O Noé dos majongongs

Contam que Nuá, um dia, começou a construir uma barca muito grande. E avisou animais e homens que ia chover muito e todos iam morrer afogados. Ninguém acreditou e ele continuou construindo a grande barca. Quando esta ficou pronta, pôs dentro dela todos os animais e plantou muitas árvores de frutas. Depois de tudo pronto Nuá disse às gentes que todos se transformariam em peixes, cobras d'águas e tartarugas. E as gentes majongong, macuxi, taulipangue, capigxana, sapará, uaíumara, macu e outras acabaram acreditando e se puseram a salvo, por isso, continuaram sendo gente. Mas os outros se transformaram em animais aquáticos porque logo começou a vir muita água do Roraima e inundou tudo. Gentes que para fugir da água subiram em árvores, se transformaram em formigas tocandiras e em borboletas, outros em guaribas, macacos, aves etc...

O tamanduá, que nesse tempo ainda era gente não queria se transformar em cutia, paca, anta, porque são bichos caçados e comidos e por isso virou tamanduá bicho que os outros e nem os homens comem. Outros homens astuciosos, se transformaram em jaguar, raposa, jabuti. Logo depois, a terra ficou coberta de água, tudo inundado e veio a noite. O sol não apareceu por muito, muito tempo.

Depois de muito tempo, Nuá disse às aves e a certos animais:

— Quando amanhecer, vocês devem se pôr a cantar.

Daí em diante o acutipuru pegava uma frutinha de cima das árvores e atirava-a à água, para ver se esta diminuía. Enquanto ela fazia "ping", era que tinha muita água. Quando fez "pong", era que tinha pouca água e quando fez "pau", ele viu que a fruta caíra na terra.

E então, começou a cantoria. Primeiro cantou o macaco urrador, depois o galo, o mutum e todas as aves que cantam pela madrugada. Nasceu o dia. Uma pomba saiu, encontrou peixes mortos, comeu-os e foi assim que virou urubu, com cheiro mau. Ficou preta porque se sujou na lama. Depois foram o gavião, o carcará, a garça — todas as aves que até hoje gostam de viver na água, no brejo e comer peixes. Depois o cervo, que, naquele tempo ainda tinha muita carne das canelas e assim ele ficou com as pernas e os braços fininhos, sem carne. Depois a terra secou bem e Nuá disse aos animais que podiam sair da barca e recomendou-lhes que nunca tivessem medo dos homens. Mas o macaco, que já era sabido, recomendou:

— Não façam isso! Fujam sempre do homem!

Os bichos seguiram o conselho do macaco e por isso, os homens ficaram seus inimigos até hoje.

 

(J. B. M. "O Noé dos Majongongs". Folha do Norte. Belém, 07 de agosto de 1960)