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Humor negro

Edigar de Alencar

O humor negro, se apresenta muito de perverso na sua capacidade de gracejar com o macabro ou o doloroso, nem por isso ou por isso mesmo é destituído de agudeza e inteligência.

Ninguém poderá negar o espírito das múltiplas e maldosas anedotas que correm mundo sobre loucos. E haverá nada mais triste e merecedor de respeito e temor pela loucura.

Noutro dia me contaram três ou quatro dessas historietas de que são tão férteis as grandes cidades, sobre leprosos... Confesso que não gostei.

Está sendo espalhada pelos jovens a historieta do rapaz que fora convidado para filmar com Brigite Bardot. A coisa ficara planejada e ao eufórico rapaz fora marcado o prazo até o dia 15 de determinado mês para o seu embarque, rumo ao local da filmagem. Todavia, esta viagem poderia não se realizar desde que o candidato recebesse até à véspera daquele dia telegrama em contrário. Se não recebesse poderia embarcar para iniciar as filmagens com a famosa estrelinha francesa, vedete do mundo.

O candidato combinou com colegas que se não viesse o telegrama até à véspera daria uma grande festa nesse dia. E assim aconteceu. Na noite de 14, a casa se encheu e haja farra. Comes e bebes, música, dança, orgia. Mas o prazo fatal só terminaria à meia-noite. Por isso a sensação era imensa. Às onze horas a campainha retine. Faz-se um silêncio de morte. Como se marchasse para a cadeira elétrica, o jovem se encaminha à porta e de lá traz, pálido e ansioso, o envelope do cabograma. Abre-o, nervoso, em tremuras, para depois berrar numa imensa e insopitada alegria: – Pessoal! não é nada não. Foi minha mãe que morreu!

* * *

O Diário de Notícias publicou há tempos umas pequena estória contada por Queneau (Raymond). Um condenado ao fuzilamento ao lhe ser oferecido um cigarro no minuto final responde, sereno: – Obrigado. Estou tentando deixar de fumar.

* * *

Já me referi certa feita ao suicida Agostinho Moura de Assunção, moço de 24 anos que deixou uma carta cheia de humor e clarividência. Entre outras coisas dizia o mancebo: "Senhores. Sou partidário do suicídio da humanidade. O mundo se torna cada vez mais insuportável. Deixemos o mundo. Mas levemos também os macacos, pois se trata de um bicho que, segundo Darwin, costuma degenerar em homem. E se os deixássemos ficaria ainda ao mundo a possibilidade se encher novamente de gente".

E, ainda prosseguia com outras tantas frases de espírito.

Nos corredores da Rádio Nacional, com a morte de três dos seus artistas no mês de agosto último [1962], uma delas em circunstâncias trágicas, houve quem pilheriasse, glosando um já famoso programa de rádio: – Francisco Alves está chamando!

No teatro, o humor negro é freqüente, Nelson Rodrigues, em O beijo no asfalto, põe um velório para despertar riso, embora o pranto convulsivo que de lá se escapa. E um dos atores provoca uma boa gargalhada da platéia, quando informa, com referência ao defunto: – Está exalando!...

Vejam a adequação perfeita do verbo.

Outro novo autor dramático, Wanda Fabian, faz humor negro durante todo o transcorrer de O enterro de Carolina, peça que teve da censura no Rio de Janeiro a maior propaganda.

Não será legítimo humor negro a perversidade que se derrama dos versos dos desafios sertanejos, nos quais os cantadores repentistas se comprazem em causticar e achincalhar os defeitos físicos, as infelicidades do adversário? São terrivelmente impiedosas e contundentes essas diatribes rimadas. Às vezes, contudo, é o próprio infeliz que ironiza. José Carvalho refere-se ao famoso cantador Patativa que só tinha um olho e que assim comentava o defeito:

A minha sorte comigo
foi bem cruel e tirana
só me consente enxergar
três dias numa semana.

Nas grandes catástrofes que de quando em vez, enlutam o Nordeste brasileiro, são freqüentes as manifestações de humor negro. O sarcasmo e a resignação dos flagelados juntam-se à inteligência e ao conformismo nos ditos e nos comentários mesclados de perversidade. Rodolfo Teófilo, na sua História das secas, pinta uma cena:

"Trôpegos, enfraquecidos, deformados pelas cicatrizes da varíola, saídos há pouco das pocilgas a que chamavam lazaretos, carregando pedras num percurso de sete quilômetros para ganhar uma ninharia os homens ainda tinham coragem de rir. Trocavam ditos zombeteiros. Metiam a ridículo a desgraça alheia. Riam da própria infelicidade. Se passava um companheiro a quem a bexiga destruíra o nariz diziam, entre risadas e motejos:

– Olha aquele diabo! As papocas comeram-lho tanto a venta que nem tem com que tome fôlego".

E não será do mais fino humor negro dizerem por essas bandas do desgraçado que há muito não come, que até já criou teia de aranha na boca?

É ainda no excelente José Carvalho que vou buscar a historieta com que remato essa conversa fiada.

O cearense encarregara um outro de matar um seu desafeto. Depois que o homem saiu para cumprir sua missão, o mandante se arrependeu. E toca a maturar. No outro dia como era domingo resolveu ir à igreja onde na certa encontraria o mandatário. Dito e feito. Lá estava ele, de joelhos, rezando. O cearense chegou-lhe ao ouvido e disse que não precisava mais liquidar o outro. Arrependera-se.

Mas o homenzinho informou, piedoso:

– Chegou tarde. Estava rezando por alma dele.

 

(Alencar, Edigar de. "Humor negro". O Povo. Fortaleza, 10 de novembro de 1962)

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