Setembro 2010 - Ano XII - nº 140
O boi Barroso
Meu bonito boi barroso
Que eu já contava perdido
Deixando o rastro na areia
Foi logo reconhecido
Montei no cavalo escuro
E trabalhei logo de espora
E grite: aperta, gente
Que o meu boi se vai embora!
No cruzar de uma picada
Meu cavalo relinchou
Dei de rédea para a esquerda
E o meu boi me atropelou
Ajudai-me, companheiros
Não me deixem morrer só
Ali vem o boi barroso
Estralando o mocotó!
Nos tentos levava um laço
Com vinte e cinco rodilhas
Pra laçar meu boi barroso
Lá no alto das coxilhas
Mas no mato carrasquento
Onde o boi ‘stava embretado
Não quis usar o meu laço
Pra não vê-lo retalhado
E mandei fazer um laço
Da casca do jacaré
Pra laçar meu boi barroso
Num redomão pangaré
E mandei fazer um laço
Do couro da jacutinga
Pra laçar meu boi barroso
Lá no passo da restinga
E mandei fazer um laço
Do couro da capivara
Pra laçar meu boi barroso
Nem que fosse a meia-cara
Estribilho
Meu boi barroso
Meu boi pitanga
O teu lugar
É lá na canga
*
O boi Surubim
O boi Surubim
Nasceu um bezerro macho
No curral da Independência,
Filho de uma vaca mansa
Por nome de Paciência.
Quando Surubim nasceu
Daí a um mês se ferrou
Na porteira do curral
Cinco touros enxotou.
Na porteira do curral
Onde Surubim cavou
Ficou um barreiro tal
Que nunca mais se aterrou.
Na praça da cacimba
Onde o Surubim pisou
Ficou a terra acanhada,
Nunca mais capim criou.
Um relho de duas braças,
Que o Surubim amarrou,
Botou-se numa balança,
Duas arrobas pesou.
Fui passando num sobrado,
Uma moça me chamou:
— Quer vender o Surubim?
Um conto de réis eu dou.
"Guarde seu dinheiro, dona,
O Surubim não vendo não.
— Dou um barco de fazenda,
De chita e madapolão.
"Este é o meu boi Surubim
É um corredor de fama,
Tanto ele corre no duro,
Como nas vargens da lama.
Corre dentro, corre fora,
Corre dentro da caatinga;
Corre quatro, cincos léguas
Com o suor nunca pinga.
Quando Surubim morreu,
Silveira pôs-se a chorar:
Boi bonito como este
No sertão não nascerá:
Eu chamava ele vinha:
— O-lé, o-lô, olá...
*
O rabicho da Geralda
Sou o boi liso, rabicho,
Boi de fama, conhecido,
Minha senhora Geralda
Já me tinha por perdido.
Era minha fama tanta,
Nestes sertões estendida...
Vaqueiros vinham de longe
Pra me tirarem a vida.
Onze anos morei eu
Lá na serra da Preguiça,
Minha senhora Geralda
De mim não tinha notícia.
Morava em cima da serra,
Naqueles altos penhascos,
Só davam notícias minhas
Quando me viam os rastos.
Ao cabo de onze anos
Saí na Várzea do Cisco,
Por minha infelicidade
Por um caboclo fui visto.
Quando o caboclo me viu
Saiu por ali aos topes,
Logo foi dar novas minhas
Ao vaqueiro José Lopes.
Quando o caboclo chegou
Foi com grande matinada:
— Oh! José Lopes, eu vi
O rabicho da Geralda.
Estava na Várzea do Cisco
C’um magotinho de gado,
Lá na pontinha de cima,
Onde entra pra talhado.
José Lopes chamou logo
Por seu filho Antonio João:
"Vá buscar o barbadinho,
"E o cavalo tropelão.
"Diga ao senhor José Gomes
"Que traga sua guiada
"E venha pronto pra irmos
"Ao rabicho da Geralda".
Chegados eles que foram,
Montaram, fizeram linha,
A quem eles encontravam
Perguntavam novas minhas.
Encontrando Zé Tomás,
Que vinha lá da Queimada...
"Camarada, dá-me novas
"Do rabicho da Geralda?"
— Ainda mesmo que eu visse,
Eu não daria passada,
Pois será muito o trabalho,
E o lucro não será nada.
— Não senhor, meu camarada,
A coisa está conversada:
A dona mesmo me disse
Que desse boi não quer nada.
Uma das bandas e o couro
Fica pra nós de bocório;
A outra vai se vender
Pras almas do purgatório.
Despediram-se uns dos outros,
No carrasco se internaram,
Cacaram-me todo o dia
Porém não me alcançaram.
Deram de marcha pra casa,
Já todos mortos de fome,
Foram comer um bocado
Na casa do José Gomes.
Passados bem cinco dias,
Estando eu na ribanceira,
Quando fui botando os olhos,
Vejo vir Manuel Moreira.
Um dos vaqueiros de fama
Que naquele tempo havia,
Que muita gente supunha
Só ele me pegaria.
Olhei para o outro lado,
Para ver se vinha alguém:
Divisei Manuel Francisco
E seu sobrinho Xerém.
Fui tratando de correr
Pelo lugar mais fechado,
Quando o Moreira gritou-me
Aos pés juntos, enrabado,
Corra, corra, camarada,
Pise seguro no chão,
Que hoje sempre dou fim
Ao famanaz do sertão.
Tiremos uma carreira
Assim por uma beirada;
Eu mesmo desconfiei
Do rabicho da Geralda.
Mais adiante pus-me em pé
Para ver o zuadão:
Enxerguei Manuel Francisco
Caído num barrocão.
Estive ali muito tempo,
Ali posto e demorado;
A resposta que me deram
Foi dizer: vai-te malvado!
Toda vida terei pena
De correr atrás de ti;
Bem me basta minha faca,
E minha esposa que perdi!
Daí seguiu para trás
Ajuntando o que era seu,
E juntamente caçando
O Xerém, que se perdeu.
Nesse tempo tinha ido
A Pajeú ver um vaqueiro;
Dentre muitos que lá tinha,
Viera o mais catingueiro.
Este veio por seu gosto,
Trazendo sua guiada,
E desejava ter encontro
Com o rabicho da Geralda.
Chamava-se Inácio Gomes,
Era cabra curiboca,
O nariz achamurrado
Cara cheia de pipoca.
Na fazenda da Concórdia,
Chegou ele a uma hora;
Muita gente já dizia:
O rabicho morre agora.
Dizia que pra matar-me
Não precisava de mais:
Bastava dar-me no rasto
De oito dias atrás.
Deram-lhe então um guia
Que bem soubesse do pasto,
E que também conhecesse
Dentre todos o meu rasto.
Onze dias me caçaram
Com grande empenho e cuidada:
Não puderam descobrir
Nem novas e nem mandado.
Passados os onze dias
Lá no Riacho do Agudo,
Quando fui botando os olhos,
Vi o cabra topetudo.
Disse o guia me avistando:
— Venha ver, meu camarada,
Eis ali o boi de fama,
O rabicho da Geralda.
Bem cedo, ao sair do sol,
Vimo-nos de cara a cara,
E nos primeiros arrancos
Logo lhe caiu a vara.
Ele disto não fez caso,
Relho ao cavalo chegou
E em poucas palhetadas
Bem pertinho me gritou:
— Corra, corra, camarada,
Puxe bem pela memória
Que não vim da minha terra
Para vir contar estória.
Gritou-me da outra banda
O senhor guia também:
— Tu cuidas que sou Moreira,
Ou seu sobrinho Xerém?
Tinha um pau atravessado
Na passagem dum riacho:
O cabra passou por cima
E o cavalo por baixo.
Segui a meia carreira,
No meu correr costumado,
E antes de meia légua,
Ambos já tinham ficado.
Pôs-se o cabra topetudo
A pensar o que faria,
E quando chegasse em casa
Que estória contaria!...
Na fazenda da Botica
Tinha gente em demasia,
Esperando ter notícia
Do rabicho nesse dia.
Perguntou José de Góis,
Morador no Carrapicho:
— Amigo, seja benvindo!
Dá-me novas do rabicho?
— Eu o vi, mas não fiz nada,
Pois nunca vi correr tanto,
Como esse boi, o rabicho,
É coisa que causa espanto!
— Nesta terra eu não vejo
Quem o pegue pelo pé,
Aquele morre de velho
Ou de cobra cascavel.
Respondeu José de Góis,
Morador no Carrapicho:
— Eu pelos olhos conheço
Quem dá voltas ao rabicho.
— Já anda em dezoito anos
Que Zé Lopes o capou,
Era ele então garrotinho,
Por isso foi que pegou.
Foi-se o cabra topetudo
E não sei se lá chegou,
Só sei é que ele foi
Com os beiços com que mamou.
Chega enfim — noventa e dois —
Aquela seca comprida;
Logo vi que era a causa
De eu perder a minha vida.
Secaram-se os olhos d’água,
Não tive onde beber,
E botei-me aos campos grandes
Já bem disposto a morrer.
Desci por uma vereda
E disse: esta me socorra;
Quando quis cuidar em mim
Estava numa gangorra.
Fui à fonte beber água,
Refresquei o coração!
Quando quis sair não pude,
Tinham fechado o portão.
Corri logo a cerca toda
E sair não pude mais:
Quem me fez prisioneiro
Foi apenas um rapaz.
Este saiu às carreiras,
E, vendo um seu camarada,
Gritou logo: já está preso
O rabicho da Geralda.
Espalhando-se a notícia,
Correram todos a ver,
E vinham todos gritando:
O rabicho vai morrer!
Trouxeram três bacamartes,
Todos três me apontaram,
Quando dispararam as armas,
Todas três me traspassaram!
Ferido caí no chão!
Saltaram a me pegar
Uns nos pés, outros nas mãos,
Outros para me sangrar!
Disse então um dentre eles:
— Só assim, meu camarada,
Nós provaríamos todos
Do rabicho da Geralda
Assim findo-se este drama,
Tudo assim se findará,
Como este boi, nesta terra
Não houve, nem haverá.
*
A nau Caterineta
Faz vinte e um anos e um dia
Que andamos n’ondas do mar,
Botando solas de molho
Para de noite jantar.
A sola era tão dura,
Que a não pudemos tragar,
Foi-se vendo pela sorte
Quem se havia de matar,
Logo foi cair a sorte
No capitão-general.
"Sobe, sobe, meu gajeiro,
Meu gajeirinho real,
Vê se vês terras de Espanha,
Areias de Portugal.
— Não vejo terras de Espanha,
Areias de Portugal,
Vejo sete espadas nuas
Todas para te matar.
Arriba, arriba, gajeiro,
Aquele tope real,
Olha pra estrela do norte
Para poder dos guiar.
— Alvistas, meu capitão,
Alvistas, meu general,
Avisto terras de Espanha,
Areias de Portugal.
Também avistei três moças
Debaixo dum parreiral,
Duas cosendo cetim,
Outra calçando o dedal.
"Todas três são filhas minhas,
Ai! Quem mas dera abraçar!
A mais bonita de todas
Para contigo casar."
— Eu não quero sua filha
Que lhe custou a criar,
Quero a nau Caterineta
Para nela navegar.
"Tenho meu cavalo branco,
Como não há outro igual;
Dar-te-lo-ei de presente
Para nele passear."
— Eu não quero seu cavalo
Que lhe custou a criar;
Quero a nau Caterineta
Para nela navegar.
"Tenho meu palácio nobre,
Como não há outro assim,
Com suas telhas de prata,
Suas portas de marfim."
— Eu não quero seu palácio
Tão caro de edificar;
Quero a nau Caterineta
Para nela navegar.
"A nau Caterineta, amigo
É d’El-Rei de Portugal,
Mas não serei mais ninguém,
Ou El-Rei te há de dar.
Desce, desce, meu gajeiro,
Meu gajeirinho real,
Já viste terras de Espanha,
Areias de Portugal…"
Colhida em Sergipe
*
A velha Bizunga
Velha Bizunga,
Casai vossa filha,
Pra termos um dia
De grande alegria.
"Eu, minha filha,
Não quero casar;
Pois não tenho dote
Para a dotar.
Saiu a Preguiça,
De barriga lisa:
— Case a menina,
Que eu dou a camisa.
"Quem dê a camisa
Decerto nós temos;
Mas a saia branca,
Donde a haveremos?
Saiu a cabrita
Do mato manca:
— Case a menina,
Darei a saia branca.
"Quem dê saia branca
De certo nós temos;
Mas o vestido.
Donde o haveremos?
Saiu o veado
Do mato corrido:
— Case a menina,
Que eu dou o vestido.
"Quem dê o vestido
De certo nós temos;
Porém os brincos,
Donde os haveremos?
Saiu o cabrito
Dando dois trincos:
— Case a menina,
Eu darei os brincos.
"Quem dê os brincos
De certo nós temos;
Mas falta o ouro,
Donde o haveremos?
Saiu do mato
Roncando o besouro
— Case a menina,
Qu’eu darei o ouro.
"Quem nos dê o ouro
De certo nós temos;
Mas a cozinheira,
Donde a haveremos?
Saiu a cachorra
Descendo a ladeira:
— Casai a menina,
Serei cozinheira.
"Quem seja a cozinheira
É certo já temos;
Porém a mucama,
Donde a haveremos?
Saiu a traíra
De baixo da lama;
— Casai a menina,
Serei a mucama.
"Quem seja a mucama
De certo nós temos,
Porém o toucado,
Donde o haveremos?
Saiu o coelho
Todo embandeirado:
— Casai a menina,
Darei o toucado.
"Quem dê o toucado
É certo que temos;
Porém o cavalo,
Donde o haveremos?
Saiu do poleiro
Muito teso o galo
— Casai a menina,
Que eu dou o cavalo.
"Quem dê o cavalo
De certo nós temos;
Porém o selim,
Donde o haveremos?
Saiu um burro
Comendo capim
— Casai a menina,
Darei o selim.
"Quem dê o selim
É certo que temos;
Porém falta o freio,
Donde o haveremos?
Saiu uma vaca,
Pintada no meio:
— Casai a menina,
Eu darei o freio.
"Quem nos dê o freio
Sim, senhores, temos;
Porém a manta,
Donde a haveremos?
Saiu a onça
Co‘a boca que espanta:
— Casai a menina,
Que darei a manta.
"Quem nos dê a manta,
É verdade temos;
Mas quem será o noivo?
Donde o haveremos?
Saiu o tatu
Com o seu casco goivo:
— Casai a menina,
Que eu serei o noivo.
"O noivo tratado
De certo nós temos;
Porém o padrinho,
Donde o haveremos?
Saiu o ratinho
Todo encolhidinho:
— Casai a menina,
Serei o padrinho.
"Quem seja o padrinho
De certo nós temos;
Porém a madrinha.
Donde a teremos?
Saiu a cobrinha,
Toda pintadinha:
— Casai a menina,
Serei a madrinha.
"Quem seja a madrinha
De certo nós temos;
Mas quem pague o padre,
Donde o haveremos?
Saiu a cobrinha,
Que era a comadre:
— Casai a menina,
Pagarei ao padre.
Cada um dando o que pôde
Todos se arrumaram:
Chamado o padre,
Logo se casaram.
Caindo o sereno
Por cima da grama,
Debaixo da pedra
Fizeram a cama,
Se divertiram,
Cantaram, dançaram;
E diz o lagarto
Que também tocaram.
Se é verdade ou não,
Isso lá não sei;
O que me foi contado
Eu também contei.
O que sei só é
Que tanto brincaram,
Que todos também
Se embebedaram.
Até eu também
Me achei na função,
E pra casa truce
De doce um buião.
Colhido em Maricá, RJ
*
A vida de Pedro Cem
Vou narrar agora um fato
Que há cinco séculos se deu,
De um grande capitalista
Do continente europeu,
Fortuna que como aquela,
Ainda não apareceu.
Pedro Cem, era o mais rico,
Que nasceu em Portugal,
Sua fama enchia o mundo
Seu nome anda em geral,
Não casou-se com rainha
Por não ter sangue real.
Em prédios, dinheiro e bens
Era o mais rico que havia,
Nunca deveu a ninguém
Todo mundo lhe devia,
Balanço em sua fortuna
Querendo dar não podia.
Em cada rua ele tinha
Cem casas para alugar,
Tinha cem botes no porto
E cem navios no mar,
Cem lanchas e cem barcaças,
Tudo isto a navegar.
Tinha cem fábricas de vinho
E cem alfaiatarias,
Cem depósitos de fazendas
Cem moinhos e cem padarias
E tinha dentro do mar,
Cem currais de pescarias.
Em cada país do mundo
Possuía cem sobrados,
Em cada banco ele tinha
Cem contos depositados,
Ocupava mensalmente
Dezesseis mil empregados.
Diz a história aonde eu li
O todo desse passado,
Que Pedro Cem nunca deu
Uma esmola a um desgraçado.
Não olhava para um pobre,
Nem falava com criado.
Uma noite teve um sonho
Um rapaz o avisava
Que aquele orgulho dele
Era quem o castigava
Aquela grande fortuna
Assim como veio voltava.
Ele acordou agitado
Pelo sonho que tinha tido,
Que rapaz seria aquele?
Que lhe tinha aparecido
Depois pensou, ora! Sonho,
É devaneio do sentido.
Um dia, no meio da praça
Ele a uma moça encontrou,
Essa vinha quase nua,
Aos seus pés se ajoelhou
Dizendo: senhor? Olhai!
O estado em que estou.
Ele torceu para um lado
E disse: minha senhora?
Olhe a sua posição!...
E veja o que fez agora
Reconheça o seu lugar,
Levante-se e vá embora
Oh! Senhor! Por esse sol
Que de tão alto flutua,
Lembrai-vos que tenho fome
Estou aqui quase nua,
Sou obrigada a passar,
Nesse estado em plena rua.
Ele repleto de orgulho
Nem deu ouvido, saiu,
A pobre ergueu-se chorando
Chegou adiante caiu,
Vinha passando uma dama
Que com o manto a cobriu.
Era a marquesa de Évora
Uma alma lapidada,
Tirando o seu rico manto
Cobriu essa desgraçada,
Ali conheceu que a pobre
Foi pela fome postrada.
Levante-se minha filha
E pegou-lhe pela mão,
Dizendo a criada a ela:
Vá ali comprar um pão
Que a essa pobre infeliz,
Falta alimentação.
Entregando-lhe uma bolsa
Com quarenta e dois mil réis,
Apenas tirou dali
Um diploma e uns papéis
Não consentindo que a moça
Se ajoelhasse aos seus pés.
E com aquela quantia
Ela comprou um tear,
Tinha mais duas irmãs
Foram as três trabalhar
Dali em diante mais nunca,
Faltou-lhe com que passar.
Vamos agora tratar
Pedro Cem como ficou,
E o nervoso que sentiu
Uma noite que sonhou
Que um homem lhe apareceu
E disse olhe bem quem eu sou,
Que tens feito do dinheiro
Que tomaste emprestado?
Meu senhor mandou saber
Em que o tens empregado?
E por qual razão cumpriu
As ordens que ele tem dado?
Ele perguntou no sonho
Mas que dinheiro eu tomei,
Até aos próprios monarcas
Dinheiro muito emprestei,
O vulto zombando dele
Disse: quem tu és eu sei.
Que capital tinhas tu
Quando chegaste ao mundo?
Chegaste nu e descalço
Como o bicho mais imundo
Hoje queres ser tão nobre,
Sendo um simples vagabundo.
E metendo a mão no bolso
Tirou dele uma mochila,
Dizendo é esta a fortuna
Que tu hás de possuí-la,
Farás dela profissão,
Pedindo de vila em vila.
Pedro Cem sonhando disse:
Ave agoureira te some
Tua presença me perturba
Tua frase me consome
De qual mundo tu vieste?
Diz-me por favor teu nome.
Meu nome, disse-lhe o vulto
És indigno de saber,
Meu grande superior
Proibiu-me de dizer.
Apenas faço o serviço,
Que ele me manda fazer.
Despertando Pedro Cem
Daquilo contrariado
Ter dois sonhos quase iguais
Ficou impressionado,
Resolveu contrafazer,
E ficar reconcentrado.
Pensou em tirar por ano
Daquela grande riqueza
Sessenta contos de réis
E dar de esmola à pobreza
Depois refletindo, disse:
Não me dá maior fraqueza
Porque ainda mesmo Deus
Querendo me castigar,
Não afundará num dia
Meus cem navios no mar,
As cem fazendas de gado,
Custarão a se acabar.
As cem fábricas de tecidos
Que tenho funcionando,
Os parreirais de uvas
Que estão todos safrejando,
Cem botes que tenho no porto
Todo dia trabalhando.
Cem armazéns de fazendas
As cem alfaiatarias,
As cem fundições de ferro
Cem currais de pescarias
As cem casas alugadas,
Cem moinhos, cem padarias.
E as centenas de contos
Nos bancos depositados,
E tudo isso em poder
De homens acreditados
Ainda Deus querendo isso
Seus planos eram errados
Pedro Cem naquela hora
Estava impressionado,
Quando aproximou-se dele
O seu primeiro criado,
E disse: aí tem um homem,
Diz vos trazer um recado.
Mande que entre a pessoa
Ele ao criado ordenou:
Era um marinheiro velho
Chegando ali o saudou,
Que novas traz, meu amigo?
Pedro Cem lhe perguntou.
Disse o velho marinheiro:
Venho-vos participar,
Que dez navios dos vossos
Ontem afundaram no mar
Morreram as tripulações
Só eu me pude salvar.
Que navios foram esses?
Perguntou-lhe Pedro Cem,
Respondeu o marinheiro:
Foi Tejo e Jerusalém
E Douro e Penafiel
Os outros eu não sei bem.
Aquela inda estava ali
Outro portador bateu
O empregado das vacas
Contou o que sucedeu;
Incendiaram os cercados
E todo o gado morreu.
Pedro Cem nada dizia
Ficando silencioso,
Apenas disse: na terra
Não há homem venturoso
Quem se julgar mais feliz
É pior que cão leproso.
Chegou outro portador
O empregado da vinha,
Disse o depósito estourou
Vazou o vinho que tinha
Pedro Cem disse: meu Deus!...
Que sorte triste esta minha.
Saiu aquele entrou outro
Era um cônsul norueguês,
Disse nos mares do norte
Andava um pirata inglês,
Noventa navios vossos
Tomou ele de uma vez.
Meu Deus!... Meu Deus!... que fiz eu
Exclamava Pedro Cem
Não há homem nesse mundo
que possa dizer vou bem,
quando menos ele espera
A negra desgraça vem.
Dos cem navios que tinha
Alguns foram afundados,
E outros pelos piratas
Nos mares foram tomados
Acrescentou a pessoa:
Vinham todos carregados.
Ali mesmo veio o mestre
Da barca Flor do Mundo
Esse fitou Pedro Cem
Com um silêncio profundo
Depois disse: senhor marquês?!
Dez barcaças foram ao fundo
Quatros vinham carregadas
Com bacalhau e azeite,
Duas vinham da Suécia
Com queijo, manteiga e leite,
De todas as mercadorias
Não tem uma que se aproveite.
Quatro das dez que afundaram
Traziam pérola e metal,
Só da ilha da Madeira
Vinham um milhão de coral
Topázio, rubi, brilhante,
Ouro, esmeralda e cristal.
Pedro Cem baixou a vista
Nada pôde refletir
Exclamou que faço eu?
Devo deixar de existir,
Mas matando-me não vejo,
Isso até onde pode ir.
Chegou o moço do campo
Tremendo e muito assustado
E disse: senhor marquês
Venho aqui horrorizado,
Deu murrinha nas ovelhas
E mal triste em todo gado.
Naquele momento entrou
Um rapaz auxiliar,
Esse puxando um papel
Disse: venho procurar,
Tudo quanto se perdeu
Na barca Ares do Mar.
Pedro Cem perguntou quanto
Tirou o moço uns papéis.
Que se lia entre brilhantes
Pulseiras, colares, anéis,
Um milhão e quatrocentos
E vinte contos de réis.
Entrou outro auxiliar
Disse eu quero pagamento,
Por tudo que se perdeu
No navio Chave do Vento
Que vinha da América do Norte
Com grande carregamento
Chegou um tabelião
Dá licença senhor Marquês?
Venho lhe participar
Que o grande banco francês,
Dois alemães, três suíços
Quebraram todos de vez
Lá se foi minha fortuna
Exclama Pedro Cem,
Ontem fui milionário
Hoje não tenho um vintém
Só mesmo na campa fria,
Eu hoje estaria bem.
Dando balanço nos bens
Quis até desesperar.
Tudo quanto possuía
Não dava para pagar
Nem pela décima parte
Os prejuízos do mar.
Exclamava: oh! Pedro Cem
Que será de ti agora!
No pouco que me restava
A justiça fez penhora,
Pedro Cem de agora em diante
Vai errar de mundo afora.
Carpir esta sorte dura
que a desventura me deu,
Talvez muitas vezes vendo
Aquilo que já foi meu,
Em lugar que não se saiba
Quem neste mundo fui eu.
Ali no terraço mesmo
Forrando o chão se deitou,
As onze e meia da noite
O sonho conciliou
No sono sonhando viu
O rapaz que lhe falou.
Aquele perguntou, Pedro
Como te foste de empresa,
Já estás conhecendo agora
Quanto é grande a natureza?
Conheceste que teu orgulho
Foi quem te fez a surpresa?
Metendo a mão na algibeira
Dali um quadro tirou.
Onde havia dois retratos
Que a Pedro Cem os mostrou
Conheces esses retratos
O rapaz lhe perguntou.
Via-se naquele quadro
Uma dama bem vestida
Pedro Cem disse por sonho:
Essa é minha conhecida
A outra uma moça pobre
Com fome no chão caída.
Perguntava-lhe o rapaz:
Quem é esta conhecida
É a marquesa de Évora
E esta que está caída?
Essa? É uma miserável,
Dessa classe desvalida.
O rapaz puxa outro quadro
Verde cor de esperança,
Onde via-se uma monarca
Suspendendo uma balança
Estava pesando nela
Caridade e esperança.
Mostrou-lhe mais quatros quadros
Que Pedro Cem conheceu,
Tinha a Marquesa de Évora
Quando a bolsa a pobre deu
Que estirou a mão dizendo:
Toma este dinheiro que é teu.
No quadro via-se um anjo
Assim nos diz a história,
Com uma flor onde se lia:
jardim da eterna glória,
Presenteado por Deus,
Esta palma de vitória.
Quem planta flores tem flores
Quem planta espinho tem espinho
Deus mostra ao espírito fraco
O que nega ao mesquinho,
A virtude é um negócio
A boa ação um pergaminho.
Depois que ele acordou
Triste impressionado
Interrogava si próprio
Porque sou tão desgraçado
Achou na cama a mochila,
Com que tinha sonhado.
Será esta a tal mochila
Que o fantasma me mostrou;
É esta que o homem em sonho
Em desespero exclamou:
Na noite em que a cruel sina,
Por sonho me visitou.
De tudo restava apenas
A casa de moradia,
Essa mesma embargaram
Antes de findar-se o dia
Então disse Pedro Cem
Cumpriu-se a profecia.
Lançando a mão na mochila
Saiu no mundo a vagar
Implorando a caridade
Sem alguém nada lhe dar
Por uma cinco ou seis vezes
Tentou se suicidar.
Ele dizia nas portas:
Uma esmola a Pedro Cem
Que já foi capitalista
Ontem tem, hoje não tem
A quem já neguei esmola
Hoje a mim nega também.
Foi ele cair com fome
Em casa daquela moça,
Quando foi a porta dele
Com fome, frio e sem força,
Que ele não quis olhá-la
A marquesa deu-lhe a bolsa.
A criada o viu cair
Exclamou: minha senhora!...
Ande ver um miserável,
Que caiu de fome agora,
Onde? Perguntou a moça
Ana disse: Ali fora.
A moça disse à criada:
Que trouxesse leite e pão
Aproximando-se dele
Disse: o que tens meu irmão
Bateste em todas as portas
Não encontraste cristão.
Senhora! Se vós soubesseis
Quem é esse desgraçado
Não me abririas a porta
Nem me davas esse bocado
Respondeu ela: conheço
Mas eu esqueço o passado.
Me recordo que a marquesa
Fez minha felicidade,
Viu-me caída com fome
Teve de mim piedade,
Deu-me com que comprar pão
E esta propriedade.
Pedro Cem se levantou
Disse obrigado e saiu
Andando duzentos passos
Tombou por terra, caiu
E umas frases tocantes,
Em alta voz proferiu:
"Vai unir-se à terra fria
O que não soube viver
Soube ganhar a fortuna
Mas não na soube perder
Se tenho estudado a vida
Tinha aprendido a morrer.
Foi como a corrente d’água
Que pela serra desceu,
Chegou o verão a secou
Ela desapareceu,
Ficando só os escombros
Por onde a água correu.
Eu tive tanta fortuna
Não socorria ninguém,
A todos que me pediram
Eu nunca dei um vintém,
Hoje preciso pedir,
Não há quem me dê também.
Não desespero, pois sei
Que grandes crimes hoje espio,
Nasci em berços dourados
Dormi em colchão macio
Hoje morro como os brutos
Neste chão sujo e frio.
Foram as últimas palavras
Que ali pronunciou,
Margarida, aquela moça
Que a marquesa embrulhou
Botou-lhe a vela na mão,
Ele ali mesmo expirou.
A justiça examinando
Os bolsos de Pedro Cem,
Encontrou uma mochila
E dentro dela um vintém
E um letreiro que dizia:
Ontem teve e hoje não tem.
Impressa em Recife, junho de 1932
*
O casamento do rato com a Catita
No tempo em que os animais
Seguiam civilidade
O mundo era diferente
Deste da atualidade
Não havia a corrupção
Que existe na humanidade
Nesse tempo o senhor leão
Era o rei dos animais
O gafanhoto também
Trazia insígnias reais
O elefante, grande sábio,
Fazia códigos legais
O urso era juiz de direito
O tigre era presidente
O lobo era capitão
A girafa era intendente
O tamanduá era padre
E o porco-espinho tenente
O boi era juiz de paz
Mestre burro era doutor
O macaco era escrivão
A lagarta cobrador
A preguiça era fiscal
Tatu-peba coletor
O carneiro era mendigo
Era o bode um almirante
A raposa era correio
Era o cavalo estudante
O galo era um insolente
E o punaré negociante
A cobra, uma criminosa
O cachorro, delegado
O queixada, vagabundo
O sapo, velho soldado
E o peru era pobre preso
Que vivia encarcerado
Gato era cabo de esquadra
Saguim era professor
O veado era vaqueiro
Periquito, promotor
Camelo era viajante
E o porco era criador
O jacaré era dentista
O morcego era barbeiro
A ema era bom alfaiate
O pica-pau, carpinteiro
Guaxinim, senhor de engenho
Mestre urubu, cozinheiro
Vivia o abutre faminto
A coruja era um profeta
O cisne era um amante
O rouxinol, um poeta
A zebra, grande tratante
O canguru era um pateta
O castor era pedreiro
O rato era namorado
A barata era gatuno
O pato era um empregado
O pavão era um ourives
E o canário, um advogado
Era o mocó bom marchante
A andorinha, comboeiro
A formiga, agricultor
Hiena, um sujo coveiro
A cigarra era cantora
E o besouro era bombeiro
Afinal, tudo o que os homens
São nessa atualidade
Os brutos também já foram
No tempo da antiguidade
Quando o Destino era um deus
De poder e majestade
Nesse tempo, o jovem rato
Habitava num chalé
E namorava a Catita
A filha do punaré
Ela ainda era donzela
E ele era um moço de fé
O rato determinou-se
A pedir a mão da amada
Visitando o punaré
Pediu-lhe a filha estimada
Visto ela também já estar
Bem por ele apaixonada
— Meu tio, eu não venho aqui
Só fazer-lhe uma visita
Venho lhe pedir a mão
De sua filha Catita
Para casar-me com ela
Pois acho-a muito bonita
O punaré respondeu-lhe:
— Só não te dou minha filha
Porque ainda não tens recursos
Pra sustentar a família
E um pobre casar com um rico
É mais do que maravilha
— Meu tio, eu sei que sou pobre
Não preciso que me diga
A fazer-lhe este pedido
É mesmo o amor quem me obriga
Se me negar o que peço
Haverá entre nós intriga
— Eu darei o que me pedes
Pois não te posso negar
Já que a moça é tua prima
Porém só podes casar
Quando tiveres dinheiro
Com que possas te aprontar
— Se o senhor me proteger
Eu proponho-lhe um negócio
Faça de mim seu caixeiro
Pois não sou muito beócio
E, depois, quando casar
Poderei ser o seu sócio
— Aceito tua proposta
Podes vir ser meu caixeiro
Porém há uma circunstância
Quero avisar-te primeiro
Que não namores a moça
Enquanto fores solteiro
Então, fecharam negócio
Passaram um documento
E o rato tomou conta
Dum estabelecimento
Trataram para o fim do ano
O tempo do casamento
O punaré proibiu
À filha de namorar
Porém ela, às escondidas
Ia com o rato prosar
Toda noite, no jardim
Tinham um particular
Ao cabo de pouco tempo
Sentiu-se a moça doente
Estava bem descorada
Com um olhar diferente
Os peitos tinha crescidos
E bastante inchado o ventre
Foi receitar-se num médico
E este, a vendo, logo disse:
— Senhora, este seu incômodo
Nada mais é que prenhice
Remédio para este mal
Nunca pôde descobrir-se
O Rato desconfiou
Tratou logo de fugir
Roubou o cofre do tio
Que, quando o quis perseguir
Não o encontrou mais na loja
Nem no quarto de dormir
Vendo-se a moça ofendida
Foi, correndo, se queixar
Suplicando ao delegado
Para este logo obrigar
O Rato a casar com ela
Pr’assim sua honra pagar
Prometeu o delegado
Que faria o que pudesse:
Mandava prender o moço
E, embora ele não quisesse
Casar-se com a ofendida
Casava houvesse o que houvesse!
A moça voltou pra casa
E o delegado apitou
Em menos de uma meia hora
Uma tropa se ajuntou
O Gato chegou primeiro
Dizendo logo: - Cá estou!
Os soldados perguntaram:
— Que quer, senhor delegado?
Este respondeu: — Eu quero
Que o Rato seja intimado
Se ele fizer resistência
Tragam morto ou amarrado!
Logo os soldados se armaram
Foram em busca do Rato
Este, com medo da tropa
Estava oculto no mato
Porém isto o não livrou
De cair nas mãos do Gato
Cercou a tropa uma serra
E, de cima dum penedo
Avistou o criminoso
Debaixo dum arvoredo
Muitos soldados correram
Outros morreram de medo!
O Rato estava dormindo
E acordou atordoado
Com uma voz lhe dizendo:
— O’ cabra esteja intimado!
O Rato pensou consigo:
— Ai! Ai! estou desgraçado!
O Rato quis evadir-se
Porém foi logo agarrado
Ele se opôs e, na luta
Deixaram-no bem pelado
Pois assim mesmo o levaram
Diante do delegado
Este perguntou ao preso:
— Que foi que fizeste tu?
Que foi que te aconteceu
Que estás aí quase nu?
Para ti serve o ditado:
Quem se vexa come cru!
Disse o Rato: — Eu quis casar
Com uma jovem mui bela;
Mas, por ela me ser falsa,
Eu disse para o pai dela:
Que procurasse outro noivo
Para casar-se com ela
O delegado então disse:
— Pois que o camarada me ouça:
Por aí corre o boato
Que tu ofendeste essa moça
Agora, o que te acontece
É morte ou casar à força!
O Rato lhe respondeu:
— Não é preciso matar-me!
Eu já estou arrependido
E, como quer castigar-me
Mande chamar logo o padre
Quero hoje mesmo casar-me
O delegado respondeu-lhe
— Não precisa se vexar
Ainda falta correr banhos
E a moça se preparar
Eu dou-lhe um mês como prazo
Para tudo se arranjar
Com esse espaço dum mês
Tudo estava preparado
Todo o povo do lugar
Tinha sido convidado
Para ao grande baile vir
Que havia de ser falado
O Punaré, logo cedo
Mandou ao padre chamar
Pra fazer o casamento
Que era em primeiro lugar
Na manhã daquele dia
Sem poder mais se adiar
Convidou Mocó das Índias
Pra ser do noivo o padrinho
Visto ele ser seu parente
E também ser seu vizinho
Este não bebeu na festa
Por gostar pouco de vinho
Mandou chamar a Cotia
Pra ser da noiva a madrinha
Esta não comeu na festa
Por não gostar de galinha
E, como tinha inimigos
Desconfiada é que vinha
Convidou Mestre Urubu
Para a festa cozinhar
Este preparou guisados
E, quando foram jantar
O delegado chegou
Para no baile dançar
Ao chegar o delegado
A festa foi acabada
Pois a madrinha da noiva
Era com ele intrigada
O delegado agarrou-a
Matando-a numa dentada!
Numa guerra sanguinária
Tranformou-se, então, a festa
Tamanduá levantou-se
Perguntou: — Que zoada é esta?
Mas, quando viu que era o cão
Se embrenhou pela floresta
Na cabeceira da mesa
Estavam Catita e Rato
Quando ouviram o barulho
Quiseram correr pro mato
Mas, antes disso fazerem
Foram mortos pelo Gato!
Morreram nesse barulho
Mais de dois mil convidados!
Os que escaparam com vida
Foram todos debandados
Desde esse dia ficaram
Os animais intrigados
*
Boi Pintadinho
Eu sou o boi Pintadinho
Boi corredor de fama
Que tanto corre no duro
Como na várzea de lama
Corro fora destes campos
Corro dentro da caatinga
Corro quatro, cinco léguas
De suor nem uma pinga
Corro fora nestes campos
Que o mesmo ar se arrebenta
Corro quatro, cinco léguas
Ninguém me vê dar a venta
Meu senhor Inácio Gomes
De mim já teve agravado
Porque onde eu estou
Não pode arrudiar gado
Ele fala com grande ira
E sente está magoado
Porque há mais de vinte vezes
Eu o tenho enrabado
Meu senhor Inácio Gomes
Fala com tanta ira
Que já dá vinte patacas
A quem me puser na embira
Eu darei tudo por nada
Pois dele, se não careço
Além da sua brabeza
Também tenho seu arremesso
O moço José de Almeida
Vagueiro do Clemente
Diz que nunca houve um cachorro
Que lhe pusesse o dente
E eu que o vi correr
Na lagoa das Mofadas
Deixou atrás o cavalo
E a sua cachorrada
Porque desde garotinho
Carreguei opinião
De não ter nenhum vaqueiro
Que me chegasse o ferrão
Estava eu certo dia
Na Carnaubinha maiado
Quando vi um cavaleiro
Em um tropel mui descansado
Estava seco de sede
E também morto de fome
Assim mesmo abri os olhos
Conheci Inácio Gomes
Saí logo na carreira
Não muito despedido
Porque Inácio Gomes
Já era meu conhecido
Ficou ele maginando
O que havia de fazer
Eu entrei bem para o centro
Bem pra dentro me esconder
No outro dia bem cedo
Saí a comer orvalho
Logo na volta que dei
Encontrei João Carvalho
Ele vinha bem montado
Bom cavalo e bom ferrão
E junto consigo trazia
O cabra Gonçalão
Traziam mais três cachorros
Que valiam três cidades
Que querendo matar um
Não se acha ruindade
Logo que avistei isto
Botei-me no catingão
A demora que tiveram
Foi gritar: arriba cão!
Corria de tal maneira
Que os ouvido me zunia
Na distância de três léguas
Três cachorros me gania
Tratei de me pôr em pé
Espiando pra confusão
Porém logo me enganei
Cada vez me foi pior
Porque eu estando em pé
Espiando pra confusão
Muito depressa chegou
O tal cabra Gonçalão
— Quer que vamos ao boi agora?
Ele está bem esbarrado...
Peguemos logo este boi
Enquanto ele está cansado
O cabra partiu a mim
Porém veio de meia-esgueia
Desviou-se da cabeça
Pressionou-me na sarneia
Eu com ardor do ferrão
A ele me encostei:
De debaixo de suas pernas
O cavalo lhe matei
O cabra se viu a pé
Ficou tão desesperado
Foi gritando logo ao outro:
— Matemos este malvado!
O cabra quando viu isto
Ainda mais se segurou
Puxou logo pela faca
Por detrás me rejeitou
Deram comigo no chão
Em riba de mim se escanchou
Logo o cabra Gonçalão
Bem depressa me sangrou
Ficaram muito contentes
De ter seu pleito vencido
Só assim Inácio Gomes
Aproveitaria o perdido
— Gonçalão tu vais à casa
Para buscar três cavalos
E mais alguma arrumação
E comeres alguma coisa
Que com certeza tens fome
Que vou pedir as alvissas
Ao compadre Inácio Gomes
Chegando ele então
Na fazenda Trucuinho
— As alvissas, meu compadre
Que é morto o Pintadinho!
— Venha me contar a estória
O que ele andava fazendo
Na lagoa das Mofadas
Bem cedo andando correndo
— Na lagoa das Mofadas
Naquele serrotinho de pedra
Bem na pontinha de cima
Fomos dar-lhe uma queda
Ou bicho forte! Correu
Correu mais de cinco léguas
E, se não são os cachorros
Ainda ninguém o pega
— Faça favor apeiar-se
Venha me contar a função
Se foi morto de chumbo
Ou a ponta de ferrão
— Sim, senhor, foi morto a chumbo
E a ponta de ferrão
Ajudado dos cachorros
E também do Gonçalão
Tenho agora três cachorros
Que vieram do Inhamuns
Que como estes três cachorros
Nesta terra não há nenhum
— Estão prontas as vinte patacas
Para lhe dar as alvissas
Tanto pelo seu trabalho
Como também pela notícia
Mande ver o Pintadinho
Aproveite ele todo
Faça dele matrutagem
Estimo que esteja gordo
Eu suponho que está capaz
De se comer com sossego
Porque julgo não terá carne
Tudo, tudo será sebo
Convide alguns amigos
Para bebermos um copinho
Principalmente celebrando
A morte de Pintadinho
* * *
Convidaram-se os amigos
Acudiu a gente toda
Receberam vinte mil réis
Comeram uma vaca gorda
*
O tatu
Eu vim pra contar a história
Dum – tatu – que já morreu
Passando muitos trabalhos
Por este mundo de Deus
O tatu foi muito ativo
Pra sua vida buscar
Batia casco na estrada
Mas nunca pôde ajuntar
Ora pois, todos escutem
Do tatu a narração
E se houver quem saiba mais,
Entre também na função
- Anda a roda
O tatu é teu;
Voltinha no meio
O tatu é meu! -
O tatu foi homem pobre
Que apenas teve de seu
Um balandrau muito velho
Que o defunto pai lhe deu!
O tatu é bicho manso
Nunca mordeu a ninguém
Só deu uma dentadinha
Na perninha do seu bem
O tatu é bicho manso
Não pode morder ninguém
Inda que queira morder
O tatu dentes não tem
O tatu saiu do mato
Vestidinho, preparado
Parecia um capitão
De camisa de babado!
O tatu saiu do mato
Procurando mantimento
Caiu numa cachorrada
Que o levou cortando vento!
O tatu me foi à roça
Toda a roça me comeu
Plante roça quem quiser
Que o tatu quero ser seu!
•
O tatu é bicho chato
Rasteiro, toca no chão
Inda mais rasteiro fica
Quando vai roubar feijão
O tatu de rabo mole
Faz guisado sem gordura
Ele é feio mas gostoso
O que lhe falta, é compostura
Depois de muito corrido
Nos pagos em que nasceu
O tatu alçou o poncho
E proutras bandas se moveu
•
Eu vi o tatu montado
No seu cavalo picaço
De bolas e tirador
De faca, rebenque e laço
Onde vai, senhor tatu
Emtamanha galopada?
– Vou pra Cima da Serra
Dançar a polca mancada! -
O tatu subiu a Serra
No seu cavalo alazão
De barbicacho na orelha
Repassando um redomão
•
O tatu subiu a serra
Pra serrar um tabuado
Levou mala de farinha
E um porongo de melado
O tatu subiu a Serra
Com ganas de beber vinho
Apertaram-lhe a garganta
Vomitou pelo focinho!
Depois de grande folia
Em que o tatu se meteu
Deram-lhe muito guascaço
E o tatu ensandeceu!
•
E logo desceu pra baixo
Mui triste da sua vida
Co’a casca toda riscada
De orelha murcha, caída!
O tatu foi encontrado
No serro de Batovi
Roendo as unhas, de fome
Ninguém me contou, eu vi!
O tatu foi encontrado
Pras bandas de São Sepé
Mui aflito e muito pobre
De freio na mão, a pé
•
O tatu depois foi visto
No serro de Viamão
Com seu lacinho nos tentos
Repassando um redomão
O tatu foi encontrado
Lá nos serros de Bagé
De laço e bolas nos tentos
Atrás dum boi jaguané!
O tatu foi encontrado
Na serra de Canguçu
Mais triste que um socó
E sujo como urubu
•
Ao chegar à sua casa
Veio alegre e mui contente
Por ver a sua tatua
E quem mais era parente
Minha comadre tatua
Adeus, como tem passado?
– Tenho passado mui bem
Porém com algum cuidado -
Tatua, minha tatua
Acuda, senão eu morro!
Venho todo lastimado
Das dentadas de um cachorro
•
Até chegar nesta idade
Remédio nunca tomei
Tatua, estou mui doente
Faz remédio, eu tomarei
Ela deu folhas d’umbu
Co’a raiz de pessegueiro
Mas coitado do tatu
Morreu inda mais ligeiro!
A tatua e os tatuzinhos
Puseram-se a cavoucar
Pra fazer a funda cova
Pra o seu tatu enterrar
•
A tatua está viva
O seu tatu já morreu
Ela agora quer marido
Travesso como era o seu
A tatua está mitrada
Quer marido doutro jeito
Que não viva longe dela
E seja tatu de respeito
E se algum dos meus senhores
Quer ser tatu preferido
A tatua está viva:
É só fazer seu pedido!
O tatu desceu a Serra
Com fama de laçador
Bota laço, tira laço
Bota pealos de amor
Meu tatu de rabo mole
Meu guisado sem gordura
Eu não gasto meu dinheiro
Com moça sem formosura
Dei graças a Deus achar
Uma toca já deixada
Pois que vinha um caçador
Co’ uma grande cachorrada
O tatu foi encontrado
No passo do Jacuí
Trazendo muitos ofícios
Para o general David
O tatu subiu no pau!
É mentira de você:
Só que o pau fosse deitado
Isso sim, podia sê
O tatu caiu na roça
Pelo cheiro da banana
Também eu quero cair
Nos braços de dona Ana
*
A sogra enganando o diabo
Dizem, não sei se é ditado,
Que ao diabo ninguém logra;
Porém vou contar o caso
Que se deu com minha sogra.
As testemunhas são eu,
Meu sogro, que já morreu,
E a velha, que é falecida.
Esse caso foi passado
Na rua do Pé Quebrado
Da vila Corpo Sem Vida.
Chamava-se Quebra-Quengo
A mãe de minha mulher,
Que se chamava Aluada
Da Silva Quebra-Colher,
Filha do Zé Cabeludo.
Irmã de Vítor Cascudo
E de Marcelino Brabo,
Pai de Corisco Estupor;
Mas ouça agora o senhor
Que fez a velha ao diabo.
Minha sogra era uma velha
Bem carola e rezadeira,
Tinha seu quengo lixado,
Era audaz e feiticeira;
Para ela tudo era tolo,
Porque ela dava bolo
No tipo mais estradeiro.
Era assim o seu serviço:
Ela virava o feitiço
Por cima do feiticeiro!
Disse o demo: — Quebra-Quengo,
Qual é a tua virtude?
Dizem que és azucrinada
E que a ti ninguém ilude?
Disse a velha: — Inda mais esta!
Você parece que é besta!
Que tem você c’o que faço?
Disse ele: — Tudo desmancho,
Nem Santo Antônio com gancho
Te livra hoje do meu laço!
Ela indagou: — Quem és tu?
Respondeu: — Sou o demônio,
Nem me espanto com milagre,
Nem com reza a Santo Antônio!
Pretendo entrar no teu couro!
E nisto ouviu-se um estouro!
Gritou a velha: — Jesus!
Ligeira se ajoelhou
E, depois, se persignou
E rezou o Credo em cruz!
Nisto, o diabo fugiu.
E, quando a velha se ergueu,
Ele chegou de mansinho,
Dizendo logo: — Sou eu!
Agora sou teu amigo
Quero andar junto contigo,
Mostrar-te que sou fiel.
Minha carta, queres ver?
A velha pediu pra ler
E apossou-se do papel.
— Dê-me isto! grita o diabo,
Em tom de quem sofre agravo.
Diz a velha: — Não dou mais!
Tu, agora, és o meu escravo!
Disse o diabo: — Danada!
Meteu-me numa quengada!
Sou agora escravo dela!
E disse com humildade:
— Dê-me a minha liberdade,
Que esticarei a canela!
Disse a velha: — Pé de pato,
Farás o que te mandar?
Respondeu: — Pois sim, senhora,
Pode me determinar,
Porque estou no seu cabresto
Carregarei água em cesto,
Transformarei terra em massa,
Que para isso tenho estudo;
Afinal, eu farei tudo
Que a senhora disser — faça!
Disse a velha: — Vá na igreja,
Traga a imagem de Jesus.
Respondeu: — Posso trazê-la,
Mas ela vem sem a cruz,
Porque desta tenho medo!
Disse a velha: — Volte cedo!
Ele seguiu a viagem
E ao sacristão iludiu:
Uma estampa lhe pediu
Que só tivesse uma imagem.
A velha, então, conheceu
Do cão o quengo moderno,
E, receando que um dia
A levasse para o inferno,
Para algum canto o mandou
E em sua ausência traçou
Com giz uma cruz na porta.
Voltou o cão sem demora,
Viu a cruz, ficou de fora,
Gritando com a cara torta.
Gritou o cão no terreiro:
— Aqui não posso passar!
Venha me dar minha carta,
Quero pro inferno voltar!
Disse a velha que não dava,
Mas ele continuava
A rinchar como uma besta.
— Pois fecha os olhos! ela diz.
Ele fechou e, com giz,
Fez-lhe outra cruz bem na testa!
Aí entregou-lhe a carta
E o demo pôs-se na estrada,
Dizendo com seus botões:
— Não quero mais caçoada
Com velha que seja sogra,
Porque ela sempre nos logra!
Foi, assim, a murmurar.
Quando no inferno chegou,
O maioral lhe gritou:
— Aqui não podes entrar!
— Então, já não me conhece?
Perguntou ao maioral.
— Conheço, porém, aqui
Não entras com tal sinal:
Estás com uma cruz na testa!
Disse ele: — Que história é esta?
Que é que estás aí dizendo?
Mirou-se dum espelho à luz:
Quando distinguiu a cruz,
Saiu danado, correndo!
E, na carreira em que ia,
Precipitou-se no abismo,
Perdeu o ser diabólico,
Virou-se no caiporismo,
Pela terra se espalhou,
Em todo lugar se achou,
Ao caipora encaiporando,
Embaraçando seus passos
E com traiçoeiros laços
As sogras auxiliando...
Deste fato as testemunhas
Já disse todas quais são.
Agora, quer o senhor
Saber se é exato ou não?
Invoque no espiritismo
Ou pergunte ao caiporismo,
Este que sempre nos logra,
Se sua origem não veio
Do diabo imundo e feio
E do quengo duma sogra!
*
Flor do Dia
Alevanta, meu amor
Desse bom dormir
Chame sua mãe
Para me acudir
Levantou-se ele
Sem mais descanso
Foi selando logo
Seu cavalo branco
— Deus vos salve, mãe
No vosso estrado
— Deus vos salve, filho
No vosso cavalo
Apeia pra baixo
Jantar um bocado
— Não quero jantar
Que vim a chamado
Que a Flor do Dia
Lá ficou de parto
— De mim para ela:
Um filho varão
De espora no pé
E espada na mão
Rebente por dentro
Pelo coração
— Flor do Dia
Faça por parir
Minha mãe está doente
E não pode vir
Alevanta, amor
Desse bom dormir
Chame minha mãe
Para me acudir
Que ela mora longe
Mas sempre há de vir
Grande dor, marido
É dor de parir!
— Deus vos salve, sogra
No vosso estrado
— Deus vos salve, genro
No vosso cavalo
Apeia pra baixo
Jantar um bocado
— Não quero jantar
Que vim a chamado
Que a Flor do Dia
Lá ficou de parto
— De mim para ela:
Um filho estimado
Que eu veja no trono
Um bispo formado
Espera lá, meu genro
Deixa-me vestir
Que ela mora longe
Mas sempre hei de ir
— Pastor de ovelhas
Que sinal é aquele
Que está dobrando?
— É dona Estrangeira
Que morreu de parto
Sem haver parteira
— Aquele sino
Não cessa de dobrar
Nem meus olhos
Também de chorar
Adeus, minha filha
Do meu coração
Que morreu de parto
Sem minha bênção
Adeus, milha filha
Que eu vinha te ver
Quem não tem fortuna
Mais val ao nascer
Colhida em Recife.
*
Pitoco
(Nhô Bentico e Abílio Victor)
Pitoco era um cachorrinho
qu'eu ganhei do meu padrinho
numa noite de Natá-
era esperto, muito ativo,
tinha dois zóio bem vivo,
sartando pra-cá, pra-lá.
Bem cedo me levantava.
Pitoco que me acordava
c'os latido, sem pará,
me fazia tanta festa,
lambia na minha testa,
quiria inté me bejá.
Nos dumingo, bem cedinho,
pegava meu bodoguinho,
os pelote no borná.
Pitoco corria na frente,
dano sarto de contente,
rolano nos capinzá.
Aquele devertimento
de grande contentamento
ia inté no sor entrá.
Era dumingo de mêis
e dia de Santa Ineis: --
tinha festa no arraiá.
Minha mãe, as criançada
tudo de rôpa trocada,
na capela foi rezá;
fugino por ôtra estrada
c'o Pitoco fui caçá.
Hoje, dói minha concência,
pra morde a desobidiência.
Pitoco latia... latia,
mostrano tanta alegria,
sem nada podê cismá;
i eu tacava um pelote,
fazeno virá cambóte,
um pobre cara-cará.
Pitoco me acumpanhava;
de veis in quano sentava
e quiria adivinhá...
De repente fiquei fria
Gritei pr'a Virge Maria,
que pudia me sarvá.
Uma urutu das dorada,
num gaio dipindurada
tava pronta pra sartá!
Pitoco ficô arrepiado,
ficô c'o zóio vidrado
e deu um sarto mortá: --
se cumbateu c'a serpente,
repicô tudo de dente,
mais num pôde se escapá.
Pitoco morreu latindo,
os zóio vivo, tão lindo,
foi fechano devagá;
parece qu'inté se ria
da minha patifaria
de num podê le sarvá.
E neste mundo tão oco,
unde os amigo são pôco,
despois que morreu Pitoco
nunca mais tive outro iguá!
*
(O boi Barrosso foi publicado em Meyer, Augusto. Cancioneiro gaúcho.
Rio de Janeiro, Editora Globo, 1952 (Coleção Província, 2); O boi Surubim, A
nau Caterineta; A velha Bizunga e Flor do Dia em Romero, Sílvio.
Cantos populares do Brasil. Coleção Documentos Brasileiros. Rio de
Janeiro, Livraria José Olímpio Editora, 1954; O rabicho da Geralda e
Boi Pintadinho em Carvalho, Rodrigues de. Cancioneiro do norte.
3ª ed. Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1967; A vida de
Pedro Cem em Cascudo, Luís da Câmara. Vaqueiros e cantadores. Rio
de Janeiro, Ediouro, sd; O casamento do rato com a Catita e A sogra
enganando o diabo em Barroso, Gustavo. Ao som da viola (folclore);
nova edição correta e aumentada. Rio de Janeiro, 1949; O tatu em Lopes
Neto, J. Simões. Cancioneiro guasca; antigas danças, poemetos, quadras,
trovas, dizeres, poesias históricas, desafios. Porto Alegre, Editora Globo,
1954. (Coleção Província, 6))