Apresentação
"Ao lado da literatura, do pensamento intelectual letrado, correm as
águas paralelas, solitárias e poderosas, da memória e da imaginação
popular. O conto é um vértice de ângulo dessa memória e dessa imaginação."
(Luís da Câmara Cascudo*)
É impossível precisar quando surgiu o primeiro conto popular. Os registros escritos mais antigos datam de cerca de 3200 A.C. Mas muito antes disso, o homem já contava.
Acredita-se que, no começo, o homem falava de seus acontecimentos cotidianos. Ao mesmo tempo, observava os fenômenos naturais, o ambiente em que vivia e perguntava-se sobre suas origens e seu papel no universo. Criava suas próprias respostas, muitas vezes recorrendo à imaginação para explicar aquilo que sua razão não podia compreender. Suas interpretações, então, adquiriam voz em forma de narrativas. E o homem contava suas histórias para os outros homens, que as ouviam e reinterpretavam, muitas vezes adaptando-as à sua realidade, transformando-as. E as contavam a outros homens. O ciclo se repetia e as histórias espalhavam-se por toda a parte.
Fruto da oralidade e do espírito inventivo. Criado, narrado e ouvido pelo povo. Transmitido de gerações a gerações. O conto popular é testemunha de usos, costumes, idéias, práticas, saberes, decisões e julgamentos. Carrega em si informações históricas, antropológicas, sociológicas, lingüísticas e psicológicas, despertando o interesse de todas as ciências humanas.
Porém, mais do que somente objeto de estudo, as histórias populares encantam, divertem, fazem sonhar, pensar, refletir. Aguçam a imaginação, trazem recordações, despertam a curiosidade e motivam a criação. São vivas.
Esperamos que os leitores se divirtam com os vinte e oito contos da tradição oral brasileira selecionados para esta edição especial:
A formiguinha e a neve, um conto acumulativo, colhido no Rio de Janeiro.
Facécias, patranhas ou anedotas têm por característica o humorismo e as situações imprevistas, morais e/ou materiais. A gulosa disfarçada, Adivinha, adivinhão, Discussão por acenos e Amansando a mulher foram registradas por Luís da Câmara Cascudo; A mulher do piolho, contada por Hildegardes Viana.
Como apareceu a noite, O Noé dos majongongs e A velha gulosa, três contos da tradição indígena.
Ideti — A menina preta que buscava a Deus, um conto de origem nagô.Trezentas onças, conto gauchesco, por João Simões Lopes Neto.
O conto etiológico explica ou dá razão de ser a um determinado aspecto, propriedade ou caráter da natureza. Destes, são representantes O princípio do mundo, O segredo da abelha e Dois contos etiológicos do folclore: Porque são rajadas de vermelho as folhas de São Sebastião e Porque a formiga mandioca corta folha dia e noite, a cigarra canta até arrebentar pelas costas e o mel da abelha é o santo remédio dos pobres, por Guilherme Santos Neves.Histórias de assombrações: bruxas, por Franklin Cascais.
A fábula O maguari e o beija-flor conta como quem corre depressa, cansa.
Cínico, burlão, astucioso, sem escrúpulos e sem remorsos, Pedro Malasartes (Malazartes, Malazarte, Malasarte, Urdemales) é figura tradicional do folclore de origem ibérica. Vida e morte do Malazarte, contada por Ruth Guimarães.
Dois contos de burla, colhidos por Levi Braga: História da grande carneirada e História da infância da vida.
Das histórias da avozinha, contadas por Figueiredo Pimentel: Espertezas de Bertoldo e O rei e o sapateiro, com a variante O avarento João de Velós, contada por Gustavo Barroso.
História de João Grilo, o esperto personagem popular do folclore nordestino.Os três irmãos, versão popular para a história dos personagens religiosos: Salomão, Absalão e Sansão.
Dois contos de encantamento: O rapaz e o reino distante , por Hermógenes Lima Fonseca, e O rei Andrada, por Sílvio Romero.
Getúlio César conta a história O soldado e o rei, sobre um monarca que se disfarçava de pobre para percorrer os cantos de seu reino.
Em Refêrencias bibliográficas estão indicadas obras fundamentais para o estudo do conto popular no Brasil.
E mais de 150 contos publicados nas edições anteriores para ler e reler.
* Contos tradicionais do Brasil. Belo Horizonte, Editora Itatiaia / São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 1986. Reconquista do Brasil, 2ª série, 96, p.15

