Dentro do seu propósito de crítica – e, por vezes, embora não o pareça, de intenção pedagógica – a anedota envolve, quase sempre, todos aqueles que exercem função de relevo no meio social: juízes, desembargadores, advogados, políticos, militares, padres, escrivães, artistas, comerciantes, industriais etc. etc.
Também os médicos não poderiam ficar livres das setas ou farpas dos criadores de anedotas.
Essas farpas e setas – diga-se de passagem – não trazem nas pontas o veneno do rancor, da inveja, da antipatia ou maldade. De tais sentimentos ou ressentimentos está sempre isenta a anedota. O seu criador, instantaneamente anônimo e os seus numerosos recriadores apenas se interessam pela anedota em si, pela carga de riso que ela, ao ser contada, fará deflagrar entre os ouvintes que, por certo entenderão e hão de saborear o pico de graça de sal e pimenta que nela se contém.
A prova melhor dessa isenção de perversidade está no fato, facilmente comprovável, de que as figuras nominalmente referidas em algumas delas, quase sempre, não se rebelam contra a referência irreverente do gracejo.
Além do prazer de criação de uma anedota bem feita; deve sentir o seu criador o justificado orgulho de ser o interprete da opinião pública, o porta-voz, anônimo embora, do riso e do sentimento generalizado do grupo social que vivem.
Aliás, não se situa, apenas no seu ambiente social a mina onde o criador de anedotas vai buscar inspiração para compô-las. Sempre em dia com os acontecimentos que ocorrem no mundo (vejam-se as anedotas em torno do grego Onassis e Jacqueline...), sempre atento às conquistas da ciência (exemplo frisante as que se prendem aos vôos espaciais), a anedota vai catar assunto na terra ou nos astros, no céu ou no inferno. Até lá irá a inteligência do inventor de anedotas, na impaciência de seu ato criador.
É, assim, a anedota, uma forma de projeção, de exibição pessoal – do criador e do contador – aspecto que Freud claramente explica em sua obra científica ( Confira o leitor, querendo, o livro do médico argentino Gomez Nerea, Freud, o chiste e o inconsciente, tradução brasileira, Ri de Janeiro, 1941, páginas 178 e seguintes).
Vamos porém, ao que aqui nos trouxe.
A medicina e seus avanços técnicos, o médico e suas mil e uma atividade são – sempre o foram –- temas ricos para a criação de anedotas populares.
Mestre Cristiano Fraga, no interessante artigo "A anedota no folclore" (A Gazeta, 29 de setembro de 1969), depois de conceituar a anedota e salientar a sua função social, a sua perenidade na repetição oportuna, fala nas "boas antologias anedóticas", algumas publicadas no começo deste século, e cita, entre estas, do higienista francês G. J. Withwoki, as Anedoctes médicales e La medicine littéraire et anedoctique.
Beirando a anedota – às vezes ligadas a ela por certas afinidades – o epigrama e a caricatura também farpeiam médicos. Vejam-se por exemplo, os Epigrammes françaises, escolhidos e anotados por Maurice Allem (Paris, s/d, páginas 22, 58, 91, 115 a 117, 139, 230, 257, 278...) e La caricature littéraire, de Lucien Refort (Paris, 1932), de onde retirei a cena de consulta médica que ilustra este meu escrito.
Não conhecendo, infelizmente, os livros a que se refere Cristiano Fraga, valho-me, aqui como exemplos de anedotas médicas, das que o nosso povo – sem ponta de dúvida o maior e melhor inventor de anedotas – criou dentro do campo das operações e transplante. Há nelas – e em todas do mesmo tipo – evidente sabor de malícia e obscenidade. Por exemplo:
Antes porém, uma pequena ou mini-pausa: Existe o obsceno, o imoral, o indecente, o erótico. Nas anedotas porém, por mais livres que elas sejam, não há flagrantemente nem o erótico, nem o indecente, nem o imoral, nem o obsceno, considerados como coisa má, condenável, perniciosa ou torpe. A graça a brejeirice, o humorismo, a galhofa, o riso enfim tudo isso retira da anedota livre aquele conteúdo malsão que marca e condena o imoralismo.
Vamos aos exemplos das anedotas: a que conta o implante de mão feminina num maneta e as suas imprevistas conseqüências quando ele, por necessidade, se acha num reservado. Aquela outra que reúne Juscelino e Israel, ambos interessados em certo transplante, e a operação frustrada do último desses dois mineiros. Também a que transplanta "aquela" peça de um cliente de voz fina para um esperto médico de vozeirão (só o vozeirão) grosso... Essas anedotas, e tantas outras que exploram os mesmo temas: operações, transplantes, rejeição – constituem uma espécie que poderá desaparecer, mercê do vertiginoso desenvolvimento da ciência médica. Fugirão elas, assim, a uma das características da anedota comum, que é a sua difusão rápida, seu declínio e morte e a sua ressurreição, quando possível aplicá-las, amanhã, a outras figuras semelhantes às para quem, hoje ou ontem, foram criadas.
De qualquer modo, porém, cumprem elas – como as demais – a sua finalidade e o seu destino: fazer rir ou gargalhar muita gente, fazer crítica social risonha, descomprimir a tensão e fazer esquecer, por alguns momentos, as tristezas, o tédio e as angústias da vida que passa.
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