Terminando nosso ligeiro estudo sobre fraseologia popular, registramos hoje uma pequena série de comparativos comuns na linguagem usual de nossa gente.
Já tivemos ocasião de observar que as advertências, réplicas e depreciativos populares são enunciadas pelo processo de analogia e falsa analogia assim acontece também com os comparativos populares, tradicionais fórmulas que o povo conserva vivas na linguagem cotidiana.
Com grande precisão denunciando apreciável espírito de observação e de crítica, o homem do povo vem difundindo essas fórmulas estratificadas, com as quais procura melhor definir ou caracterizar indivíduos, coisas e ações.
Os recursos empregados nas comparações populares, deixam transparecer a necessidade que tem o povo de se expressar com maior precisão, utilizando-se de artifícios que complementam o significado normal dos vocábulos do vernáculo. Esses comparativos, portanto, nada mais são do que reforços de expressão, que completam a idéia que se deseja enunciar, sendo algumas fórmulas bastante ingênuas e outras de cunho claramente humorístico.
Vejamos algumas dezenas de fórmulas de comparativos populares encontradas em Minas Gerais, sem a pretensão de dar o assunto por esgotado, tal a riqueza, deste filão folclórico e lingüístico, ainda pouco explorado.
Muitas das fórmulas aqui registradas são comuns a outros Estados e mesmo países deste e de outros continentes, pois o fato de sua ocorrência na linguagem popular é universal.
Limpo como Deus quer as almas.
Sujo como pau de galinheiro.
Feio como a mãe do sarampo.
Surdo como uma porta.
Bêbado como um gambá.
Apanhar como cachorro sem dono.
Ter filhos como rato.
Molhado como pinto no azeite.
Comer como um frade. Também: Como um homem de bem.
Firme como o Pão de Açúcar.
Pobre como Jó.
Ladrão como rato de igreja. Em francês encontramos: Geux (pobre) comme un rat d'eglises.
Tremer como vara verde.
Ruim como cobra.
Mole como banana ou como lingüiça crua.
Lerdo como lesma; ou como bicho-preguiça.
Ligeiro como corisco (relâmpago).
Passageiro (efêmero) como fogo de palha.
Cego (instrumento cortante) como pedidor de esmola.
Perdido como agulha no palheiro, ou no paiol.
Andar como urubu malandro. (Andar bamboleando o corpo).
Apertado como sardinha em lata.
Sofrer como sovaco de aleijado (com a muleta). Também se diz: como pé de cego em porta de igreja.
Servir como canela.
Depressa como quem vai tirar o pai da forca.
Andar devagar como se pisasse em ovos.
Suar como tampa de chaleira.
Chorar como bezerro desmamado.
Berrar como bode embarcado.
Liso como quiabo.
Pão duro (avaro, seguro, unha de fome) como a mãe de São Pedro.
Estes exemplos são suficientes para deixar caracterizado o fato folclórico (e lingüístico), corrente em Minas Gerais e em outras partes, por esse mundo afora.
Em toda a nossa documentação destes estudos ligeiros de fraseologia popular vimos o quanto podem servir-se mutuamente o folclore e a filosofia. Outros setores da cultura popular tradicional continuam sem limites definidos para estas duas ciências, encontrando ambas abundante caudal de material de seus interesses.
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