Brincadeiras e socialização de raízes culturais manifestadas desde a idade infantil na escola

Neusa Maria Corrêa de Sousa

Sou professora há trinta anos, e atuo em duas escolas nas redes estadual e municipal, na cidade de Belo Horizonte. Minha trajetória de trabalho vem sendo construída ao longo desta linha de tempo e me é bastante útil na construção do meu conhecimento como professora e pessoa ao mesmo tempo, uma vez que não é possível separar o ser dos seus saberes e aprendizados nos campos cotidianos da educação e da vida.

As experiências de trabalho, as parcerias com as colegas e as trocas de experiências têm pautado o meu dia a dia profissional.

Destaco aqui uma experiência que tem dado certo e que bem ilustra o campo das práticas folclóricas sem as quais penso não haverá cultura histórica e o aprendizado se resumirá na repetição do que for ditado pela mídia e pela indústria do consumismo.

Brincadeiras tomam conta do espaço escolar

Durante todo ano, trabalho com os aspectos culturais e em agosto, mês em que o folclore entra em evidência, dedico um espaço maior e os trabalhos saem da sala de aula para o auditório com mais força. Sempre trabalho os temas gerais e os específicos, passando pelo regionalismo, pelas raízes, pelos costumes e crenças populares que atravessam o tempo, na busca da garantia das tradições às quais mantêm viva a chama cultural do nosso povo.

Nesse trabalho que anualmente proponho e desenvolvo com os meus alunos da quarta série da Escola Estadual Ondina Amaral Brandão, abro um capítulo maior para as brincadeiras populares. Retorno ao meu tempo de infância, longe dos eletrônicos e bem perto do cultural, das brincadeiras de roda, de passar anel, da cabra cega, das amarelinhas, do corre cutia, das bolas de gude, do pegador e de tantas outras que como percebo ainda têm espaço nas comunidades populares, nas vilas e nos bairros menos centrais assim como nas cidades interioranas e em todos os lugares onde a lembrança viva da infância não se apagou nas paisagens de cimento e ferro que nos rodeiam e às vezes nos prendem nos dias atuais.

Procuro saber, como vão as brincadeiras no dia a dia dos meus alunos, pesquisando quais eles conhecem e das quais participam. Sugiro sempre que busquem com seus pais e avós, saberem um pouco da infância lúdica destes e tragam as experiências para dentro da sala de aula. Logo a seguir, divido a classe em grupos e cada grupo se torna responsável por uma brincadeira, à qual dará toda a atenção, no sentido de se tornar um multiplicador desta. A primeira socialização se dá entre os alunos da própria sala, e logo a seguir se estende aos colegas da classe vizinha que é a turma da professora Aparecida de Sales.

O passo seguinte é o da socialização maior, momento ímpar no qual os alunos convidam colegas das outras turmas e com eles vão socializando a brincadeira em questão. Como se trata de uma atividade de grande impacto socializador percebo que se torna uma atividade abrangente que não encerra com o fechamento do mês do folclore tampouco com o término do ano letivo.

O fato desta socialização partir do universo infantil faz com que se torne um elemento vivo que certamente transporá os muros escolares e as datas. A vida fica mais alegre com um número de crianças envolvidas no brincar. É importante lembrarmos também o fato de que estas crianças se tornam multiplicadoras de uma cultura saudável que se faz cada vez mais viva.

 

Neusa Maria Corrêa de Sousa
Professora e Pedagoga
Belo Horizonte MG
Escolas de atuação atual: Escola Estadual Ondina Amaral Brandão e Escola Municipal Fernando Dias Costa