A literatura oral perpetuada pelo povo sofre variadas adaptações nos diversos meios onde penetra, tomando ares de regionalismo. Não perde, contudo, suas características originais; apenas se modifica, tomando novas cores, vestindo-se de novas roupagens, – para se apresentar de novo... como coisa nova. Essa, pelo menos, é a regra geral, o que não exclui a inegável faculdade criadora popular.
No Brasil inteiro, encontramos lendas e contos religiosos; alguns revelam, à primeira vista, suas origens e outros parecem absolutamente regionais.
O folclore depende, precisamente, dessas duas forças genuinamente populares; conservação e criação, sem as quais deixaria de existir.
Dos contos populares correntes em nosso país, indubitavelmente, muitos são de origem européia; portuguesa, principalmente. Alguns, contudo, parece-nos serem criação popular brasileira. Cremos poderem ser incluídos nesta última categoria os dois contos populares religiosos seguintes, colhidos em Maria da Fé, no sul mineiro.
O pobre e o rico
Um dia, Jesus fez-se passar por mendigo e apareceu na fazenda de um homem muito rico e avarento.
Chegando à sua casa, percebeu que haveria ali um grande banquete. Vários bois, porcos, carneiros e frangos tinham sido matados para o festim.
Jesus, batendo à porta, pediu que dessem-lhe alguma coisa para comer. O avarento fazendeiro respondeu-lhe, rispidamente:
– Que diabo! Toda hora vem gente aqui pedir esmola!
Resmungando e blasfemando deu a Jesus um mísero pedaço de pão velho e mando-o embora.
Jesus, com humildade, agradeceu, aceitando o que recebera e retirou-se, depois de guardar o pão em seu embornal.
Seguindo seu caminho, passou Jesus pela casa miserável de um pobre casal de velhinhos que morava na propriedade do rico fazendeiro e que por ele eram vilmente explorados. Aí batendo à porta, pediu também que lhe dessem de comer.
Uma pobre velha veio atendê-lo e disse-lhe que apenas tinham uma galinha, um punhadinho de sal e um pouco de farinha, mas que daria um jeito; que ele sentasse no banquinho enquanto ela ia arranjar o que pudesse. Era pouco, mas arranjaria.
– Estou vendo tudo... – disse Jesus.
A mulher fez a galinha cozida, com caldo engrossado com a farinha e serviu.
Jesus, agradecendo muito, rejeitou a galinha dizendo à pobre velha que era sexta-feira e nesse dia ele não comia carne. Que o casal comesse, enquanto ele comeria apenas o caldo engrossado com farinha. E todos comeram juntos.
Após o jantar, Jesus pediu licença para deitar um pouco, pois estava cansado de tanto andar. Arranjaram uma cama, onde ele deitou-se.
Os bons velhinhos arrumaram-se como puderam e Jesus acomodou-se para dormir. Seu leito era uns panos velhos, pois nem cama os pobres tinham para lhe oferecer.
No amanhecer do dia seguinte, os velhos assustaram-se ao encontrar o leito do estranho mendigo vazio. Ele desaparecera. Mas qual não foi a sua surpresa quando se depararam com uma casa maravilhosa! Quartos e salas espaçosos e riquíssimo mobiliário. Havia todo conforto e luxo.
Os celeiros estavam cheios de mantimentos. Suas choças no quintal se transformaram em magníficos abrigos, repletos de porcos. À volta da casa, plantações imensas e variadas. Estavam milionários!
Por sua vez, o rico e avarento fazendeiro teve a sua surpresa. As carnes amanheceram podres. Sua magnífica residência era irreconhecível, se transformara numa mísera palhoça coberta de capim. Não havia criações nos quintais, nem plantações nas roças. Até suas roupas tinham se transformado em miseráveis trapos. Estava mais pobre do que os seus agregados que explorava impiedosamente. Só lhe restava um recurso: pedir esmolas, mendigar!
E foi assim que o pobre ficou rico e o rico ficou pobre.
O grão de feijão
Um dia, quando Jesus andava pelo mundo, encontrou à beira de um rio, tocando viola, uma mulher muito pobre. Perguntou-lhe, então:
– O que você está fazendo, pobre mulher?
– Tocando viola. Minhas crianças estão com fome e eu toco viola para distraí-los.
Jesus, então, deu à mulher um grão de feijão e disse-lhe:
– Cozinhe este grão que dará para todos comerem.
A mulher espantou-se, mas aceitou. Jesus, percebendo o espanto, esclareceu:
– Ponha na panela para cozinhar e só destampe para pôr água.
A pobre mulher foi embora, levando o grão de feijão. Chegando em casa tratou de pô-lo na panela e fez como o desconhecido homem mandara. Quando destapou a panela para pôr água, ela estava tão cheia que até transbordou.
A admiração foi grande; maior ainda quando olhando para um canto da cozinha, viu um saco cheio de feijão; mais adiante, outro cheio de arroz; ao lado, mais um de farinha, e assim de todos os mantimentos de que precisava.
Percebeu, então, que aquele estranho homem era Jesus e que milagrosamente foi socorrida porque não duvidara de sua palavra. E nunca mais precisou tocar viola para distrair as crianças que tinham fome.
* * *
Os dois contos acima, evidentemente, são de tipos diferentes, se bem que ambos descrevam milagres de Jesus. O primeiro visa condenar a exploração do pobre pelo rico. A imaginação popular criou um Jesus que corrige a diferença de posses materiais... tirando-as de quem tem para dar a quem não as tem. Na verdade, não é teoria cristã, pois Jesus nunca agiu dessa forma.
No segundo, vemos uma repetição da multiplicação de alimento; em vez de pão e peixes... um grão de feijão, que se multiplica, péla fé que uma pobre mulher teve.
Outros contos existem e correm chão por Minas Gerais afora. Proceder-se à sua colheita é levantar todo um edifício de tradições populares mineiras, edifício, sem dúvida, magnífico, que requer um grande número de obreiros. Não é obra de um só e para largo tempo. Levante-mo-lo!
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