A região sudoeste da serra de Botucatu é a mais rica de toda a zona sul do Estado em matéria de mitos locais. Ali mesmo foi colhida a versão já publicada nesta página – "O encontro dos fogos.
Dentre os vários mitos locais, destaco, pela sua originalidade, o do gafanhotão. Nos trinta e nove mitos secundários arrolados por Câmara Cascudo, nada encontro que possa se aproximar e justificar, por uma versão adaptada ao espírito local, ao gafanhotão.
Foi narrador, Antônio M. de S., vendedor urbano de produtos rurais.
"Ninguém até hoje venceu um gafanhotão. Ele vive nas furnas da serra e entocado à beira dos atalhos e trilhas que grimpam os morros. O gafanhotão é tão grande que, em certas ocasiões, principalmente à noite, chega a ter o tamanho de um boi.
Prefere sair à cata de vítimas pela madrugada, preferentemente aos domingos, quando os roceiros "vão fazer a feira na cidade". Contra ele são absolutamente ineficazes os tiros, as facadas, cacetadas etc. Mas será afugentado por qualquer pessoa que agite em sua direção uma palma que tenha sido benta no Domingo de Ramos.
Salta para diante dos viajantes e brada: "Que bicho sou eu?" Se o perguntado responde: "Bicho bom", poderá seguir em paz o seu caminho. Se não souber ou não puder responder coisa alguma, ou se responder: "Bicho ruim", ou perderá a razão ou, o gafanhotão, saltando-lhe sobre a nuca, o imobiliza e chupa-lhe o sangue."
O narrador não se recorda do nome de nenhuma vítima, mas pode apontar (afirma que pode) várias pessoas que tiveram o trágico encontro. "Por isso – acrescenta – é que muita gente leva no arção da sela ou na dobra do lenço, nem que seja uma faísca de palma benta"
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