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São Tomé na América

 

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Setembro 2009 - Ano XII - nº 128

Edição Especial: Café e Mate

São Tomé na América

Luís Carlos Lessa

Quando, em 1624, os padres Montoya e Mendoza fundaram a vila de Encarnación, importante missão jesuítica posteriormente destruída, tiveram curiosidade em saber o que pensavam os silvícolas a respeito do mate, bebida que já constituía um hábito característico do Paraguai. Tiveram por resposta que a erva-mate lhes servia de alimento e remédio desde o dia em que Pai-Zumé, um estranho personagem que há muito tempo estivera naquelas tabas, lhes ensinara como aproveitar as folhas da caá, (que até então julgavam venenosas), e como usufruir delas todos os efeitos medicinais. Contavam também os indígenas que Zumé era um homem poderoso: as selvas brutas conservavam intacto o caminho por onde ele passara, desde o Tibagi até o Piquiri; e às margens deste rio, Zumé havia deixado, numa pedra, o sinal de seus pés — testemunho eterno de sua passagem por aquelas terras.

Os dois jesuítas logo aliaram a figura de Zumé à pessoa de São Tomé, o apóstolo que provavelmente teria visitado o continente americano, pregando a doutrina de Cristo. A versão cristianizada da lenda logo se espalhou entre as populações brancas, e em breve era voz corrente que a erva-mate havia sido descoberta e bendita pelas mãos de São Tomé. Isto é o que vamos encontrar em muitos livros da época, a iniciar-se pelo Tratado sobre o uso do mate no Paraguai, escrito pelo licenciado Diego Zevallos em meados do século XVII e publicado em Lima no ano de 1667.

Lozano, no capítulo VIII de sua Historia de la conquista del Paraguay, também se refere a São Tomé, narrando que, durante uma terrível peste que assolara as tribos guaranis, foi aquele santo o salvador do gentio, ensinando-lhes como preparar a erva-mate, eficaz remédio contra aquela. epidemia e muitas outras doenças.

A peste foi vencida, e a milagrosa bebida, cujo uso se generalizara por todas as tabas guaranis, continuou a prestar inúmeros benefícios.

E por muito tempo os silvícolas guardaram na memória a figura daqueele bom Zumé, que um dia, apesar das súplicas e protestos gerais, teve de deixar as terras do Paraguai.

Santo Tomé les responde:
"Os tengo que abandonar
Porque Cristo me ha mandado
Otras tierras visitar.
En recuerdo de mi estada
Una merced os he de dar,
Que es la yerba paraguaya
Que por mi bendita está"

Santo Tomé entró en el rio
Y en peana de cristal
Las aguas se lo llevaron
A las llanuras de1 mar.
Los indios, de su partida
No se pueden consolar,
y a Diós siempre están pidiendo
Que vuelva Santo Tomâs.
(Folclore paraguaio)

(Lessa, Luís Carlos. "Chimarrão". Em Revista do Arquivo Municipal. São Paulo, ano 11, nº 155, janeiro-março de 1955, p.421-422)

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