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Réplicas populares

Fausto Teixeira

Em nosso artigo anterior focalizamos uma trintena de advertência populares encontradiças na linguagem de nossa gente, de natureza, evidentemente, tradicional. Sem dúvida, o assunto interessa não só a folcloristas como também a filólogos.

Desta feita vamos registrar uma pequena série de réplicas populares, que são certas fórmulas definidas de réplicas empregadas freqüentemente na conversação usual. Elas se explicam, como acontece também com numerosas advertências populares, por um conhecido processo de falsa analogia pelo qual um dos interlocutores, deturpando o sentido de uma ou mais palavras mal ou bem pronunciadas, apresenta uma réplica de caráter ridicularizante, irônico ou satírico, ou apenas visando efeito de rima ou humorismo.

Com muita erudição, Lindolfo Gomes, João Ribeiro e alguns outros mestres do folclore e da filologia, já estudaram boa porção de peças deste feitio. Às suas valiosas contribuições juntamos a nossa despretensiosa e modestíssima achega.

Nosso exemplário de réplicas populares alcança a trinta peças, todas recolhidas da linguagem oral popular de Minas Gerais, ainda que saibamos serem algumas correntes em outras partes de nosso país.

1. Não é de sua conta!
– Nariz de três pontas; pegue na pena, vá fazer sua conta!

2. Que me importa!
– Bata com o nariz na porta e "vorta".

3. Bem feito!
– Seu nariz tem defeito!

4. Você pode, é rica!
– Rica.. de pulga e bicho!

5. Quem quer?
– Eu!
– Vá querendo, passe a mão no chão e vá lambendo!

6. Estou pensando.
– De pensar morreu um burro!
Nota: o verbo pensar tem duplo sentido: meditar, raciocinar e cuidar de ferimento, tratar um doente.

7. Lá vou!
– Lavou? Bota no sol pra enxugar!

8. Obrigado!
– Não briga por tão pouco.

9. Que isso?
– Chouriço pra comer no seu serviço.

10. Estou com fome.
– Mata um "home" e "come".

11. Onde?
– Na casa do conde!

12. Que horas são?
– Coração? "Tá" aqui (põe a mão no peito). Também se diz – Falta dez réis pra tostão.

13. Não gosto?
– Coma menos!

14. Que há de novo
– Muita galinha e pouco ovo.

15. Lá tinha!
– Latinha de que doce?

16. É minha!
– Eminha é filha de ema.

17. Ah, não!
– Anão é um homem pequeno.

18. Deixa eu ver?
– Pode chover, mas não aqui.

19. Nada!
– Nada é peixe, quando "come" não me deixa e se comer não se queixe.

20. Não dou!
– Deixe estar, seu dia há de chegar; a lagoa há de secar e o sapo passar "mar".

21. Bobo!
– Bobo é ovo, põe na mesa e não chega pro seu povo.

22. Coitado!
– Coitado é morfético! Também se diz: Coitado é filho de rato.

23. Viva a fartura!
– Que a miséria ninguém atura!

24. Que vida boa!
– Vida boa morre no prato raso!

25. Atchim (espirrando)
– "Dominus tecum", teu pai é um marreco!

26. Me dá!
– Dar dói e chorar faz pena.

27. Por favor! (Diz quem pede alguma coisa).
– Sinto até os ossos, mas chorar não posso!

28. Não vai! (Negativa que exprime dificuldade em realizar algo)
– Ou vai ou racha, ou arrebenta a caixa!

29. Que marca você fuma? (O filante pedindo um cigarro).
– "Simidão Aceso". (Se me dão, aceso).

Gostaríamos de conhecer réplicas populares em outras línguas ou comuns a outros povos, para sabermos quais são os produtos da imaginação popular de nossa gente e quais são de legítima importação estrangeira.

 

 

(Teixeira, Fausto. "Réplicas populares". Diário de Minas. Belo Horizonte, 11 de fevereiro de 1951)

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