata Costa

Cascudo vive no coração e mente de todos aqueles que conseguiram penetrar em seu Universo. De sonhos, crendices, superstições, gestos, arte, ciência e música. Cascudo vive em seus livros. Agora, em boa hora, reeditados por uma grande editora, a Global. Na estante, ao lado dos grandes clássicos da humanidade, a cascudiana tem lugar de destaque. Em cima uma jangada convida a navegar por este universo maravilhoso de nós mesmos, onde o passaporte não é necessário. Da cascudiana vou retirando algumas pérolas garimpadas ao longo de toda uma vida. Algumas precisam de restauro e nova encadernação. E o medo de me separar destas relíquias e desaparecer. Eu não resistiria. No mesmo final de semana, na estante da Gazeta Mercantil vejo o informe da reedição dos Contos tradicionais do Brasil. Uma bela edição que irá se juntar a outras cinco da coleção. Leio no Galo matéria muito boa do amigo Roberto Silva — relembrando uma amizade—, entre dois grandes estudiosos da cultura popular, e que ajudaram a gente a ser mais brasileiro. Sem querer comparar, Almirante — a maior patente do rádio —, construiu um acervo grandioso, vivendo na metrópole e com ajuda das ondas Hertzianas. Através de seus programas educativos e informativos ele, não só transmitia cultura como solicitava dados em todos os cantos do país. Cascudo, vivendo na província, só podia dispor dos livros, amizades e muitas “cartas perguntadeiras”. Construiu uma obra gigantesca e única. Agora vou dormir numa tipóia véia verde num canto de muro ouvindo No tempo de Noel Rosa, transmitido na voz possante do cantor e locutor Almirante. Parece que estou na década de 1950, quando houve um renascimento da obra de Noel. E que beleza: Cascudo lendo oito vezes o delicioso No tempo de Noel Rosa, escrito por Almirante. A cada dia é revelada mais uma nova faceta do musicólogo Cascudo. Toda obra de Cascudo, como toda grande arte e ciência aspira à Música. Antes de dormir olho para uma velha fotografia do Cascudo colocada junto à cascudiana. Sonho colorido com Cascudo . Ele está na sua casa de pijamas verdes e não escuta quase nada. A comunicação não é prejudicada porque ele também nos ensinou que os gestos falam mais que as palavras. A casa estava desarrumada mas transmitia uma grande alegria. Ele me mostra uma aquarela inacabada e me oferta. Eu quase desfaleci de felicidade e agora não sei o que fazer com esta preciosidade. Não sei como preservá-la nem como terminá-la, só sei que não vou deixar descolorir. É assim a obra de um grande escritor. Inacabada e vive para sempre em cada um dos seus leitores. Que belo final de semana. Ao som de uma melodia conhecida: vamos comer, vamos beber, vamos sonhar Cascudo.

 

* O Galo. Natal, ano 13, fevereiro de 2001.

Prof. Dr. João da Mata Costa
Prof. de Física na UFRN, Bibliófilo e estudioso da Cultura Popular
Natal RN