Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...

Hortaliças

Carlos Augusto Taunay

[Carlos Augusto Taunay, em seu Manual do agricultor brasileiro, de 1839, indica as seguintes hortaliças para cultivo no Brasil.]

Primeira divisão
Plantas cujos grelos, folhas, ou nervos delas e flores se comem

Armoles (Arroche des jardins, bonne damé / Artiplex hortensis L. / Polygamia Monoecia), da família das quenopodiáceas. Cultura vulgar.

Asparágo (Aspergé / Asparagus officinalis L. / Hexandria Monogynia), da família das asparagoídeas. Cultura difícil na Europa, e colheita no fim de três anos; no Brasil dão em seis meses, plantadas em massapé ou terreno bem estercado, havendo cuidado de carregar nova terra em cima dos pés no fim de cada colheita; nascem de sementes e de estacas de raízes que se podem transportar longe.

Basela (Basellé / Basella L. / Pentandria Trigynia), da família das quenopodiáceas. Cultura vulgar; a planta, como treapadeira, carece de tutor.

Alcachofa (Artichaut / Cynara scolymus L. / Syngenesia Polygamia igual), da família das sinantéreas. Terreno fofo e untuoso, dá-se bem do clima da serra dos Órgãos; na beira-mar, sombra e freqüentes transplantações.

Couve (Chou / Brassica oleracea L. / Tetradynamia Siliquosa), da família das crucíferas. Este gênero contém imensas variedades, cujos nomes vêm com as sementes, a cultura e vulgar; terreno fofo e bem estercado, as espécies repolhudas dão-se melhor na serra; porém, um bocadinho de cuidado as obtém da beira-mar; as mais notáveis espécies de couves, além das vulgares, são as de Milão, Strasburgo, couve-vermelha, couve-nabo, couve-rabanete, couve-brócolis, couve-flor. A este último pertence a observação que fizemos a respeito às alcachofas.

Outras muitas subdivisões de couves pertencem àquelas que nomeamos; mas só casualmente a semente vem de fora e ainda as não podemos considerar como naturalizadas.

Agrião (Cresson / Sisymbrium nasturtium L / Tetradynamia Siliquosa), da família das crucíferas. Terrenos alagadiços.

Salsa (Persil / Apium petroselinum L. / Pentandria Digynia), da família das umbelíferas. Cultura vulgar.

Ápio (Celeri / Apium graveolens L.), dito.

Cerefólio (Cerfeuil / Chicorium intybus L. / Syngenesia Polygamia igual), da família das sinantéreas. Distingue-se a silvestre e a cultivada, e desta contam-se várias sortes; cultura vulgar. Quando a planta for de bom tamanho é preciso ligar as folhas em feixe quatro ou cinco dias antes de as colher, para que as do centro fiquem mais tenras e mais alvas.

Alface (Laitue / Lactuca L.), dito. Hortaliça indispensável para salada, e da qual existem imensas variedades. As repolhudas devem ser preferidas; as de folhas compridas ou romanas são também de muita estimação; as folhas se amarram na época da madurez como as da chicória. Cultura vulgar; muito esterco e muita água.

Mostarda (Moutarde / Sinapis L. / Tetradinamia Siliquosa), da família das crucíferas. Cultura vulgar.

Azeda (Oseille / Rumex L. / Hexandria Trigynia), da família das poligonáceas. Cultura vulgar, muito agradável e sadia.

Pimpinela (Pimprenelle / Poterium sanguisorba L. / Tetranandria Trigynia), da família das rosáceas. Cultura vulgar.

Capucha ou Frigideira-de-rabo (Capucine / Tropaeolum L. / Octandria Monogynia), gênero particular. Cultura vulgar, flor linda que se come na salada; os bagos se conservam em vinagre.

Espinafre (Épinard / Spinacia oleracea L. / Dioecia Pentandria), da família das quenopodiáceas. Cultura vulgar.

Ruibarbo (Rhubarbe / Rheum L. / Enneandria Trigynia), da família das poligonáceas. Cultura que data de dez ou doze anos na Europa, e que merece ser introduzida no Brasil; os nervos das folhas se comem.

Borragem (Bourrage / Borago officinalis L. / Pentandria Monogynia), da família das boragináceas.

 

Segunda divisão
Plantas cujos frutos, sementes ou raízes são comestíves

Abóbora (Citrouille ou Courge potiron); Pepino (Conconbre); Melancia (Pastèque); Abóbora-de-água (Cucurbita ceratocreas), ver acima [sic]. Da cultura das abóboras, pepinos, melancias e maxixes já falamos. A horticultura apodera-se das espécies mais finas, e, pela abundância de esterco, obtém resultados mais avultados e de qualidade superior.

Melão (Melon / Cucumis melo L. / Monoecia Syngenesia), da família das cucurbitáceas. A cultura desta jamais assaz gabada fruta pede na Europa Setentrional imensos trabalhos para chegar à sua perfeição, enquanto noBrasil ela dá, por assim dizer, espontaneamente, mormente nas coroas que os rios do Norte cobrem durante as enchentes como o São Francisco, Parnaíba e outros muitos, aonde, com o único trabalho de arranhar aterra para depositar semente, se criam melões que chegam a pesar duas arrobas. Nas hortas do Rio de Janeiro, e nas de toda a beira-mar, a lagarta de um inseto da família das falenas (espécie de mariposas) multiplica os trabalhos do hortelão a ponto de o desesperar, quando estes bichos, por assim dizer, brotam debaixo da mão do perseguidor; eles, não contentes de devorarem as folhas, lançam-se aos frutos inda tenrinhos e, furando-os até ao centro, escondem-se nesta habitação cômoda aonde acham abrigo e fartura, chupando toda a substância destinada a sazonar o melãozinho, e deixando-lhe em paga a sua imundícia.

A destruição de um inimigo tão pequeno como temível pede visitas de madrugada e de tarde, e assim mesmo não há nunca certeza que o coração do maior e mais belo de todos os filhos do melonal, cujo aspecto enleva a vista e torna a boca salivosa, pela antecipação da futura saborosíssima sensação, não receberá um monstro hediondo que torna em azedume e podridão a mesma ambrosia digna do paladar dos deuses.

Não conhecemos outro meio para afugentar um inimigo tão encarniçado, do que esta incansável vigia, e o uso da decocção das folhas de fumo para regar, bem como o emprego das folhas verdes do mesmo para asentar jovens frutos, os quais devem ser sempre levantados do chão sobre tijolos, ou outro qualquer sustentáculo; as mesmas folhas servem igualmente para os guardar do maior furor do sol do estio.

À proporção que as covas do melão forem maiores e mais bem guarnecidas de excelente esterco, eles darão frutos maiores e mais bem sazonados. Uma terça parte de areia do mar, ou de lama de mangal misturada com o esterco, exalta muito o aroma dos melões; enfim, é preciso podar com as unhas os pés quando tiverem palmo e meio do comprimento, e sucessivamente os braços à proporção que se desenvolverem, e para ter melões de notável grandeza não deixar em cada pé mais de quatro ou cinco frutos.

Tomate (Tomate  ou pomme d'amour / Lycopersicum / Pentandria Monogynia), da família das solanáceas. Já falamos deste vegetal tão bem aceito e tão vulgar entre nós.

Pimenta (Piment). Capiscum dito.

Berinjela (Melongène ou Aubergine / Solanum esculentum), dito.

Morango (Fraisier / Fragaria vesca L / Icosandria Polygynia), da família das rosáceas. Eis uma das conquistas da nova agricultura brasileira sobre a européia, ou, para melhor dizer, o resultado de um câmbio, no qual as duas partes ganham tudo quanto a contrária tem, sem perder nada do seu. O morango, fruta tão engraçada como saborosa, não data entre nós senão da chegada da Corte, devemo-lo à condessa de Roquefeuille, tão ilustre por suas virtudes, como por sua curiosidade em horticulturas; e os morangais da Tijuca abastaram largo tempo, durante a estação competente, a mesa imperial.

Fava (Fève de Marais / Faba major L. / Diadelphia Decandria), da família das leguminosas. Cultura do feijão; pouco usada no Brasil. Não merece este desprezo.

Feijão (Haricot / Phaseolus vulgaris L.), dito. Digno, com suas centenas de variedades, de todo o desvelo do agricultor. Já falamos dele.

Lentilha (Lentille / Ervum lens L.), dito. Merece um canteirozinho, porém o guando o supre com vantagem. Cultura do feijão.

Ervilha (Pois / Pisum sativum L.), dito. Digno, com suas variedades, da mesa mais lauta. Cultura do feijão.

Alho (Ail / Allium sativum L. / Hexandria Monogynia), da família das liliáceas; Alho-verde (Poireau / Allium porrum), dito. Bem conhecido. Terra leve ou húmus, nasce melhor em climas mais temperados, como o de Santa Catarina.

Cebolinha (Ciboule e ciboulette / Allium schnoprasum L.), dito; Echalota (Échalotte / Allium ascalonicum), dito. Variedades que fornecem um delicioso condimento.

Cebola (Ognon / Allium cepa), dito. Mesma observação que para o alho, aliás algum cuidado dará as cebolas com fartura para o consumo de casa.

Nabo (Navet / Brassica napus / Tetradynamia Siliquosa) da família das crucíferas. Delicado, a variedade conhecida no Brasil é muito inferior. Devem-se procurar sementes da Europa. Mesmo terreno que para a cebola.

Rabanete (Rave, radix e raifort / Raphanus sativus), dito. Mesma observação.

Beterraba (Betterave / Beta vulgaris / Pentandria Digynia) da família das arroxeas. Na Europa tira-se açúcar desta deliciosa raiz, que mais prospera nos climas temperados do que nos entretropicais aliás com algum cuidado e boa semente, obtém-se muito boa. Mesma observação.

Cenoura (Carote / Daucus carota L. / Pentandria Digynia), da família das umbelíferas; Cherivia (Chervis / Sium sizarum), dito; Cenoura branca (Panais / Pastinaca oleracea), dito; Escorcioneira (Salsifis / Tragopogonporrifolius syngenesia polygamia aequalis L.), da família das flosculosas. Mesma cultura.

Batata (pomme de terre / Solanum tuberosum). Já falamos dela.

 Tartufo branco (Topinambour / Helianthus tuberosus / Syngenesia Polygamia Superflua), da família das radiáceas. Indígena do Brasil, dá-se em qualquer terreno.

Batata-doce (Liseron patate / Convolvulus patatas). Já falamos deste delicioso tubérculo.

(Taunay, Carlos Augusto. Manual do agricultor brasileiro. São Paulo, Companhia das Letras, 2001, p.223-231)
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