Das histórias que conheço
Esta me causou espanto
Em gracejos nunca vi
Uma que chegasse a tanto
Dum velhaco vagabundo
Que nunca pagou no mundo
Nem mesmo promessa a santo
Chama-se esse velhaco
Manuel da Silva Cruz
Pra enganar todo mundo
Tinha piano e muita luz
Dizia a se pabular
A fim de não trabalhar
Eu engano até Jesus
Este cabra caloteiro
Vivia só de enganar
Comprava fiado tudo
E quando iam cobrar
Ele respondia assim:
O negócio está ruim
Deixe o tempo melhorar
De formas que nessa terra
A todo mundo devia
Que ficou em condições
Que ninguém mais lhe vendia
Perdeu toda a confiança
E ficou sem esperança
De comprar na freguesia
Chamou a mulher e disse
A coisa ficou ruim
Fiado não compro mais
Sei que levaremos fim
Eu hoje faço que morro
Você vai pedir socorro
Pedindo perdão por mim
Saía gritando na rua
A quem Manuel deveu
Peço a todos que perdoem
Qu'ele às dez horas morreu
Não deixou com que pagar
Todos podem perdoar
O pobre marido meu
E depois que perdoarem
Todos sem faltar alguém
Amanhã eu envievesso
Não devo nada a ninguém
Tudo fica admirado
Continuo a comprar fiado
Desse jeito nos convém
Porém eu vou te avisar
Veja, não fique esquecida
Mande enterra meu caixão
Porém fique prevenida
Não deixa a cova entupir
Para de noite eu sair
Continuar nova vida
Naquele tempo existia
Uma moléstia que dava
Ali em qualquer pessoa
Parecendo que matava
O botavam no caixão
E dentro da cova então
O morto ressuscitava
Por isso muitos deixaram
A cova por entupir
No outro dia é que vinham
Puxar a terra e cobrir
Um parente examinava
Se o que ali repousava
Deixou mesmo de existir
Tratamos sobre o velhaco
Quando acabou de dizer
Tudo direito à mulher
Como havia de fazer
Disse mais: não faça asneira
Deitou-se em uma esteira
Começou logo a gemer
Gemeu até ficar rouco
Deu-lhe logo um passamento
Trouxeram então uma vela
E um crucifixo bento
Botaram a vela na mão
Faltou a respiração
Morreu no mesmo momento
Fez mesmo que estava morto
A mulher saiu gritando
Marido dela morreu
Peço que vão perdoando
Quem perdoar de verdade
Não ficará se assombrando
Então todos respondiam
Por mim está perdoado
Deus lhe bote ele no céu
E tenha todo cuidado
Se não ele faz arranjos
E até mesmo os anjos
Comprará tudo fiado
Porém havia um caboclo
Muito forte e destemido
Que nunca temeu a nada
Só por viver prevenido
Em qualquer ocasião
Mas emprestou meio tostão
Ao que tinha morrido
Disse à mulher: seu marido
Morreu, ficou me devendo
Não pagou porque não quis
Isto eu muito compreendo
Morro sem o perdoar
Ele tem que me pagar
No inferno derretendo
Disse o caboclo consigo
Ele hoje vai me pagar
Vou à noite ao cemitério
Só a fim de me vingar
Dou-lhe um tiro na cabeça
E digo cabra conheça
Pra nunca mais me enganar
Embora ele esteja morto
Porém pode reviver
É bom levar uma bala
Para ele conhecer
Que o caboclo Libério
Mata até no cemitério
Faz e não manda fazer
Então levaram o velhaco
Como um corpo sem vida
Botaram dentro da cova
Mas não deixaram entupida
Da madrugada (uma hora)
O caboclo sem demora
Foi chegando na batida
O caboclo já trazia
O seu bacamarte armado
Para atirar no defunto
Porém ficou estancado
Porque viu de supetões
Entrar ali três ladrões
Com um saco bem pesado
O caboclo retraiu-se
Pra ver de que se tratava
Um deles pegou no saco
Ali perto despejava
Com o maior desadouro
Caiu tanta prata e ouro
Que tudo se iluminava
Decidiram em três quinhões
O níquel, a prata e o ouro
Também tinha uma espada
Que valia um tesouro
Com as pedras mais faiadas
Das que foram fabricadas
No tempo que havia mouro
Vai um dos ladrões e diz
Quem fica com esta espada?
Respondeu o outro: eu não quero
É grande e muito pesada
Além disso, é conhecida
E com ela a minha vida
Vai ficar muito arriscada
Um dos tais disse: é verdade
Não devemos querer ela
Olhe ali tem um defunto
Um pega no cabo dela
Faz o serviço sem dó
Empurra no fiofó
Que a ponta fique na guela
O velhaco estava ouvindo
Os três ladrões conversando
Teve um medo que tremia
De febre ficou queimando
Queimava que só urtiga
Já sentia na barriga
A espada transpassando
Disse um ladrão, vamos logo
Pegaram o camarada
Um na perna, outro na outra
O outro com a espada
Disse um: faça bem feito
Empurre com muito jeito
Pra ficar bem enterrada
Quando o velhaco se viu
Naquela hora apertada
Disse lá com seus botões
A coisa está envergada
Estrebuchou assombrado
Deu um grito tão danado
Que a terra foi abalada
Os ladrões disseram: vôte
Oh! defunto excomungado
Soltaram ele e correram
O defunto amortalhado
Levantou-se bem ligeiro
Para o lado do dinheiro
Foi caminhando apressado
O caboclo quando viu
Ele ajuntando o dinheiro
Disse: o ouro todo é seu
Porém me paga primeiro
Nesta mesma ocasião
Ou paga meu meio tostão
Ou entra no granadeiro
O caboclo disse: eu quero
Que você pague é o meu
Dá-me ao menos dois vinténs
Já que este dinheiro é teu
Os ladrões foram voltando
Ouviram as almas brigando
Um assombrado correu
Disse um: estás ouvindo
Pois de ouro aquela ruma
Lá existe tanta alma
Que quem for lá não se arruma
Quem vai mais é Lúcifer
Porque não toca se quer
Dois vinténs pra cada uma
O velhaco então pagou
O que o caboclo queria
Levou o resto pra casa
Pagou tudo a quem devia
Daí ficou descansado
Viveu comendo deitado
Até seu último dia
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