Os três irmãos

Saul Martins

Um enviado de Jeová desceu em sonho a um seu servo fidelíssimo e disse-lhe:

— Que queres tu?

E o pobre homem respondeu:

— Seja feita a vontade do Senhor ao seu humilde servo. Dá-me três filhos varões, pois minha mulher é estéril e me enche de amargura a mim.

E retirando-se, disse-lhe o anjo:

— Seja feita a vontade do meu Senhor, pois Ele te ouviu a ti. E tua esposa conceberá a semente do teu desejo.

E a mulher pariu três filhos, possuídos de condões distintos.

Salomão, chamava-se o mais velho; Absalão, o caçula; e o do meio Sansão.

Tinha Salomão o poder da ciência das coisas. Era o mais sábio dos homens.

Absalão ganhara formosura, o mais belo jovem de Israel.

Possuía incomensurável força Sansão, o mais forte varão da terra. Nem o marruá bravio resistia nos seus férreos punhos.

Era tão sábio o primeiro que, certa vez, pretendeu recompor-se feito em pedaços. Com este fim deu ordens a seus escravos que o espostejassem e, em seguida, fechassem todas as suas postas numa urna, recomendando-lhes que só abrissem esta findo o prazo que determinou. Os servos obedeceram, mas de alguns segundos abreviaram a abertura da urna, precisamente quando o grande sábio punha no lugar o coração.

E assim morreu.

Vivia às escondidas Absalão, ou às carreiras quando as contingências o obrigassem a largar os desvãos de voluntário recolhimento e mostrar-se, pois as mulheres que lhe levassem os olhos por ele se apaixonavam loucamente. Certa vez ele se encapuçou e dirigiu-se à igreja para rezar. Aconteceu, porém, que não tardaram a descobrir o belo mancebo, que morreu de abraços e safanões.

Era tão forte o terceiro, que sozinho lutava contra um exército e o vencia em dois tempos. Em razão disto ganhou milhares de inimigos, que lhe não davam folga, mas que o não venciam. Concertaram, então, descobrir a razão de tamanha força, para cujo fim contrataram uma mulher a seduzir Sansão e descobrir-lhe o segredo. Após ganhar sua confiança, a mulher indagou a ele se um meio havia de o enfraquecer, ao que lhe respondeu Sansão afirmativamente, explicando-lhe que bastava atar-lhe os punhos com folhas de cebola. Desincumbindo-se da tarefa, amarrou-lhe os punhos a mulher, debalde, com um troço de folhas de cebola. Sansão livrou-se da peia afastando os braços, naturalmente, como se nada lhe obstasse o movimento. E insistindo a mulher em conhecer-lhe a arcana força disse-lhe Sansão que se o raspassem a cabeça o tornariam igual aos outros. E sim o fez a mulher. Aproveitando o sono do gigante, tosquiu-o inutilmente, pois Sansão permaneceu forte, e a cada experiência malograda ria por ter enganado a ela.

No entretanto, não se deu por vencida a mulher. Queixou-se muito e pediu e suplicou, e lágrimas verteu, e afinal ouviu:

— Sim, disse-lhe Sansão, minha força reside nos três fios de cabelos que possuo no umbigo, tão compridos que os amarro entre, aí após três voltas na cintura.

E ao outro dia, acordou Sansão a ponta de lanças, rodeando pela farândula do ódio e perseguição. Despido dos três longos fios de cabelo, facilmente o anovelaram de cordas, como o conduziram à masmorra.

E dias e dias se passavam.

Sansão, entregue a trabalhos forçados. Seus inimigos discutindo o meio de vingança, o suplício que mais acalorasse a geleira de suas almas.

Enquanto se sucediam as sinagogas dos ímpios, entorpecidos de maldade, do umbigo de Sansão se distanciavam as pontas do cabelo.

E passaram meses.

Um dia sentiu o gigante renascer-lhe a força. Parte as algemas e ruma para a igreja, onde milhares de pagãos deliberavam sobre sua vida. E, em lá chegando, irado Sansão apóia os ombros na parede do templo, à entrada da porta e grita:

— Morra Sansão e todos que aqui estão!

Disse e agiu. Firmou os pés no solo e derreou o corpo e forçou a pilastra. As paredes se fenderam, estalaram as vigas, e ruiu o edifício com estrondo horríssono.

E morreram todos.

Nota: Liames comuns? Há-os com certeza. Averba a Bíblia que Deus deu a Salomão muitíssimo entendimento. Em todo Israel não havia homem tão belo e tão aprazível como Absalão, desde a planta do pé até a cabeça não havia nele defeito algum. Sansão, o dâmita predestinado a salvar sua grel, possuía extraordinária força, tendo lutado heroicamente contra os filisteus; preso, cego, exposto a chacota dos pagãos, forçou as colunas do templo de Dagon, fazendo-o ruir sobre si mesmos e seus algozes. Os três não eram irmãos. Eram-no, todavia, Salomão e Absalão, ambos dois filhos de Davi. Por influência religiosa chamam de igreja um templo pagão. E, no mais, afasta-se o populário da realidade bíblica, disjunção que apanha o fato no ângulo do folclore.

 

(Martins, Saul. "Os três irmãos". Diário de Minas. Belo Horizonte, 04 de janeiro de 1953)