A volta do lobisomem

Duda Guennes

"Agora lhe digo uma coisa: não é qualquer um comedor de farinha que pode lidar com lobisomem, bicho de muita astúcia no atacado e no varejo. Já se deu até o caso de um lobisomem ser coletor federal e outro mestre em letras em Campos de Goitacases..." — Coronel Ponciano de Azeredo Furtado, personagem do romance de José Cândido de Carvalho, O coronel e o lobisomem

 

Dos mitos de transformação, o lobisomem é o mais universal de todos, e o mais antigo também. É o versipélio dos romanos; licantropo dos gregos; loupgarou francês; oboroten russo; hamrammr nórdico; volkodlak eslavo; werewolf saxão; wahwolf germânico; lobisomem (com várias grafias na Península Ibérica e, daqui, para o Novo Continente). O lobisomem existiu, e deve existir ainda, da China antiga aos indígenas norte-americanos.

O mito que prevalece hoje na cultura ocidental surgiu na antiga Grécia, passou por Roma e dali se espalhou para toda a Europa, onde teve seu apogeu na Idade Média, depois de ter sofrido fortes influências do Cristianismo.

Há divergências sobre as razões pelas quais uma pessoa transforma-se em lobo — ou em outro animal. Em Portugal era mais comum a transformação em burro.

Segundo a professora Maria do Rosário de Sousa Tavares de Lima, autora do livro Lobisomem, assombração e realidade, o "animal" enquanto gente costuma ser magro, pálido, ligeiramente orelhudo, ter o nariz arrebitado e um excesso de pêlos no corpo todo. O antebraço e as mãos são cheias de calos, por serem usados como patas quando ele "vira" bicho.

Luís da Câmara Cascudo, no seu Folclore do Brasil, afirma que o mito do lobisomem "origina-se de três justificações vulgares: (a) fruto do incesto; (b) sétimo filho homem; (c) os hipoêmicos, opilados, anêmicos e amarelos, que procuram dessa forma ressarcir a carência sangüínea devorando animais vivos, notadamente leitões e mesmo pessoas. Despem-se, guardam as roupas, escondendo-a, revolvem-se na estrumeira ou chiqueiros de porcos, encruzilhadas, tornando-se um animal de grandes orelhas balouçantes cujo rumor atrai a perseguição dos cães; tamanho de jumento ou bezerro novo, correm sem deter-se, exceto para comer, sete freguesias, na noite de sexta-feira para sábado".

O médico Oribazo, que viveu no tempo do imperador Juliano, descreveu assim os lobisomens: "os atacados desta moléstia saem de casa por alta noite, imitando os movimentos do lobo, e vagueiam pelos cemitérios em volta das sepulturas até o amanhecer. Têm a tez pálida, os olhos encovados e sem brilho, a boca rasgada com os dentes saídos, os beiços grossos e caído o inferior, e muitas vezes em sítios ermos, arrastam-se com as mãos pelos chão".

Juliano foi imperador de 361 a 363 da nossa era, mas antes disso, no tempo de Nero (54-68 aC), Petrônio em Satyricon, conta a história de Niceros, que também se transformava em lobisomem de forma idêntica às já aqui referidas. Baian, rei dos búlgaros no século VII, transformava-se em lobo à vontade e, parece, tinha igualmente o poder de se fazer invisível. Segismundo, imperador da Alemanha nos finais do século XIV, interessou-se pelo problema e convocou os teólogos que estudaram, refletiram e acabaram por declarar que a licantropia não era do domínio da simples imaginação: os lobisomens existiam!

Inofensivos

Também não está muito longe a versão de A. C. Teixeira de Aragão, membro da Academia de Ciências de Lisboa, que no livro Diabruras, santidades & prophecias (1894), afirma que "os lobisomens e asininohomens são inofensivos; andam apenas cumprindo a triste sina, procurando sempre os sítios ermos e pouco alumiados. Quando andam fora do encanto, distinguem-se dos outros homens em terem as orelhas mais compridas, as ventas arrebitadas e escuras, o olhar de soslaio e o hálito fétido. São muito desconfiados, têm a voz débil, difícil e gutural, as falanges dos dedos das mãos, na face dorsal, calejadas, cabelos vastos e emaranhados, de cor ruiva com laivos escuros, que muitos confundem com os restos da água circassiana, e da cova do ladrão cai uma pequena guedelha em caracol".

"Lobisomem — continuo com Aragão —, esta etimologia só é bem cabida quando o homem se transforma em lobo, o que tem sido pouco vulgar no nosso país, que, talvez, por ser quente, o homem se metamorfoseia as mais das vezes em burro, e neste caso deve dizer-se asininohomem. A razão de ser o burro no nosso país o escolhido para estas transformações infernais, não se acha demonstrada filosoficamente", adverte o acadêmico.

A senhora Glória Lajes, atualmente com 77 anos, lembra que no seu tempo de adolescência passado em Oliveira de Azeméis, havia um indivíduo que tinha a fama de se transformar em burro e que certa feita um bando de garotos, saindo em sua perseguição e dando-lhe umas boas bordoadas no lombo, no dia seguinte, já livre do fadário, o homem queixava-se de fortes dores nas costas. É bem que também se afirme que depois da volta, a pessoa não se lembra nada do que se lhe aconteceu durante a transformação.

Câmara Cascudo aponta apenas os três motivos já citados. Mas outros autores vão mais longe, embora todos concordem enquanto a sua origem: na Grécia — como também já foi dito —, quando Zeus castigou Lincoan, rei da Arcádia, por este ter-lhe sacrificado uma criança (serviram a Zeus, que, disfarçado em mortal, se sentara à sua mesa, os membros da criança sacrificada). O castigo, vocês já sabem.

E de Licoan nasceu a palavra licantropia, que, segundo o Dicionário Aurélio, é "uma doença mental em que o enfermo se julga transformado em lobo", e foram muito abundantes na Idade Média.

Nicolas de Barioux, grão-senhor de Apchon, vê chegar Griffoul, um caçador da região que lhe prometera uma peça de caça para essa noite. — Então, pergunta o gentil homem, trazes-me coelhos ou perdizes? Griffoul está desolado, e conta que não conseguiu caçar nada. No entanto, diz, foi atacado por um lobo enorme e defendeu-se num horrível corpo-a-corpo cortando-lhe uma das patas. O animal teria fugido então. — Eis a pata, diz Griffoul. Mas, no seu bolso, é uma mão de mulher que ele encontra, sanguinolenta, com um anel no dedo. Nicolas de Barioux parece ficar petrificado quando a vê. — Deixa-me essa mão e volta a tua casa, diz-lhe. O gentil homem regressa então ao seu castelo e procura Arline, sua esposa. Sentada perto do fogo, diante da grande chaminé, a jovem mulher esconde a mão direita debaixo de um bordado.

Dai-me a vossa mão a beijar! Arline chora violentamente e mostra o seu braço direito, seccionado no punho, dizendo que se cortou inadvertidamente com um machado. — Eis a vossa mão, responde o marido, com o vosso anel. E ela confessa: "perdoai-me, uma vez por semana transformo-me em lobo, esta tarde, é verdade, ataquei Griffoul e foi ele que me cortou a pata". A mulher de Barioux seria queimada viva em Riom, no dia 12 de julho de 1588.

Vários motivos

Há vários motivos para transformar-se em lobisomem: ser o primeiro ou o último de uma série de sete filhos; ser o sétimo filho de um casal que só tenha fêmeas (quando a mãe tem sucessivamente sete filhos machos, só chamando-se o último Manuel escapa de ser lobisomem ou o último filho de um casal, quando todos são do mesmo sexo, deve ter como padrinho um dos irmãos, evitando-se assim que o recém-nascido seja bruxa, se menina, ou lobisomem, sendo rapaz); nascer no dia 12 de dezembro às 24 horas; tocar o sangue de um outro lobisomem ou simplesmente ter herdado o fadário do "pai lobisomem". Pode-se virar lobisomem em qualquer idade, mas as mais propícias são aos sete, 12, 13 e 24 anos. Todos os dias são possíveis para a transformação, menos sábado e domingo, e sempre à meia-noite.

O fadário ou a maldição do lobisomem é percorrer sete cidades na mesma noite e voltar ao ponto de partida antes de cantar o galo. Durante o périplo, o lobisomem uiva e produz barulhos estranhos. Nesta ocasião, as mulheres menstruadas não devem sair de casa. E nem as pessoas que tenham ferimento ou corte no corpo.

Para se livrar do lobisomem, deve-se usar balas untadas com cera de velas bentas ou atirar no mindinho do pé. Normalmente, o lobisomem procurar matar quem lhe terminou o destino, para guardar o segredo comprometedor.

A licantropia à luz do espiritismo

É muito antiga a crença nos lobisomens, arraigada em vários países e introduzida no Brasil pelos portugueses. Daí, o surgimento do termo licantropia (do grego iylos e anthropos, homem), que, literalmente, designa a suposta metamorfose do ser humano em lobo.

Há abundantes referências a esses seres fantásticos e temerosos — os lobisomens — em obras de escritores antigos como Heródoto, Virgílio, Plauto, Ovídio, Santo Agostinho, Petrônio, Pompônio Mela e Varrão.

Com o correr dos tempos, os vocábulos às vezes, sofrem alterações no seu sentido original, quer passando a ter novas acepções, quer adaptando-se ao latu senso exigido pela facilidade de comunicação.

Licantropia, por exemplo — regista a Enciclopédia de ciências ocultas, do Yogi Kharishisnanda, é a "faculdade de que possuem alguns magos negros de sugerir a idéia de que o sujeito sugerido lhe está a ver-se em figura de lobo".

Já na terminologia espírita, licantropia é o fenômeno pelo qual os espíritos "pervertidos no crime" atuam sobre antigos comparsas, encarnados ou desencarnados, fazendo-os assumir atitudes idênticas às de certos animais (definição de Martins Peralva).

O fenômeno de licantropia está estritamente relacionado com o de fascinação e, não raro, com a transfiguração.

O rei Nabucodonosor II, ao que relata o Livro de Daniel, viveu sete anos entre animais e à maneira deles. Estava, certamente, sob o domínio duma atroz obsessão.

Em Nos domínios da mediunidade, ditou André Luis: "Muitos espíritos, pervertidos no crime, abusam dos poderes da inteligência, fazendo pesar tigrina crueldade sobre quantos ainda sintonizam com eles pelos débitos do passado. A semelhantes vampiros devemos muitos casos dolorosos de patologia mental nos manicômios, em que numerosos pacientes, sob intensiva ação hipnótica, imitam costumes, posições e atitudes de animais diversos".

Simples imitação, nesses casos, denunciando fascinação subjetiva ou psicológica. Há, porém, a fascinação objetiva ou orgânica, que provoca anomalias patológicas e deformações somáticas de características animalescas. Casos dessa espécie são mais freqüentes nas chamadas zonas purgatórias de além-túmulo, ocorrendo as deformações diretamente no perispírito do ser incorpóreo.

André Luiz, no seu livro Libertação, descreve uma degradante cena de hipnose no plano espiritual.

— A sentença está lavrada por si mesma! Não passa de uma loba, de uma loba...

"À medida que repetia a afirmação, a qual se procurasse persuadi-la a sentir-se na condição do irracional mencionado, notei que a mulher, profundamente influenciável, modificava a expressão fisionômica. Entortou-se-lhe a boca, a cerviz curvou-se, espontaneamente para a frente, os olhos alteraram-se, dentro das órbitas. Simiesca expressão revestiu-lhe o rosto".

Evidente analogia com o fenômeno de transfiguração, que se opera graças à extraordinária plasticidade do perispírito.

— Está admitido que o espírito pode dar ao seu perispírito todas as aparências — ensina Alan Kardec. — Um outro espírito, combinando os seus fluidos com os dos primeiros, poderá, a essa combinação de perispíritos, imprimir a aparência que lhe é própria, de tal sorte que o corpo real desapareça sob o envoltório flídico exterior, cuja aparência pode variar à vontade do espírito.

Em se tratando de licantropia, o espírito obsessor, ao invés de imprimir a sua própria aparência, serve-se dos recursos de ideoplastia para dar à vítima o aspecto do animal. É que, segundo Bozzano, "o pensamento e a vontade são forças plásticas e organizadoras".

Informações obtidas por via mediúnica dão-nos conta de que podem perdurar, até à reencarnação imediata, os efeitos da licantropia exercida sobre os desencarnados. Daí nascerem crianças com feições que de algum modo lembram certos animais: macaco, tigre, porco, lobo etc.

Vale, a propósito, assinalar que, de há muito, a frenologia, criada pelo alemão Franz Joseph Gall, se propunha a demonstrar que a conformação do crânio indica o caráter e a capacidade intelectual dos homens.

Atualmente fala-se na psicognomia, palavra cunhada pelo professor Victor Bouts, ex-ministro da Educação da Bélgica. Trata-se de um ciência que ao mesmo tempo é arte de identificar os atributos da alma e da estrutura psicológica de um indivíduo, diagnosticando a sua constituição íntima e total, por meio do estudo crânio-facial.

A licantropia, como se vê, é um processo obsessivo que pode ultrapassar as fronteiras de dois mundos, consoante as exigências da Lei de Ação e Reação, e segundo o ponto de vista dos kardecistas.

 

Duda Guennes
69 anos
Jornalista
Lisboa, Portugal