Na manifestação de suas idéias o barranqueiro vale-se de elevado número de frases feitas, que procedendo de fatos particulares, espontâneos, empíricos, vão tomando forma e sentido na linguagem, definindo-a, especificando-a.
A título de amostra, aponto algumas:
1. Aí é que a porca torce o rabo se não for rabicha: Aí é que está a dificuldade. Aí que está o nó da questão.
2. A troncos e barrancos: De qualquer modo. Estabanadamente. Como der e vier.
3. Bater na sala para o burro entender: Insinuar. Corresponde ao nosso "por tabela".
4. Boa sala e ruim camarinha: Expressão que qualifica pessoas de boa presença e de má ações. É uma expressão equivalente ao nosso "lobo com pele de cordeiro".
5. Cachorro também tem cabelo bom: Há brancos mal educados. Há brancos de ação preta.
6. Carregar água no balaio: Fazer muito por uma pessoa ou causa. Corresponde ao nosso "fazer o possível e o impossível".
7. Certo como boca de bode: Certíssimo. Infalível. Insofismável.
8. Comer o pão que o diabo amassou com o rabo: Sofrer muito. Sacrificar-se. Padecer por uma causa.
9. Contar manaíba (maniva) sem olho: Mentir.
10. Criar alma nova: Animar-se. Entusiasmar-se. Refazer-se de um susto.
11. Deu os pés e quer as mãos: Expressão aplicada às pessoas que abusam da confiança que se lhes dá.
12. Diabo à quatro (1): Expressão comum entre os barranqueiros, querendo dizer "ainda mais". Corresponde ao et coetera, ou ao nosso et coetera e tal.
13. Diabo à quatro (2): Esquisitices. Excentricidades.
14. Estar com rato roendo o estômago: Estar com fome. Sentir o estômago doendo por falta de alimento.
15. Gente fina: Pessoa dengosa. Pessoa que se agasta facilmente.
16. Hora do almoço brabo: Sol virando. As treze horas.
17. Inriba da letra (em cima da letra): No momento asado. Na hora oportuna.
18. Lá chove, cá corre: Expressão que indica superioridade, ou igualdade. Corresponde a "o que fede lá, cheira aqui", muito empregado na caserna entre militares do mesmo posto, ou graduação.
19. Na bacia das almas: Com facilidade. Barato. Corresponde ao nosso "um ovo por um real".
20. Não sou arara para comer coco sem bala: Não sou tolo.
21. Nem de longe com gancho: De modo algum. Nunca.
22. Passar mel na boca: Enganar. Embromar.
23. Podre de rico. Milionário. Muito rico. Capitalista.
24. Procurar chifre na cabeça de cavalo: Querer o impossível. Corresponde à frase latina Mulgero hircos, ordenar bodes. Ou ao nosso "procurar o que não guardou".
25. Quando a galinha nascer dente: Nas calendas gregas. Nunca.
26. Rato de gaveta: Ladrão de níqueis. Ladrão de pequenas coisas.
27. Saber onde o diabo amalha: Saber treta. Ser velhaco. Ser esperto.
28. Saber quem inventou a catranha: Ser ladino. Conhecer velhacarias.
29. Só no último furo: No extremo. Só quando se extinguirem todos os meios.
30. Tapar o sol com a peneira: Esconder aquilo que todo mundo já sabe.
31. Tem dente de coelho: Há segredo nisto. Há um ponto obscuro em tudo isto. Escondem algo, de propósito.
32. Tempos em que amarrava cachorro com lingüiça: No bom tempo. Quando havia fartura. Nos tempos antigos.
33. Tirar do caçador para dar a onça: Ser injusto. Dar a quem não precisa.
34. Vender farinha: Andar com a fralda da camisa à mostra.
35. Vira-folha: Pessoa inconstante. Pessoa volúvel.
36. Virar arcanfô (cânfora): Sumir. Desaparecer misteriosamente.
37. Abrir o pé: Correr. Fugir.
38. Abrir o tué: Chorar, falando-se de crianças.
39. Altos e mau: Sem escolha. Uns pelos outros. Misturado "Vendi o gado a razão de seiscentos mil réis, alto e mau".
40. Aos ósso da meia noite: A desoras. Horas mortas. Quando tudo é silêncio.
41. Apanhar barriga: Gravidar-se.
42. Bater a passarinha: Preocupar-se.
43. Bater as botas: Morrer.
44. Cabeça a baixo: Rio abaixo.
45. Cabeça a riba: Rio acima.
46. Café com mão na assadeira: Café sem biscoitos.
47. Capar o gato: Fugir. Correr.
48. Cara de um fucim de outro: Expressão depreciativa que se compara uma pessoa com outra a que está ligada.
49. Com efeito!: Exclamação que vale por reprimenda.
50. Comer como padre: Comer com apetite. Comer bem.
51. Dar cria: Parir, falando-se de animais.
52. Descer o mangue: Fazer força. Espancar.
53. Descer solta à toa: Descer (a embarcação) à mercê das ondas.
54. Ensinar padre-nosso a vigário: Pretender ensinar alguma coisa a quem conhece bem.
55. Entrar na arage: Fugir.
56. Entrar na capoeira: Fugir.
57. Entregar a rapadura: Morrer.
58. Espelho sem luz: Ralho com as pessoas que, descuidadamente, interceptam a alguém a visão de uma pessoa, animal ou coisa.
59. Estar com as tripas na miséria: Estar faminto. Ir mal de sorte.
60. Esticar as canelas: Morrer.
61. Falar cobras e lagartos: Falar mal de alguém.
62. Falar pramodes e quinéns: Falar errado. Falar à moda do catrumano.
63. Farinha do mesmo saco: Expressão pejorativa que compara uma pessoa com outra a que está ligada.
64. Fazer as barba de alguém: Surrar.
65. Fazer beijo de Judas: Fazer beiço. Fazer muxoxo.
66. Fazer xixi: Urinar, falando-se de crianças.
67. Ficar com a cara mexendo e o espinhaço sambando: Ficar sem graça. Cair em ridículo.
68. Ficar com a orelha em pé: Ficar cismado.
69. Ficar com a pulga atrás da orelha: Suspeitar.
70. Ir para a cidade de pés juntos: Ir para o cemitério. Morrer.
71. Jogar mourão: Diz-se de certo jogo que se faz quando se puxa o veio da roda de ralar mandioca por ocasião de desmanchas.
72. Lá se foi tudo quanto Marta fiou!: Exclamação muito usada pelo barranqueiro no momento em que perde algum serviço, quase terminado, ou em que toma um prejuízo. Dizem que a frase teve a seguinte origem: Pobre fiandeira chamada Marta conseguira dois mil réis em dinheiro com a venda de algumas quartas de linha que fiara em seguidos dias de trabalho. Querendo, agora mudar de ramo, comprou várias dúzias de ovos, com os quais encheu uma gamela e rumou para casa com o intuito de fazer quitandas. Mas, ao entrar em casa, tropeçou no batente e a gamela de ovos caiu-lhe da cabeça. Desconsolada, olhando o triste fim de suas economias, a pobre mulher exclamou: "Lá se foi tudo quanto Marta fiou".
73. Le com cré: Expressão deprimente que compara uma pessoa com outra a que está ligada.
74. Malhar em ferro frio: Insistir (alguém) inutilmente, sobre a aceitação de uma idéia, ou em ensinar alguma coisa a outrém.
75. Mentir como casa velha: Mentir amíúde.
76. Não atalhando sua proposta que prá adiante vai: Desculpe interrompê-lo.
77. No duro da cebola: Com exatidão. Sinceramente.
78. Outros galos me cantariam se...: Seria eu mais feliz se...
79. Pau d'água: Ébrio, beberrão.
80. Pau de agasalhar urubu: Gente má. Pessoa azarenta.
81. Perguntar a pescador qual é o peixe que morde: Ensinar a quem sabe.
82. Picar o fumo: Partir, fugir, correr.
83. Pintar o sete: Traquinar. Divertir-se muito.
84. Pôr na baia: Por algum objeto de uso pessoal ou doméstico, antes poupado no serviço diário.
85. Pru riba de queda coice: Sobre um mal, outro maior ainda.
86. Quebrar pau no ouvido: Fazer-se surdo. Fazer ouvido de mercador.
87. Riscar o animal: Frear a cavalgadura pomposamente.
88. Roer a corda: Faltar a um compromisso.
89. Saltar sete sepulturas: Escapar milagrosamente da morte, ou dum perigo.
90. Sangrar o pau: Fazer o primeiro talhe no tronco de uma árvore do lado que se quer que ela tombe.
91. Taquara rachada: Predicativo que se dá a uma pessoa de má voz, isto é, a uma pessoa que não sabe cantar. "Ela é uma taquara rachada"
92. Ter boca doce: Ser (alguém) habituado a falar palavras obscenas. Pornografar.
93. Ter cabeça boa: Ser de sorte nos empreendimentos, especialmente nos que dizem respeito à extração de óleos e tapioca, e ao fabrico de quitandas.
94. Tirar o pé do atoleiro: Fazer bom negócio. Sair da miséria, da pobreza.
95. Tomar o vento: Farejar. Pressentir.
96. Varão de estender tripa: Expressão pejorativa que qualifica pessoas muito altas e magras.
97. Vasilha ruim: Pessoa sem valia, gente sem nome.
98. Virar cascalho: Não arredar pé dum lugar ou duma idéia.
99. Virar um bofe: Arrear. Esmilingüir. Amolecer.
100. Vivo e morto: Insistente. Teimoso.
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