Setembro 2006 - Ano IX - nº 94
A primeira vez que me deitei numa rede foi na sala do sobrado onde moravam Santinha e Propércio, meus tios, em Santo Amaro, no Recôncavo Baiano, isso quanto eu tinha aproximadamente oito ou dez anos de idade. Eu e minha prima ficávamos brincando de balançar, tomando impulsão na parede como auxílio dos pés e das mãos. Vez por outra, desequilibrávamos e caíamos sobre o assoalho. Mas minha mãe conta, que quando grávida de mim, levou uma grande queda de rede na chácara de meu tio Elias, na Pedra*, a qual lhe causou, além do susto e da dor, um enorme receio de ter o parto comprometido.
Não sei se por causa disso eu nunca me acostumei a dormir em rede. No Maranhão e no Pará, estados em que trabalhei inspecionando propriedades rurais durante um bom tempo, minha maior dificuldade de adaptação foi justamente passar a noite em uma rede, utensílio comum a quase todas as casas onde nos hospedávamos e preferido pelos viajantes em função de sua praticidade em se deixar conduzir: ocupação de pouco espaço, leveza, adequação ao clima quente... Confesso que ficava com inveja dos meus colegas de trabalho, em sua grande maioria, nordestinos do Ceará, da Paraíba, de Pernambuco e do próprio estado do Maranhão. Eles, mal se deitavam, já estavam ressonando e somente acordavam na manhã do outro dia; ao contrário de mim, que após tentar dormir, por muito tempo, em cama de campanha, terminei me rendendo à rede, na qual apenas “passava as noites”, quando pernoitava no campo. A rede nessas regiões citadas e também nos estados do Pará e no atual Tocantins, não era só preferida pelos moradores da roça, não. Muita gente da capital e das cidades as preferiam ao invés da cama.
Embora não me desse bem dormindo nela, a utilizava para descansar, sobretudo após o almoço, quando ficávamos batendo papo ora com os colegas; ora com os trabalhadores e proprietários rurais. Adorava o cheiro da rede recém-lavada além de sua beleza estendida nas varandas e nos quartos. Os madeireiros a utilizavam em seus acampamentos itinerantes, assim como os trabalhadores da roça, tudo isso em função de sua praticidade. Até o caçador a utilizava no alto das árvores, na caçada de espera, enquanto aguardava a chegada do bicho, que vinha,à noite, comer os frutos caídos, justamente dos paus no qual estava instalado (trepeiro, mutá).
Os maranhenses conhecem a fundo a técnica de utilização da rede. Além de conhecerem todas as suas partes: o punho, a varanda ... ainda sabem alguns truques relacionados à sua armação. Se os pontos de sustentação ficarem muito próximos um do outro e a rede, ao ser armada, ficar baixa, muito perto do chão, eles aplicam uma “boca de lobo”, quer dizer, um nó que diminuí seu tamanho através dos punhos. No tocante à superstição, basta alguém estar deitado em uma rede com os punhos torcidos, para uma pessoa lhe avisar: “...destorça o punho de sua rede, fulano”! Economicamente a rede é uma das fontes de renda tanto das mulheres que as confeccionam, em casa, nos teares manual; quando das indústrias e dos vendedores ambulantes, que andam de cidade em cidade mercando ininterrupta e obstinadamente: “...quer comprar rede, freguesa?!...
* Pedra – Povoado distrito do município de Santo Amaro da Purificação, Bahia.
Desenho de Percy Lau