Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre variedades; frases de pára-choques de caminhões; passatempos; provérbios; curiosidades; pregões de ambulantes; causos; anedotas; folclore de botequim; latrinália; escritos em papel-moeda; anedotas; charadas...

A bananeira

A bananeiraA bela musácea conhecida pelo nome vulgar de bananeira (Musa Sapientium), tão comum entre nós, em suas variadas espécies, é um vegetal que, na crença popular remonta às origens da criação do mundo, pois, de acordo com a tradição, Adão e Eva comeram de seus frutos no paraíso terreal.

Efetivamente, sua origem asiática — isso na suposição de que o Éden, de fato, estivesse localizado na Ásia — magistralmente discutida e comprovada por A. de Gandolle (1806-1893), e a sua classificação botânica de Musa Paradisiaca, imposta pelo sábio Lineu, autorizam, não há dúvida, a popular lenda.

Pacova ou pacoba é designação comum, no norte do país, para a banana.

Na linguagem cotidiana a apreciada fruta figura em um sem número de provérbios, gnomas, parêmias, expressões da gíria e termos vulgares.

Dar uma banana, gesto comum e popular que se faz com os dedos indicador e polegar, indicando que não se dará, de forma alguma, o que o outro deseja.

Bananeira que já deu cacho se diz dos individuos que passaram da idade para determinado feito ou ação.

Plantar uma bananeira significa levar uma queda. É muito mais usada a expressão plantar uma figueira.

Um banana é um sujeito sem energia, abúlico, apático, atoleimado ou palerma.

Gostar de alguma coisa como macaco de banana, indica que se quer muito ou se gosta muito de algo.

De pessoa muito dada às lágrimas costuma-se dizer que tem mais água do que bananeira.

A poesia popular anda cheia de quadras referentes à bananeira e às bananas. Vejamos algumas.

Das Mil quadras populares brasileiras, por Carlos Goés, extraímos a seguinte:

Me trepei na bananeira
Me enrolei com o mangará
Comi banana madura
Até o gato miá

Do Cancioneiro capixaba de trovas populares, por Guilherme Santos Neves, constam estas quadrinhas:

A folha da bananeira
Bota verde, cai madura
Assegura sua palavra
Que a minha está segura

A folha da banaheira
De comprida foi ao chão
Mais comprida foi a fita
Que laçou meu coração

Bananeira é mulher rica
Pelos filhos que ela tem
Corta o cacho, morre a mãe
Fica os filhos sem ninguém

E vem a lua saindo
Por detrás da bananeira
Já me dói o céu da boca
De beijar moça solteira

A folha da bananeira
De comprida amarelou
A boca do meu benzinho
De tão doce açucarou

A folha da bananeira
De tão grande foi ao chão
Quem tiver língua comprida
Faça dela um currião

Eu nunca vi bananeira
Soltar cacho na raiz
Nunca vi rapaz solteiro
Ter palavra no que diz

Lá vem o sol entrando
Por cima da bananeira
Dá lembrança à minha gente
Minha mãe seja a primeira

Téo Brandão, autor das Trovas popualares de Alagoas, coligiu várias quadrinhas sobre a bananeira:

A folha da bananeira
De comprida amarelou
A boquinha de meu bem
de tão doce açucarou

Bananeira bota cacho
Também bota seu buzinho
Eu não posso me esquecer
Da cara do meu benzinho

Lá vem a lua saindo
Por detrás da bananeira;
Já me dói o céu da boca
De beijar moça solteira

No Cancioneiro tanablense encontrei esta quadra:

A folha da bananeira
De tão verde amarelou;
A boca do meu benzinho
De tão doce açucarou

A quadra que abaixo transcrevo vem no Quadrinhas do folclore ilhéu (Santa Catarina), de Osvaldo F. de Melo Filho:

Bananeira chora, chora
Pelos filhos que tem
Cortam o cacho, chora a mãe
Ficam os filhos sem ninguém

Do Folclore pernambucano, por Francisco Augusto Pereira da Costa, publicado no tomo 70, parte 2, 1907, da Revista do Instituto Histórico Brasileiro, tirei as duas quadras que a seguir transcrevo:

Passarinho que cantais
No olho da bananeira,
Passarinho, quando fores
Dá lembrança à minha gente
E minha.mãe seja a primeira

As folhas da bananeira
Bolem com o ar e o vento
Menina, estes teus olhos
Bolem com meu pensamento

O Tratado descritivo do Brasil em 1587 é, talvez, a obra mais admirável de quantas em português produziu o século quinhentista; Gabriel Soares de Sousa, autor do livro, como ele mesmo afirma, residiu dezessete anos no Brasil, e, de volta a Madri ofertou seu trabalho a Cristóvão de Moura.

Dessas lembranças por escrito, como lhes chama o autor, tirei o seguinte capítulo que é o 50, em que se declara a natureza das pacobas e bananas:

“Pacoba é uma fruta natural desta terra, a qual se dá em uma árvore muito mole e fácil de cortar, cujas folhas são de 12 e 15 palmos de comprido e de 3 e 4 de largo; as de junto ao olho são menores, muito verdes umas e outras, e a árvore da mesma cor, mas mais escura; na Índia chamam a estas pacobeiras figueiras e ao fruto figos.

Cada árvore destas não dá mais do que um só cacho que pelo menos tem possante de 200 pacobas. e como este cacho está de vez. cortam a árvore pelo pé e de um só golpe que lhe dão com uma foice a cortam e cerceam, como se fora um nabo, do qual corte corre logo água em fio, e dentro em 24 horas torna a lançar do meio do corte um olho mui grosso donde se gera outra árvore; de redor deste pé arrebentam muitos filhos que aos seis meses dão frutos, e ao mesmo faz à mesma árvore. E como se corta esta pacobeira, tiram-lhe o cacho que tem o fruto verde e muito teso, e dependuram-no em parte onde amadureça, e se façam amarelas as pacobas; e na casa onde se fizer fogo amadurecem mais depressa com a quentura; e como esta fruta está madura, cheira muito bem. Cada pacoba destas tem um palmo de comprido e grossura de um pepino, às quais tiram as cascas, que são de grossura das das favas; e fica-lhes o miolo inteiro almecegado, muito saboroso. Dão estas pacobas assadas aos doentes, em lugar de maçãs, das quais se faz marmelada muito sofrível, e também as concertam com berinjelas e são muito gostosas: e cozidas no açúcar com canela são estremadas, e passadas ao sol sabem a pêssegos, passados. Basta que de toda maneira são muito boas, e dão-se todo o ano; mas no inverno não ha tantas corno no verão, e a estas pacobas chama o gentio pacobuçu, que quer dizer pacoba grande.

Há outra casta que não são tamanhas, mas muito melhores no sabor, e vermelhaças por dentro quando as cortam, e se dão e criam da mesma maneira das grandes.

Há outra casta, que os índios chamam pacobamirim, que quer dizer pacoba pequena, que são do comprimento de um dedo, mas muito mais grossas; estas são tão doces como tâmaras, em tudo mui excelentes.

As bananeiras têm árvores, folhas e criação como as pacobeiras, e não há nas árvores de umas às outras nenhuma diferença, as quais foram ao Brasil de São Tomé, aonde seu fruto chamam bananas e na Índia chamam a estes figos de horta, as quais são mais curtas que as pacobas, mas mais grossas e de 3 quinas; têm a casca da mesma cor e grossura das pacobas, e o miolo mais mole e cheira melhor como são de vez, às quais arregoa a casca como vão amadurecendo e fazendo algumas fendas ao alto, o que fazem na árvore; e não são tão sadias como as pacobas.

Os negros de Guiné são mais afeiçoados a estas bananas que às pacobas e delas usam nas suas roças; e umas e outras se querem plantadas em vales perto da água ou ao menos em terra que seja muito úmida para se darem bem e também se dão em terras secas e de areia; quem cortar atravessadas as pacobas ou bananas ver-lhes-á no meio uma feição de crucifixo, sobre o que contemplativos têm muito que dizer”.

Lery, na sua curiosa obra História de uma viagem à terra do Brasil, deixou algo escrito sobre a bananeira e seus frutos.

“A pacoveira — diz ele no capítulo 13 — é um arbusto em geral de 10 a 12 pés de altura, tronco grosso como a coxa de homem e tão mole que uma cutilada põe abaixo uma dessas plantas. O fruto a pacova, tem mais de meio pé de comprido e é de forma semelhante ao pepino, e amarelo como ele, maduro. Crescem de 20 a 25 reunidos num só cacho. Os americanos os tomam tantos quantos possam sustentar nas mãos e assim os trazem para casa. É boa fruta; a casca tira-se como de figo fresco; e sendo gomosa como este diríeis, ao comê-la, que saboreais um figo. Por essa analogia nós franceses lhe dávamos o nome de figos, embora fossem mais doces e saborosos que os figos de Marselha. Deve a pacova figurar como uma das mais bonitas e saborosas frutas do Brasil.

Conta a história que Catão, de volta de Cartago, trouxera figos de espantosa beleza, e como os antigos não mencionam fruta igual à pacova parece-me verossímil que tais figos africanos fossem a nossa fruta.

As folhas da pacoveira assemelham-se na forma às do lapathum aquanticum; são, porém, tamanhas que medem. de ordinário, 6 pés de comprimento por mais de 2 de largura, e creio que na Europa, Ásia ou África, não se encontrarão folhas maiores.

Ouvi a um boticário dizer que vira uma folha de tussilagem medindo 4 pés de largo ou 10 de circunferência; inda assim no alcança as dimensões da nossa pacobeira.

Tais folhas não são espessas na proporção do tamanho; delgadas e sempre eretas, quando o vento é um pouco impetuoso só o talo central lhe oferece resistência: as lâminas laterais espedaçam-se por forma tal que, ao primeiro relance, de longe, dirieis grandes penas de avestruz...”

Também André Thevet escreve da bananeira e de seus frutos. Quase todo o capitulo 33 é dedicado a essa espécie vegetal. Creio nao ser por demais transcrever algumas linhas:

“Já que se me oferece oportunidade, descreverei, agora, outra árvore, mais pelo interesse de sua excelente virtude e incrível singularidade, do que mesmo pelo propósito de tornar mais extenso meu tema. Trata-se da planta que os selvagens chamam pacovera, por ventura a mais admirável das árvores até hoje vistas. Primeiramente direi que a árvore, do chão aos ramos, não ultrapassa, aproximadamente, a altura de uma braça, não sendo a sua grossura, quando atinge a planta crescimento normal, tão grande que não possa um homem empunhar o caule com as ambas as mãos espalmadas. E esse caule é tão tenro que se pode cortar com um golpe de faca; as folhas têm a largura de 2 pés, de comprimento uma braça, um pé e quatro dedos (como posso realmente asseverar).

Vi uma espécie muito semelhante à pacoveira, no Egito e em Damasco, quando de volta de minha viagem a Jerusalém; suas folhas, todavia, não se aproximavam da metade sequer das da planta americana. A diferença das frutas ainda é maior, pois as da árvore de que falo têm um bom comprimento, isto é, as mais crescidas, sendo tão grossas como um pepino, com o qual, aliás, se parecem muito.

A fruta dessa árvore, que na língua dos selvagens se chama pacova, estando madura é muito saborosa e de boa cocção. Colhem-na os índios, quando está de vez, levando-as para as suas choças, como em regra se faz na França. As pacovas crescem em cachos de 30 a 40, bem juntas umas das outras em penquinhas quase pegadas ao tronco.

O admirável é que a árvore não produz mais do que uma vez. Quase todos os indígenas, até há alguns tempos passados, alimentavam-se dessa fruta durante uma boa parte do temno, como de uma outra, que existe nos campos, chamada hoyriri...”

(Spalding, Tassilo Orfeu. "Quatro estudos: o pau-brasil, o pinheiro, a bananeira e a figueira". Boletim da Comissão Catarinense de Folclore. Florianópolis, ano 6, nº 20-21, setembro-dezembro de 1954, p.42-59)

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