Dois contos etiológicos do folclore

Guilherme Santos Neves

"A expressão conto etiológico — escreve João Ribeiro — é técnica entre os folcloristas; quer dizer que o conto foi sugerido e inventado para explicar e dar a razão de ser de um aspecto, propriedade, caráter de qualquer ente natural. Assim há contos para explicar o pescoço longo da girafa, o porque da cauda dos macacos"... (Folclore. Rio de Janeiro, 1919, página 20).

Câmara Cascudo — outro mestre do nosso folclore — em seus Contos tradicionais do Brasil (2ª ed., Livraria Progresso, Salvador, 1955), inclui entre as doze seções em que divide e registra os contos que colecionou — os contos etiológicos — neste grupo incluindo Porque o negro é preto, A causa das secas no Ceará, o Cantador de modinhas (porque são inimigos o cão e gato) e outro com o título Porque o cachorro é inimigo do gato e gato de rato, A festa no céu (para explicar o casco remendado do sapo), A goela e o rabo da baleia e o nosso conhecido Maracapeba, o peixe da boca torta.

Também Lindolfo Gomes — sem fazer essa distinção — incluiu no seu livro Contos populares (Companhia Melhoramentos, São Paulo) alguns contos etiológicos, tais como: Porque os galos cantam de madrugada, A lenda das miosótis, Porque as mulheres catam pulgas etc.

Vou contar aqui mais dois desses contos populares, recolhidos ambos da tradição oral capixaba.

O primeiro que me foi contado por Maria da Penha Rodrigues (23-25 anos, natural de Campo Grande, Cariacica), explica a razão por que são rajadas de vermelhos as folhas de São Sebastião:

Diz-se que de uma feita, os judeus perseguiam a São Sebastião para prendê e matá o pobre do santo. Procurou ele então, se escondê numa moita de mato, mas os judeus descobriram o esconderijo e deram em São Sebastião várias lançadas. Muitas delas cortaram também as folhas que escondiam o santo e o sangue de São Sebastião, caindo nas folhas, fez com que elas, daí por diante e pra sempre, ficassem com as manchas vermelhas como sangue.

Até certo ponto, este conto capixaba faz lembrar a lenda das miosótis, referida por Lindolfo Gomes (op. cit.):

 "Era uma vez Nossa Senhora, que ia em procura de Jesus, seu amado filho, quando, ao passar por um formoso campo atapetado de lindas florinhas muito brancas, se deixou a contemplá-las com tal ternura que de seus olhos da cor do céu caíram lágrimas de saudade de seu filho. As lágrimas da Virgem banharam as pétalas daquelas encantadoras florinhas que, desde aquele instante, tomaram a cor dos olhos de Maria e azuis ficaram por toda a vida".

O outro conto capixaba me foi recitado por Dalmácia Ferreira Nunes (doméstica, 56 anos, natural de Caçaroca) que o ouviu quando menina à mamãe dela.

Diz assim o conto etiológico:

Um dia a mãe da formiga mandioca disse pra filha: Minha filha, vá até a mata, corte um feixe de lenha, encha um pote com água e traga pra casa. Eu hoje estou muito ocupada e doente e não posso fazê isto.

A filha então respondeu: — Ah, mamãe eu também não posso, pois tenho de cortá folha à noite inteirinha.

— Destá, minha filha. Há de permitir Nossa Senhora, que você, de hoje em diante, corte sempre, dia e noite, sem pará...

Nisto, ia passando por ali a cigarra e a mãe da formiga lhe fez o mesmo pedido. A cigarra respondeu: — Ah, dona formiga, eu não posso. Hoje vou cantá a noite inteira.

Então a formiga lhe rogou a praga: — Há de permitir Nossa Senhora que você viva sempre a cantá, até rebentá pelas costas.

Foi quando passou a abelha, e a velha formiga lhe pediu a mesma coisa.

A abelha prontamente foi no mato cortou o feixe de lenha, trouxe até a casa da formiga, apanhou água, ajudou a fazê fogo, limpá e arrumá a casa e a mesa. Depois quando já ia embora, a mãe-formiga lhe disse agradecida:

— Há de permitir Nossa Senhora, que o mel que você fabrica seja sempre doce e bençoado e sirva de remédio pra curá doentes pobres.

Nossa Senhora ouviu os desejos da velha formiga e atendeu todos eles.

Por isso é que a formiga mandioca não pára de cortá folha, dia e noite, a cigarra canta até rebentá pelas costas, e o mel da abelha é o santo remédio dos pobres.

 

Ver também: O segredo da abelha

 

(Neves, Guilherme Santos. "Dois contos etiológicos do folclore". A Gazeta. Vitória, 01 de junho de 1958)