Setembro 2010 - Ano XII - nº 140
Colhidos por Jerônimo B. Monteiro e publicados em sua coluna Lendas, mitos e crendices.
O carneiro encantado
No lugar Passagem de Santo Antonio, Maranhão, fronteira com o Piauí, margem do rio Parnaiba, os viajantes vêem um carneiro gigantesco com uma estrela resplandescente na testa... Às vezes o brilho da estrela parece extinguir-se, mas bruscamente se aviva com luminosidade deslumbrante.
Dizem que há muito tempo, os ladrões assassinaram um monge missionário que voltava ao convento carregado de esmolas. Mataram e roubaram o frade. Terminando o crime, tocados pelo remorso, resolveram sepultar o cadáver enterrando também as esmolas junto com o corpo.
De vez em quando o monge aparece durante a noite, transformado no grande carneiro branco e tendo na testa estrela deslumbrante símbolo da pureza enterrada.
O macaco e a cutia
Contam que uma vez, a cutia deu uma festa em sua casa e convidou todos os animais seus amigos. O macaco também foi. Quando chegou lá a cutia, de sabida, deu-lhe uma viola e disse-lhe que tocasse. E o macaco foi tocando enquanto os outros dançavam.
A cutia entrou na dança, muito assanhada e, quando girava com muita força, bateu com o rabo na parede e partiu-o. Então todos os animais que tinham rabo ficaram com medo e pararam de dançar.
Foi então que o preá disse:
— Ora! Vocês estão com medo de dançar! Toque aí, macaco! Vão ver como é que se dança.
O macaco meio desconfiado, trepou num tamborete e continuou a tocar para o preá dançar. Este, muito animado deu umas voltas pela sala e depois, foi dar uma umbigada no mestre macaco, que não teve jeito senão entrar na dança das cutias e dos outros bichos. Aí é que foi. Todos lhe pisavam o rabo até que meio zangado, o macaco parou de dançar e gritou:
— Não danço mais! Isso é um desaforo! O compadre preá, o compadre sapo e outros compadres, só porque não têm rabo, pensam que podem pisar no rabo dos outros! Chega!
E pulou para cima da janela, onde continuou tocando sem ser mais incomodado.
A cascavel e a surucucu
Contam que certa vez houve uma reunião de cobras e serpentes. Num recanto da mata, ao cair da tarde, as comadres rastejantes contavam uma às outras as suas proezas. E eram exclamações, risadas, silvos de assustar qualquer animal que passasse a uma légua de distância. Perto do olho d´água, afastadas das demais, a cascavel e a sucuri, inegavelmente as rainhas das serpentes conversavam, animadas. Cheia de fingida modéstia, dizia a cascavel:
— Bem... eu não faço nada demais. Mas o coitado do bicho que sente a picada dos meus dentes, ou morre, ou fica aleijado para o resto da vida. Não escapa mesmo.
A surucucu deu uma risadinha de mofa, como quem diz "grande coisa" e, depois com indiferença falou:
— Comigo é diferente. Quando finco os dentes em qualquer bicho, humano ou não, tenho de correr depressa, para que o cadáver não caia em cima de mim.
O que os sapos dizem
Quando, pelas noites serenas os sapos coaxam à beira das lagoas, muita gente pensa que eles apenas coaxam, sem razão. Mas não é assim. Os sapos velhos dizem:
— Quando eu morrer... Quem vai comigo?
Os sapos novos ficam bem caladinhos. Depois, o sapo velho torna a coaxar:
— Quando eu morrer... quem fica com a minha mulher?
E aí, toda a saparia nova grita:
— Eu, eu.
— Eu, eu.
— Eu, eu.
É isso que os sapos coaxam à beira das lagoas. Todas sabem.
A raposa e as aves
Contam que um dia a galinha estava ciscando embaixo de uma goiabeira quando lhe caiu uma goiaba na cabeça. A galinha levou um susto tremendo e gritou:
— Có-có-có-có! Vamos fugir amigo galo! O mundo está acabando!
— Quem lhe disse isso? — perguntou o galo.
— Foi uma coisa que caiu no meu cocuruto — E os dois saíram correndo como doidos. Mais adiante encontraram o peru, o o galo disse:
— Corra, amigo peru. O mundo está acabando!
— Quem lhe disso isso, amigo galo?
— Foi a amiga galinha.
— E quem disse à amiga galinha?
— Foi uma coisa que caiu na cabeça dela.
Os três saíram correndo. Um pouco mais adiante encontraram o pato, e o peru convidou-o a correr, contando-lhe a história. O pato juntou-se a eles e correu também. Depois encontraram o ganso, a marreca, a saracura e outras aves e todos seguiram na carreira, até encontrarem a raposa.
— Fuja, amiga raposa! O mundo está se acabando!
— Quem lhe disse isso, amiga saracura?
— Foi a amiga marreca.
— Que lhe disse isso, amiga marreca?
— Foi o amigo ganso.
— Quem lhe disse isso, amigo ganso?
— Foi o amigo pato.
Assim, de um em um, até chegar à galinha, que respondeu:
— Foi uma coisa que caiu no meu cocuruto.
— Então, vamos. Venham comigo — disse a raposa. E todos se puseram a correr de novo, até chegarem à casa da raposa.
— Entrem na minha casa e fiquem escondidos, — disse ela, parando à porta. Passado algum tempo, a raposa falou:
— Acho que não há mais perigo, mais é preciso cuidado. Agora, venham saindo, mais, um a um, quando eu chamar.
E ela ia chamando, um a um e comendo um a um... Não sobrou nada. Já vê que o mundo acabou mesmo para eles. A galinha tinha razão.
Lenda do flamboyant
No silêncio da floresta ouvia-se uma voz chorando, amargurada. Era uma árvore que chorava a tristeza de não ter flores.
Tupã ouviu-a e, condoído daquela angustia, resolveu mudar a sorte da pobre árvore. E sentenciou:
— Que os raios de fogo do sol ardente transformem os verdes ramos em milhares de flores rubras!
E imediatamente tal aconteceu. A galharia das grandes árvores da floresta afastou-se e o sol, incidindo sobre a árvore que chorava, realizou o milagre: a copa verde do flamboyant transformou-se num lindo ramalhete de flores vermelhas, fulgurantes.
Tamandaré e o dilúvio
A lenda do dilúvio é universal. Nossos índios também têm uma lenda em que o dilúvio comparece para castigar os homens e em que há um Noé que salva a raça da extinção total. Entre diversas versões dessas lendas, damos a de Olavo Bilac (Contos pátrios):
Tupã para fazer o céu e a terra, começou criando as mães de tudo. O Sol é mãe do dia e da noite: a Lua é mãe das plantas e dos animais. Os homens nasceram e foram maus. Tupã, para castigar a sua maldade, mandou que as águas crescessem desmedidamente e cobrissem tudo. Então, viram-se os peixes nadando entre as folhagens das árvores e as onças boiando sobre a vastidão das ondas crescidas. E os homens fugiram de monte em monte. E o céu se abria em relâmpagos e em assombrosas quedas de água. Mas um varão forte que Tupã amava — um varão de alma grande, que tinha o nome de Tamandaré, salvou a raça, guardando em uma canoa os seus filhos, livrando-os do naufrágio espantoso.
A onça e a chuva
A onça e a chuva estavam discutindo. Cada uma delas achava que os homens tinham mais medo de uma que da outra. Dizia a onça:
— É de mim que os homens tem medo. Vá perto daquela cabana onde estão aqueles homens na porta e veja como eles têm medo.
A chuva foi e ficou esperando. A onça veio, berrando e os homens disseram:
— Uma onça. Amanhã vamos flechá-la e eu tirarei o couro para minha escarcela - E nem ligaram.
A onça foi encontrar-se de novo com a chuva e esta lhe disse o que ouvira. Depois acrescentou:
— Mas de mim eles têm medo. Quer ver? Vá lá e escute.
A onça foi, sentou perto da cabana e ficou ouvindo. Aí, a chuva veio chegando. E os homens, levantando-se para se recolher e disseram:
— Vamos fugir, que a chuva vem vindo.
E a onça viu que os homens têm mais medo da chuva do que da onça. E assim é até hoje. Eles atacam a onça, mas fogem da chuva.
O marido da estrela
Zapalo quis um dia casar-se com uma estrela. Ela desceu à terra e casou-se com ele. Mas como na terra não havia alimento próprio para a estrela, ela fez o marido subir num pé de bacaba e subiu com ele. Depois, a árvore começou a crescer e cresceu até chegar ao céu. Ela queria que seu marido ficasse com ela no céu. Mas no céu não havia alimentos próprios para o homem e ele quis voltar à terra. Então fizeram um grande pote e amarraram nele uma longa corda. Zapalo entrou no pote e começaram a descê-lo pela corda. Quando estava perto da terra, largaram a corda. O pote caiu e quebrou-se. Os pedaços do pote viraram jabutis e cágados e a corda transformou-se em cobra. E foi assim que apareceram os jabutis, os cágados e as cobras, que antes não existiam.
O urubu e o sapo
Certa vez, o urubu e o sapo foram convidados para uma festa no céu. Todos os pássaros tinham sidos convidados e estavam contentes. O urubu, querendo caçoar do sapo, foi à casa dele e falou-lhe:
— Ei, compadre sapo! Já sei que você também vai à festa no céu! Quero ir em sua companhia.
— Pois não, compadre urubu — respondeu calmamente o sapo — contanto que você leve a sua viola.
— Como não? Contanto que você leve seu pandeiro.
Combinaram que o urubu viria buscar o compadre no dia seguinte.
No dia da festa, o urubu chegou à casa do sapo e foi muito bem recebido. O sapo mandou-o entrar, para ver a comadre e os afilhados. E enquanto o urubu estava entretido, o sapo entrou na viola do urubu, dizendo:
— Até logo, compadre. Como ando devagar, já vou indo.
E ficou bem quietinho dentro da viola do urubu. Dali a pouco o urubu despediu-se da comadre e dos afilhados, pegou na viola e voou para o céu.
Quando chegou, perguntaram-lhe pelo compadre, mas o urubu disse:
— Ora, ele não vem, nada. Se anda tão devagar lá em baixo, como há de voar?
Quando o urubu deixou a viola num canto, o sapo saltou de dentro e apareceu entre os convidados, gritando:
— Pronto, gente! Aqui estou eu!
Todos se admiraram de ver o sapo naquelas alturas mas, pouco depois, começaram a dançar e a brincar, esquecendo-se dele. Mas a festa acabou e chegou a hora de voltar. Novamente o sapo, sem ser visto, meteu-se na viola do urubu, que largou vôo para a terra. Mas o sapo moveu-se dentro da viola, o urubu ouviu e virou o instrumento de boca para baixo. Então o sapo despencou lá de cima e, enquanto caia, gritava:
— Arreda pedra, senão você se quebra!
— Ora essa! — exclamou o urubu rindo — Não é que o compadre sapo sabe mesmo voar?
O sapo caiu, esborrachou-se e esfolou-se todo. Por isso é que ele é assim como o vemos hoje.
O mauari e o sono
Mauari (Ardea Maguari) é um pássaro que não tem pouso certo. Quando pousa, durante o dia ou à noite, em qualquer lugar, começa logo a cochilar e, então, como que sacudido por um susto, levanta vôo subitamente, espantando.
Contam que o mauari, certa vez, querendo matar o sono esperou-o pousado no galho de uma árvore. Enquanto esperava, ia resmungando:
— Vou matar esse sono! Vou ficar vigilante. Tenho de matá-lo!
Não demorou muito viu um vulto que se aproximava.
— Acho que é o sono que vem vindo aí...
Quando o vulto estava bem pertinho e o sono bem próximo, o mauari cochilou, mas acordou de repente, agitou as asas e voou, gritando:
— Cuá! Cuá! Cuá! — e foi para longe dizendo: — Ora vejam o meu coração! Eu cochilei e o sono fugiu. Mas não faz mal. Vou esperá-lo de novo!
Pousado noutra árvore, esperou e esperou. Foi vendo novamente, ali perto, uma escuridão que se aproximava.
— Aí vem ele de novo! — disse consigo — Agora eu o pego com o meu bico!
A escuridão já vinha bem perto quando o mauari cochilou e, de repente, abriu os olhos, assustado e levantou vôo, gritando:
— Cuá! Cuá! Cuá!
E assim acontece sempre, desde a antiguidade.
A preguiça, o quati e a juriti
Contam que a preguiça é muito preguiçosa, não quer fazer nada, não quer trabalhar e trabalha só de comer. Os outros animais não gostam disso e é por esse motivo que se zangam com a preguiça sempre que a encontram.
Um dia, o quati mandou a preguiça fazer um serviço, mas a preguiça não quis saber de trabalhar, só quis comer. O quati insistiu, insistiu, depois ficou zangado e começou a bater na preguiça, que não pôde fugir e se pôs a chorar.
Estava a preguiça chorando quando chegou a juriti e perguntou:
— Por que está chorando desse jeito, preguiça?
— É que o quati me mandou fazer um serviço e como eu estava com preguiça, ele deu muito em mim.
A juriti ficou com muita pena da preguiça e começou a chorar com ela.
Pouco depois, o quati voltou e tornou a surrar a preguiça, dizendo:
— Preguiça mais preguiçosa! E pare de chorar, senão vai apanhar mais.
A juriti, que se tinha escondido, ouviu aquilo e ficou muito zangada. Começou a pensar num meio de castigar o quati e resolveu fazer uma armadilha. Arrumou uma porção de pedaços de pau e fez um mundéu no caminho que o quati costumava percorrer. Pouco depois, o quati veio vindo, não viu a armadilha, caiu nela e ficou preso. Fez tudo o que pode para escapar mas, depois de muito tempo, nada tendo conseguido, começou a chorar e a gritar.
A juriti ouviu os seus gritos e se aproximou:
— Olá, seu quati, porque está chorando tanto?
— Estou chorando porque a preguiça fez uma armadilha no meio do caminho, eu caí nela e quase morri. E agora não posso escapar.
— A preguiça fez isso porque você deu nela.
— Quem lhe disse isso? — Perguntou o quati, espantado.
— Eu mesma vi. Você gostou de bancar o valente. Agora, está pagando por isso.
E a juriti foi embora, deixando o quati a chorar e a debater-se na armadilha. Chegou ao lugar da preguiça e contou-lhe o que acontecera.
A preguiça gostou. Riu muito e disse:
— Muito bem feito. Se ele conseguir escapar da armadilha e vier para cá, nós bateremos nele de novo!
(O carneiro encantado e O macaco e a cutia: O Estado do Paraná, Curitiba, 06 de dezembro de 1951; A cascavel e a surucucu, O que os sapos dizem e A raposa e as aves: Folha de São Paulo, São Paulo, 12 de fevereiro de 1959; Lenda do flamboyant e Tamandaré e o dilúvio: Folha de São Paulo, São Paulo, 04 de julho de 1959; A onça e a chuva e O marido da estrela: Folha de São Paulo, São Paulo,13 de julho de 1959; O urubu e o sapo e O mauari e o sono: Folha da Tarde, São Paulo,15 de agosto de 1959; A preguiça, o quati e a juriti: Folha Ilustrada, São Paulo, 19 de agosto de 1959)