Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Sumário
A bênção, mãe!, por Tania Meira Farias
Brincadeiras e socialização de raízes culturais manifestadas desde a idade infantil na escola, por Neusa Maria Corrêa de Sousa
A caixa da folia, por Rogério Duarte
Canto a Dom Luís, por João da Mata Costa
Cascudo vive, por João da Mata Costa
A Chapada do Araripe ou A história do caçador que levou uma pisa da mula-sem-cabeça, da caipora e do lobisomem, por Cacá Araújo
O cheirinho do tempero, por Karina dos Santos Cabral
Os contos populares e o contador de histórias, por Laerte Vargas
Escolas de Samba, por Nilton Barbosa Filho
Falares típicos da Ilha de Santa Catarina, por Marcelo Calazans Ribeiro
Folclore bauruense: O folclore nosso do dia-a-dia, por Luiz Viola
Folclore e educação, por Eduardo Alves
O folclore é meu dia-a-dia, por Rosangela Danoel Rissato
Folclore na vida, por Lucia Ramineli 
O folclore nosso do dia-a-dia, por Thelma Regina Siqueira Linhares
Folclore, o imaginário popular do sertão, por Ronaldo Torres
Folias de Reis, por Ligia Lima Carlucio
Juca do Balaio, por Valeska Andrade Sampaio
A lenda do monte Mochuara, por Fabrisa Leite Barros da Silva
Lendas da natureza: espetáculo teatral, por Ana Luísa Lacombe
Menino-Cicatriz, por Marilia Tresca
Mestre Juca do Balaio, um artista cearense, um cidadão brasileiro, por Calé Alencar
A mula-sem-cabeça, por Rita Maria Catalão
Na magia do folclore, espetáculo teatral em homenagem a Luís da Câmara Cascudo, por Beth Araujo
Nossos carnavais!, por Luciana Celestino dos Santos
Pesquisa sobre tradição oral e contos populares, por Patrícia Alves de Sousa
Para que rezar?, por Enio Squassoni
“Preta Vilma” morreu, por Marina Berthet
Puxincói: A saga dos concursados para professor do estado do Ceará, por Cacá Araújo
Rede, a cama da terra, por Antônio Vieira
Rola literária, por Cacá Araújo
Saudades de ViVi, por João Da Mata
Soneto Curupira e Soneto Saci-pererê, por Lucas Carrasco
O vale encantado, por Vera Lucia Dias
A volta do lobisomem, por Duda Guennes
Vovô Papadinha da minha infância, por Márcia Maria Machado Nunes

 

 

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Setembro 2006 - Ano IX - nº 94

Edição Especial: O folclore nosso do dia a dia

O cheirinho do tempero

Karina dos Santos Cabral

O cheirinho do tempero da minha vó, provavelmente, é bem parecido com o cheirinho do tempero da vó dela. E bem parecido com o meu. Isso porque tempero a gente aprende com alguém, não tem jeito. A gente pode até pegar umas dicas em um livro, mas o legal mesmo é aprender a cozinhar com alguém.

Quando a gente ensina alguém a fazer alguma coisa, não está só ensinando aquela coisa, mas também ensinando o nosso jeito de entender, de fazer, de conceber aquela coisa. E isso, de alguma forma, nos torna imortais. Folclore, pra mim, é isso — é aquilo que eu recebi do meu grupo cultural, e que deixo para outros, junto com a minha marca. E nada mais vivo do que esse movimento de receber e deixar; de aprender e de ensinar; de participar e transformar.

Outro dia ninei minha afilhada cantando pra ela sobre o boi da cara preta. Ela dormiu como um anjo, provavelmente como eu dormi também quando era apenas um bebê aprendendo a ser gente e recebendo, da minha família e de todas as outras pessoas, o legado da cultura do meu povo, do meu país. E é esse legado que me faz ser quem eu sou hoje — brasileira, cidadã, conhecedora, feliz e orgulhosa do meu país e da minha gente.

O folclore do meu povo está no meu tempero, mas também nas canções que eu canto pra minha afilhada. Está no xaropinho de mel com agrião que a minha vizinha me ensinou, está na quermesse da esquina, está na bonequinha de pano e na pipa dos moleques brincando na rua em frente à minha casa. Está nas frases prontas do meu avô, está nas trovinhas engraçadas da minha tia, está no bordado da toalha da mesa que está na cozinha, está nas canções regravadas por anos e anos pelos artistas famosos. O folclore está no carnaval que enche os olhos, está no nosso estilo de roupa e até na internet — ainda bem!

O folclore está em mim e em tudo a minha volta. E resiste, bravamente, à massificação, à idéia de que tudo tem que ser igual e sem jeito, ao preconceito e ao descaso. Porque, assim como eu, todo mundo precisa gostar de ser de um grupo cultural. Só assim a gente gosta de ser quem é.

 

Karina dos Santos Cabral
30 anos
São Paulo SP

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