O rei e o sapateiro

Figueiredo Pimentel

Um rei muito bom, dotado de excelente coração, costumava sair sozinho e disfarçado, pelas ruas da cidade, a fim de poder bem apreciar as necessidades do seu povo.

Uma vez, ao passar por uma rua, ouviu alguém cantando:

Ribeiros correm pro rio
Os rios correm pro mar
Quem nasceu para ser pobre
Não lhe vale o trabalhar

O rei parou, observou a casa, e indagou quem nela residia. Era um pobre sapateiro, honesto e trabalhador, cheio de filhos, que vivia na maior miséria possível.

Sua majestade tomou nota do número e da rua.

No dia seguinte mandou preparar pelo seu cozinheiro um saboroso bolo, que encheu de moedas de ouro e fez levá-lo ao sapateiro.

Na outra tarde, passando pela mesma rua, escutou a mesma cantiga:

Ribeiros correm pro rio
Os rios correm pro mar
Quem nasceu para ser pobre
Não lhe vale o trabalhar

O rei entrou e gritou para o sapateiro:

— Esta cantiga é mentirosa, ou tu não dizes o que pensas! Onde está o bolo que te mandei ontem cheio de moedas?

— Oh! real senhor, eu não sabia! Devendo muitos favores a um amigo, enviei-lhe de presente.

Então o rei fê-lo acompanhar ao palácio. Aí, mandou-o encher um saco de ouro, e despediu-o.

O sapateiro voltava alegremente para a casa, quando de súbito caiu morto, fulminado pela comoção.

Transportaram-no para o necrotério, e acharam-lhe um papel na mão.

O delegado de polícia abriu-o e leu:

Eu, para pobre o criei
Tu rico fazê-lo queres
Agora aí o tens morto
Dá-lhe a vida, se puderes

 

Ver também: O avarento João de Velós

 

(Pimentel, Figueiredo. Histórias da baratinha. Rio de Janeiro; Belo Horizonte, Livraria Garnier, 1994, p.109-110. (Biblioteca de Autores Célebres da Literatura Infantil, 2))