Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...

Mulher: arca do bem

Eduardo Campos

É naquela deliciosa História da escrava Guiomar, folheto de João Martins de Ataíde, que o povo sertanejo conhece a primeira grande demonstração do afeto humano. Guiomar — é assim que se desenrola o romance — esconde sua verdadeira identidade e comparece a um baile com Fernando, seu amado. Estão os dois valsando e sorrindo, em grande contentamento, quando surge uma pessoa para interromper a felicidade do querido par. O intruso vai cumprir uma missão bastante desagradável: reconduzir Guiomar aos seus donos, que se descobre ser uma simples escrava. Os doze versos que se seguem a esse momento dramático são decisivos.

Fernando! disse Guiomar
Perdoa essa desgraçada
Do teu amor não sou digna
Pois nasci escravizada
Ao julgo dos meus senhores
Morrerei arremessada

— Não digas isso, Guiomar
Tens a minha proteção
O meu amor é sincero
Vives no meu coração
De qualquer modo te arranco
Dessa negra escravidão

A influência que recebemos dos portugueses continua a se pronunciar através de uma literatura popular romântica em que se sucedem as histórias de donzelas infelizes, arrebatadas de amor, ao lado de tantas e tantas outras em que o sentido de bravura, de retidão e cumprimento do dever ressaltam, terminando sempre, de maneira inevitável, com a conquista do objeto amado, como nas aventuras da Princesa Mangalona e seu amante Pierre, Prisão de Oliveiros, O príncipe e a fada, História de João de Calais e outras mais que enumerá-las aqui seria correr o risco de tornar o assunto por demais prolixo.

A mulher amada é sempre aquela figura de santa, incapaz de deslizar, de cair no erro, por quem se batem os heróis. Daí a entranhada admiração do sertanejo pela mulher, embora a maioria não seja capaz de externar-lhe afeto, com certa beleza, omissão esta merecidamente recuperada pelos seus poetas, pelos seus violeiros e cantadores. Teve uma condição de artista e inevitavelmente estará fazendo suas quadrinhas, como os citadinos o fazem os seus sonetos, exaltando a mulher, fazendo comparações de seua beleza com os elementos que mais admira em sua geobotânica.

Mas isso não exclui, é bem verdade, a declarada má vontade de alguns pelo sexo frágil. Em muitos de seus versos lá está a mordacidade, o conceito desprimoroso, a ofensa injusta. Porém não se pense que a mulher somente agora recebe este tratamento. O Suka Spatati, ou as setenta histórias contadas por um papagaio encantado, que a sabedoria hindu nos confere, já se mostrava extremamente belicoso com as mulheres. E é Lin Yutang, numa tradução do escritor Marques Rebelo, que nos presta uma informação precisa desse trabalho: "O que coloca o Papagaio Encantado acima dos outros, é que aqui os comentários não são mais largas generalizações de provérbios impessoais, mas têm o perceptível encanto individual de um inimigo das mulheres e de um cínico moderno".

Se a mulher na poesia popular aparece como santa ou heroína, de repente não será difícil encontrar alguns versos que a julguem impiedosamente. Ora, é a mulher faladeira, a que não tendo algo em que se ocupar, sai de porta em porta no arruado a tecer intrigas; ora, a mulher interesseira, que olha os outros com inveja ou a que se converte em bruxa disposta a perseguir os que se amam.

O cantador Leandro Gomes, num desafio com a Velha de Sergipe, saiu-se com este repente:

A senhora fique certa
O que eu digo é com razão
A mulher geme sem dor
E gasta sem precisão
Casamento para homem
É escabrosa prisão

Disse a velha: meu senhor
Não há marido que sirva
Por melhor que a mulher seja
Trabalhadora e ativa
Ele traz a vista nela
É capaz de comer viva

Eu disse: minha senhora
Marido nenhum faz isto
Sacrificar-se por ela
Isto é bem claro, está bem visto
Ela diz com seus botões:
— Carrego o madeiro, Cristo

Odilon de Brito, cantador cearense, em famoso desafio com a paulista Maria Bela,saiu-se com estes versos que bem justificam o que falamos linhas atrás:

Porém isso eu não desejo
E não é suficiente
Quem peleja com mulher
Perede até sua patente
A melhor mulher do mundo
Quanto mais jura mais mente

Os exemplos poderão ser repetidos. Existem versos de todos os sentidos. Se o amor, representado pela mulher de conduta digna, inspira o poeta, o mesmo se pode dizer que as suas fraquezas humanas são repasto para novos versos. Sendo a mulher um tema permanente no sertão, não é raro ouvir-se desafio em que dois cantadores afamados se encontram um a fazer a defesa das representantes de Eva, outro a atacá-las furiosamente.

Zumba Cordeiro e José Bentivi são autores de uma das mais discutidas porfias dos sertões. O primeiro defendeu a mulher, considerando-a "arca do bem". O outro rebaixou a sua reputação, na tese de que "mulher só tem falsidade". Os versos são bem interessantes e de uma maneira geral nos prestam decisivo subsídio para o estudo do tema que é deveras apaixonante:

B- Eu não confio em mulher
Nem mesmo morta prostrada
A mulher amortalhada
Ainda faz o que quer
O homem que bem souber
Não lhe consagra amizade
A vaidade não convém
Mulher não ama a ninguém

Z- Protesto sua opinião
Você não sabe o que diz
Se a mulher é infeliz
Já procedeu de Adão
Dele veio a geração
Amar a mulher convém
O prodígio que ela tem
Nos serve até no porvir
Enquanto o homem existir
Mulher é a arca do bem

B- Uma mulher pode ser
Formosa como um arcanjo
E mais bela que um anjo
É o diabo no proceder
Estou cansado de ver
Mulher de capacidade
Depois de média idade
Ser falsa ao seu marido
Por isso estou convencido
Mulher só tem falsidade

Z- Zé Bentivi diga assim
Com outro ideal fecundo
Vem do começo do mundo
A mulher boa e ruim
Eu tenho cá para mim
Que toda mulher convém
Não posso julgar ninguém
Pode ser a meretriz
O seu amante é quem diz:
Mulher é a arca do bem

B- A mulher de mais firmeza
E de puro coração
Com a menor sedução
Relaxa sua nobreza
Ainda sendo princesa
Tomba na fatalidade
Perante a atualidade
Quantas não tem na miséria
Pra mim não há mulher séria
Mulher só tem falsidade

Z- Mulher é o jardim de fada
Onde a brisa bafeja
É ninfa que mumureja
É delícia da madrugada
É a estrela adorada
Que toda ciência tem
Uma mulher quando vem
Sorrindo com seus fulgores
Parece pétalas de flores
Mulher é arca do bem

B- Urias foi um general
E da mulher foi traído
Mandou matar o marido
Um distinto oficial
Como procedia mal
Por espontânea vontade
Rei David por amizade
Foi seu maior sedutor
Mas a mulher não tem amor
Mulher só tem falsidade

Z- Mulher sujeita ao varão
Por ser uma parte fraca
Leia a tradução hebraica
Veja o que Deus disse a Adão
Na primeira tentação
Eva caiu no desdém
A serpente veio do além
Tentar a imagem adotada
Porém não sendo tentada
Mulher é a arca do bem

No desafio com Zumba Cordeiro, José Bentivi realmente tomara a parte mais antipática da questão, o que não conseguia agradar aos circunstantes. Tanto que João Ferreira de Lima, que anotou o encontro, passando os versos para um folheto editado em Juazeiro, em dezembro de 1947, informa-nos que ele desistiu de cantar:

José Antônio Bentivi
Deu por vencida a questão
A última glosa que fez
O copo caiu da mão
As moças todas vaiaram
O Bentivi no salão

O velho Zumba Cordeiro
Ficou glosando sozinho
Ainda fez uma glosa
Abatendo o passarinho
Já pelei o Bentivi
Toquei-lhe fogo no ninho

Embora a mulher tenha as suas fraquezas, como nós temos as nossas, subsistirá sempre como verdade o pensamento do cantador:

Sem mulher não há festim
Nem missa nem procissão
Sem mulher não há diversão
Todo brinquedo é querubim
Que todo valor no chem-em-em
A dança não tem valor
Juro por Deus criador
Mulher é a arca do bem!

(Campos, Eduardo. Folclore do Nordeste. Rio de Janeiro, O Cruzeiro, 1960, p.115-121)
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